SINAPSE: cervo nos faróis

Fontaines D.C. “Alucinações do Passado”, Queens Of The Stone Age e ausência de reflexos diante de uma surpresa

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

CERVOS

Fontaines D.C. “Alucinações do Passado” e lanternas de carro

 

Fontaines D.C. é uma banda dublinense de pós-punk. O grupo lançou seu álbum mais recente Skinty Fia no mês passado e vem angariando elogios da crítica e do público. É o terceiro trabalho do grupo, que traz uma sonoridade noturna, com vocais graves e guitarras distantes. Próxima de outras bandas com explorações musicais nas margens do Rock, como Shame, Interpol ou Stone Roses. A estética do grupo aponta para uma espécie de ressurreição possível do gênero musical.

O videoclipe da faixa-título traz o vocalista caminhando por uma casa noturna. Luzes estroboscópicas e coloridas iluminam o local, ao mesmo tempo em que camuflam acontecimentos esquisitos. Diante do olhar apático do vocalista, rostos começam a se distorcer, enquanto figuras misteriosas aparecem de passagem e parecem participar de algum estranho ritual pagão.

“Deer in the headlights” (“cervo nos faróis”), ou a variante “rabbit in the headlights” (“coelho nos faróis”), são expressões idiomáticas que fazem referência ao estado de paralisia dos animais diante da lanterna de um carro. Ambas são usadas para indicar um estado de confusão que evoca os olhos arregalados e a ausência de reflexos de alguém diante de uma situação de surpresa.

O nome Skinty Fia, em tradução literal, quer dizer Alce Gigante Irlandês – espécie que foi extinta no Holoceno, provavelmente devido à caça humana. Para a banda, a expressão evoca um sentimento de pertencimento à cultura irlandesa.

A imagem do cervo, e sua associação com a ideia de sacrifício, foi usada por muitos filmes de terror psicológico. Entre alguns exemplos mais contemporâneos estão O Sacrifício do Cervo Sagrado, do diretor grego Yorgos Lanthimos, e A Caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg. Ambos metaforizam a humanidade em seus momentos mais sombrios, fazendo uso de bodes expiatórios e de sentimentos de perseguição social, linchamento e vingança.

Outro filme de terror psicológico, este dos anos 1990, intitulado Alucinações do Passado, possui um clima ansioso, bastante carregado nas luzes estroboscópicas. O filme foi a inspiração para a faixa Rabbit in Your Headlights”, do grupo de música eletrônica Unkle. Com vocais de Thom Yorke, a faixa usa diálogos do filme como samples. O clipe é protagonizado pelo ótimo ator Denis Lavant, que faz o papel de um morador de rua caminhando por um túnel em uma noite de tráfego intenso. O final é surpreendente, e inverte o imaginário do sacrifício herdado das tradições cristãs.

Mas existe espaço também para um olhar mais bem-humorado dentro dessas histórias. No clipe da música “No One Knows, do Queens of the Stone Age, é o cervo quem frui da vingança. Nele, vemos alguns membros da banda em uma estrada, à noite, atropelando o animal que, entretanto, sobrevive. Após prender os músicos no capô, acaba os transformando em troféus.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte