Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (às quintas-feiras).
CADEIRA, ESTACA DE MADEIRA
O Nó, o vampirismo e a estética da burocracia
Ouvindo o novo trabalho da banda O Nó, intitulado Era Normal, a primeira coisa que me vem à mente é a tal estética da burocracia. Particularmente presente na nossa realidade brasileira, a estética da burocracia alinhava aquele café de repartição que tem gosto de torrão com aspartame, aquela caneta bic presa com um fio de nylon, o potinho de goma arábica para lacrar os envelopes de recibos fiscais, as pilhas de blocos de talão de prestação de serviço, as horas e mais horas acumuladas diante do painel da senha, aquela conversa na beira do galão de água, copinho plástico, lixo de cano de pvc… Enfim, tudo dentro de uma realidade cotidiana, intransponível.
No entanto, Era Normal não parece falar apenas na dignidade resignada do funcionalismo público, mas sim da mentalidade do escritório, do discurso da firma neoliberal que se assentou como verdade, que suga nossas forças vitais, precarizando o ambiente de trabalho, enquanto nos convence de que isso é hidratação, destaque, superação ou, enfim, empreendedorismo. “Para ser uma nova pessoa, basta querer”, “trabalhe enquanto eles dormem”, e assim por diante, são os chavões de um narcisismo vampírico: trocar o dia pela noite e adquirir forças sobre-humanas são os motes de uma mentalidade LinkedIn, que pede que você “empregue o pronome possessivo ao referir-se a empresa onde trabalha“.
Os integrantes d’O Nó se vestem com paletós alguns números maior do que deveriam, portando uma indumentária pesada demais para carregar. “Pesada é a cabeça que carrega a coroa”, diria o conselheiro do rei, e também é pesada a carcaça sob o paletó, diriam os Recursos Humanos. O nome da banda identifica esse enlace contemporâneo, o nó de gravata, o ritual de passagem do homem adulto, símbolo do poder masculino, e que simultaneamente sufoca a glote do salaryman em sua jornada diária. É possível pensar nesses personagens da cultura pop – como o Dwight, de The Office –, excessivamente entregues ao emprego, que perderam a noção de onde termina o trabalho e começa a vida, presos no limbo de um fumódromo ideológico, que vai ficando encardido, vestido com tons amarelo esverdeados, manifestando na roupa a própria estagnação.
O seriado O Que Fazemos nas Sombras, por sua vez, traz o ambiente de trabalho como força vampirizadora. São vários os tipos de vampiros presentes ali, e um deles, chamado Colin Robinson, é um vampiro de energia, e não por acaso, um funcionário de escritório. O seriado mostra personagens humanos que desejam ser sangrados, mordidos, para se tornarem como aqueles sanguessugas que estão no poder. Os vampiros surgiram como personagens detestáveis na cultura, como o repugnante Nosferatu, mas, ao longo do tempo, se tornaram charmosos e sedutores. Vampiros narcísicos demonstram nossa curiosa relação com estes desejos de consumo, que hoje em dia são vendidos por coaches estelionatários.
Pois bem, enquanto desejamos consumir, somos consumidos nesse feudalismo digital das redes sociais, que restringem o espaço virtual ao quintal de meia dúzia de bilionários. Como recuperar o desejo, a pulsão de vida, presos no sonho do capitalismo tardio? É aí que entra o grande nó: como ser uma pessoa normal, como retomar a sensacional sensação de ser sem sal? O nome Era Normal aponta para essa bifurcação: estamos no período de tempo geológico, que vai se estender por toda nossa existência, ou podemos transformar finalmente a mentalidade obsoleta em passado?
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