SINAPSE: a grande vastidão

Laurel Halo, “A Árvore da Vida” e Aby Warburg

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (às quintas-feiras).

 

ÁRVORE DA VIDA

Laurel Halo, Terrence Malick e as árvores genealógicas

 

Atlas é um álbum de música eletrônica lançado no final do ano passado pela artista Laurel Halo. Há algo de abstrato e grandioso no disco que me chama a atenção, com ondas sonoras que se transmutam como na observação de nuvens ou de outros fenômenos meteorológicos. Seja qual for a metáfora escolhida para descrever a sua música, em geral se trata de algo que transcende a escala humana: a erupção de vulcões, uma tempestade em alto-mar, auroras boreais e coisas do tipo.

Essa sensação me leva ao filme A Árvore da Vida, de Terrence Malick, que guardo na minha lista de filmes favoritos da década passada. O filme, por meio de imagens oníricas e esparsas, conta a história da reação de um filho com o seu pai autoritário no interior dos Estados Unidos. No entanto, em determinado momento, o longa repentinamente muda de tom e nos leva de imagens cotidianas e frugais para uma viagem através do tempo e do cosmos – para uma cena em que os dinossauros estão prestes a serem extintos pela queda do cometa e, em seguida, para imagens em alta resolução dos planetas que flutuam em nosso sistema solar.  E assim, o filme nos deixa em estado meditativo, como se através de fenômenos naturais sublimes e eventos inexplicáveis fizesse referência às forças que regem a vida, à cadeia de acontecimentos que nos trouxe até aqui, mais do que simplesmente causa e consequências umas das outras, uma trama de forças invisíveis que se articulam e ricocheteiam em repetição através dos séculos.

Os títulos Atlas e Árvore da Vida, por sua vez, me levam ao célebre historiador da arte Aby Warburg, que mudou a nossa percepção do estudo da disciplina ao elaborar o que chamou de Atlas Mnemosine. O Atlas de Warburg era, em suma, uma árvore genealógica das imagens, painéis com o estudo de imagens que sobreviveram à passagem do tempo. O estudo sobre O Almoço na Relva, de Manet, é particularmente interessante: as poses e trejeitos presentes no quadro podem ser traçados a uma escultura de um túmulo romano, que posteriormente foi pintada por Rafael, e em seguida copiada em uma gravura do artista Marcantonio Raimondi, até finalmente ser incorporada por Manet na pintura que hoje é mundialmente famosa. Poses e trejeitos que remetem a uma antiguidade mítica pagã, vão se descolando de seus significados e contextos, até finalmente chocar o pudor da sociedade do século vinte com uma pintura a óleo.

Ao escrever sobre o processo criativo, Laurel Halo cita em sua newsletter o escritor Roberto Bolaño, que descreve o número esmagador de vozes criativas, críticas e curiosas no mundo, que em sua maioria não são ouvidas e, em última análise, são enterradas nas areias do tempo:

“Aproximar-se da obra, navegar atrás dela, é sinal de morte certa, mas novas Críticas e novos Leitores aproximam-se dela incansavelmente e implacavelmente e são devorados pelo tempo e pela velocidade. Finalmente a Obra caminha irremediavelmente sozinha na Grande Vastidão. E um dia a Obra morre, como todas as coisas devem morrer e chegar ao fim: o Sol e a Terra e o Sistema Solar e a Galáxia e os confins da memória do homem. Tudo que começa como comédia termina como tragédia.”

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Autor:

é músico e escreve sobre arte