SINAPSE: eterno retorno

Brian Eno, “No Longer Home”, “Kentucky Route Zero” e colapsos da contemporaneidade

 523 total views

Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

LOOP

No Longer Home, Brian Eno e Tape Loops

 

Navegando pela coluna dedicada à música de videogame do Bandcamp nessa semana me deparei com a trilha sonora do jogo No Longer Home, composta por Eli Rainsberry. Resolvi experimentar ouvir a trilha sem antes conhecer nada do jogo e, para mim, o resultado não deixa nada a desejar em comparação com outros nomes da música ambient atual. Trata-se de uma música calma, de aspecto delicado, com texturas granuladas e guitarras cintilantes; uma construção que cria um ambiente próprio, ficcional, que transporta o ouvinte a uma realidade paralela.

Não tive a oportunidade de jogar No Longer Home ainda, mas pelo que pude pesquisar trata-se de um jogo narrativo, no qual a ação está majoritariamente centrada no ato de dialogar. No jogo, acompanhamos duas pessoas que dividem um apartamento e estão prestes a se mudar, numa história que explora a dificuldade da separação e a ansiedade de encarar uma situação completamente diferente da habitual.

No Longer Home é muito semelhante a um dos meus jogos favoritos dos últimos anos chamado Kentucky Route Zero. Trata-se de um jogo no qual a ação também é lenta e contemplativa, que acompanha um caminhoneiro que precisa fazer a sua última entrega antes de se aposentar. Situado numa fictícia estrada subterrânea no estado do Kentucky, este também é um jogo melancólico sobre a mudança.

A trilha sonora de Kentucky Route Zero também possui as mesmas características táteis e ansiolíticas da trilha de No Longer Home, embora seja mais expansiva. Composta por Ben Babbitt, que também se aventura pelo folk estadunidense e pelo synthpop, possui uma particularidade interessante: algumas músicas são executadas por uma personagem do jogo, um androide chamado Junebug, baseado na figura da Dolly Parton. Junebug, aliás, chegou a lançar um disco solo, intitulado Too Late to Love You, em 2020.

As músicas, pela sua característica fundamental de serem trilhas sonoras de jogos que são demorados, possuem um aspecto cíclico. O que me lembrou da tendência dos tape loops – como visto no canal desse artista chamado Amulets –, que são feitas recortando e colando um pequeno círculo de fita magnética de uma cassete, transformando-a numa sequência sonora curta e que se repete indefinidamente.

A música ambient sofreu um boom recentemente. Compreensível, já que o gênero é capaz de oferecer um ritmo diferente ao ouvinte contemporâneo, sempre hiperestimulado na aceleração alucinante do capitalismo tardio. É, aliás, interessante voltar às origens do destino e ver que que o termo tenha sido cunhado por Brian Eno em seu álbum Ambient 1: Music for Airports. Dos anos 1970 para cá, o aeroporto que se transformou de um ambiente tedioso em um lugar tenso, que epitomiza os colapsos da contemporaneidade, incapaz de lidar com seus refugiados, suas epidemias e crises climáticas.

Existe um artifício visual muito interessante em No Longer Home e Kentucky Route Zero. Nos momentos de transição entre cenas, o cenário parece se expandir, paredes se deslocam e o espaço fica desconfigurado, abstrato, por alguns momentos. É a representação da estabilidade enquanto uma mera ilusão. O chão sólido que pode se desfazer a qualquer momento, e, para quebrar o loop do ritmo cotidiano, é preciso jogar com o destino.

 

 524 total views

Autor:

é músico e escreve sobre arte