Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (às quintas-feiras).
BASALTO
Pablo Diserens, Ludwig Berger e a acústica das rochas
Tracing Basalt in the Onsernone Valley é o primeiro projeto colaborativo dos artistas sonoros Pablo Diserens e Ludwig Berger. Resultado de uma parceria entre os selos Forms of Minutiae e Vertical Music, o álbum de field recording registra paisagens naturais do interior da Suíça. Ao longo das faixas, ouvimos o barulho da água e do vento, ocasionalmente de insetos e pássaros, até que o sintetizador começa a preencher a atmosfera com uma sensação de mistério e esperança.
A lista de faixas traz nomes curiosos, como “a chuva é o sol do som”, “quão profundamente o som pode penetrar?” e “encontrando a frequência do basalto”. Olhando com um pouco mais de atenção, descobrimos que estes títulos evocativos na verdade são aforismos de uma pessoa misteriosa chamada Basalt.
De acordo com os músicos envolvidos no projeto, certo dia, caminhando no Oratorio di Niva, nas profundezas do Onsernone Valley (Ticino, Suíça), Ludwig Berger e Pablo Diserens encontraram folhas soltas de papel em uma pasta marcada com o nome “Basalt”. Dentro, folhas de sulfite datilografadas à máquina de escrever com sentenças como “que eventos do passado meu corpo carrega como vibração residual?”, “além da erosão fluvial e erosão eólica, existe a erosão acústica” e “a pedra é silenciosa, mas escuta infinitamente o seu próprio som-tempo”.
De acordo com a sinopse do álbum, diz-se que Basalt (1910 – ?) era uma pessoa não-conformista de gênero nascida e criada em Berlim. Estudou geologia enquanto fazia parte da vibrante cena queer da cidade antes de escapar do regime nazista nos anos 1930. Por anos, viajou pela Europa até se estabelecer no Onsernone Valley nos anos 1950, onde desenvolveu um ouvido aguçado e uma relação com o ambiente informada pelas primeiras teorias de bioacústica, psicoacústica e ecologia. Transbordando poesia, as notas de Basalt revelaram uma hipótese própria emergindo de uma metodologia singular de escuta. Basalt passou a vida usando seu corpo como um dispositivo de gravação sonora na esperança de criar um arquivo sônico através de seu esqueleto. Com o tempo, cultivou uma relação íntima e extensa com rochas, pássaros, rios, insetos e habitantes locais humanos – como o colega refugiado trans e poeta Gian Alessandro Rapp. No final, ninguém sabe exatamente o que aconteceu com Basalt. Acredita-se que desapareceu no Onsernone Valley, seu corpo nunca foi encontrado.
A história é fantástica e, honestamente, um pouco difícil de acreditar, mas super possível de ser verídica – Basalt é de fato creditado na lista de participações do álbum, por exemplo. É muito interessante o pioneirismo em pensar na música como uma espécie de ecologia, registrando múltiplas perspectivas auditivas sobre paisagens e pensando relações entre vida humana e não-humana no contexto de mudanças ecológicas.
Por fim, chama atenção também a poesia do nome escolhido por Basalt: uma rocha vulcânica formada depois do esfriamento e da sedimentação do magma. Em seu legado, Basalt deixa matéria-prima fértil e sólida para a criação da música um século depois de sua passagem pela Europa.
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