SINAPSE: cenas dos subúrbios

Fenda geracional e as diferenças entre “The Suburbs” e “Everything Now”

Loading

Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (às quintas-feiras).

 

SUBÚRBIOS

Arcade Fire na fenda geracional

 

The Suburbs, do Arcade Fire, sempre me provocou uma sensação de nostalgia difusa, uma ressonância sem muita definição, cujo objeto nunca se revelou explicitamente dentro de mim. “Saudades do que não vivi”, diria o poeta. Hoje, ouvindo o álbum de 2010, penso que esse é um daqueles trabalhos que captam o sentimento de uma geração, o que é raro e complicado de fazer, amalgamando dentro de si algo que a princípio nunca poderia ser resumido: a experiência de centenas de milhares de pessoas no espírito da época, a regência do tempo sobre o estilo de vida e percepção de mundo de toda uma parcela populacional.

The Suburbs é um álbum que fala de um conflito geracional millennial de classe média, que viveu a virada do século no ocidente, com cada pé em uma realidade diferente, a do passado e a da promessa. Essa é uma geração que participou de quadros geopolíticos de forma mais alienada, distanciada, que não viveu a guerra do Vietnã, o muro de Berlim ou os eventos da Praça da Paz Celestial, mas que tem essas imagens como parte de sua formação, observando tudo de longe e com melancolia.

Spike Jonze traduziu esse sentimento ao fazer um filme inspirado no álbum intitulado Scenes From the Suburbs, em que assistimos a uma banda de adolescentes, vivendo dentro de um condomínio, observando através das grades de sua cenografia sitiada, uma guerra civil que se aproxima. Aos poucos, a vida vai ficando preenchida com a figura de milicianos, que controlam tanto fronteiras literais quanto morais de suas vidas. Essas imagens são metafóricas: quando Arcade Fire fala sobre os subúrbios nos quais cresceram, a guerra é entre os bairros, o refugiado é aquele que saiu escondido da casa da mãe e os muros construídos são entre pais e filhos. De qualquer maneira, assim como observamos na História com agá maiúsculo, dentro de nossas vidas cotidianas as verdades absolutas também começam a ruir conforme uma geração se transforma na próxima. O progresso avança e nunca traz uma verdadeira sensação de melhora: vêm outras ruas, outros prédios, outras cidades, mas as questões do passado nunca encontram descanso.

Hoje, é engraçado perceber o contraste de The Suburbs, no qual a busca pelo pertencimento é o que dá liga ao sentimento geracional, com Everything Now, lançado alguns anos depois – um trabalho amargurado que opta por se dissociar de vez do mundo, inflamando, ao invés do senso de comunidade, o sentimento de cada um por si. Quando escrevi sobre o trabalho na época de seu lançamento, chamei atenção para a arte da capa, que mostra um outdoor cuja fotografia se encaixa perfeitamente na paisagem de fundo, criando uma ilusão de que arte e vida são a mesma coisa. É isso que me incomoda em Everything Now: Arcade Fire incorpora sua música ao cenário desolado da contemporaneidade, pretendendo igualar-se ao mundo contemporâneo apenas para criticá-lo, abarcando seus defeitos e mostrando como são ao seu público. Essa pretensão ao realismo é, no fim das contas, míope. Uma imitação só poderia se encaixar no “mundo real” se permanecesse intacta. Qualquer sinal de passagem do tempo, ou melhor ainda, de outros pontos de vista, escancaram a sua artificialidade.

Por isso, visto à distância, The Suburbs vai ficando cada vez mais contundente, porque observamos como a banda conseguiu elevar a nostalgia, traço geracional tão característico dos millennials à segunda potência. Fica ainda mais evidente a diferença entre The Suburbs e Everything Now – na apoteose, no refrão emocionado e na sensação de redenção para as angústias da vida, que desenham tão bem nosso desejo de fazermos parte (de uma parte) da história. Os millennials estão situados justamente na fenda dessa abstração; a passagem de um século para o outro, vendo de dentro que tudo não passa de fragmentação e analogia, e que o que nos conecta à vida real é justamente a união de uns aos outros.

Loading

ARTISTA: Arcade Fire

Autor:

é músico e escreve sobre arte