SINAPSE: labirinto cotidiano

Richard Dawson, Robert Wyatt, Allen Ginsberg e becos sem saída

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

BECO SEM SAÍDA

Richard Dawson, Robert Wyatt e a classe trabalhadora

 

O álbum do músico inglês Richard Dawson, intitulado 2020, é carregado de ansiedades. As composições do músico são intrincadas e influenciadas pela música medieval. Dawson canta sobre um esgotamento social induzido pelo excesso de trabalho: cada faixa narra a perspectiva de um personagem diferente, o que faz do álbum um panorama, descrevendo a ilha britânica como um país à beira de um colapso mental.

O álbum começa com os versos “abra seus olhos, hora de acordar”, como se o desgosto de uma segunda-feira se abatesse sobre o narrador. Na faixa “Civil Servant ele conta a história de um funcionário público que lamenta mais um dia de serviço dizendo “eu não quero ir trabalhar / acho que não consigo lidar com a ira do público em geral”.

No clipe de “Jogging”, Dawson assume o papel de um personagem que começa a correr por recomendação médica. Vestido com um moletom amarelo, toma um café e sai na tentativa de amenizar suas crises através do exercício físico. Enquanto vaga pelos becos e periferias da cidade, traça um mapa da sociedade inglesa de sua época.

O estilo de Dawson alude ao de Robert Wyatt, outro músico inglês, membro da influente Canterbury Scene entre os anos 1960 e 1970. Compositor disciplinado, Wyatt possui um pensamento aracnídeo, no qual letras extensas e harmonias improváveis formam uma malha amalgamada de sensações.

A capa do álbum Schleep (1999) tem o desenho do músico dormindo sobre o dorso de um pássaro. Na música de abertura, “Heaps of Sheeps, composta em parceria com Brian Eno, Wyatt canta em primeira pessoa sobre alguém tenso, deitado na cama com insônia, enquanto tenta, sem sucesso, contar carneirinhos.

Já na músicaBlues in Bob Minor, Wyatt canta sobre dois personagens submersos na espiral cotidiano. Os versos iniciais colocam dois personagens em paisagens do subsolo (um arquivo e um porão, para ser mais específico), o que sublinha essa sensação. O efeito vertiginoso da canção é obtido através de um vocal rápido e de uma letra cheia de imagens confusas. O tom político da letra é uma paráfrase do clássico “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan.

“Subterranean Homesick Blues” se refere a uma nostalgia da geração beat. Em 1958, Jack Kerouac escreveu Os Subterrâneos – um trabalho que documenta a vida dos jovens urbanos da geração Beat. O poeta Allen Ginsberg havia se referido aos poetas beat como “subterrâneos” para destacar a natureza furtiva de suas atividades. A música tem um videoclipe famoso, em que Bob Dylan mostra a letra da música, escrita em cartazes de protesto. O cenário é, justamente, um beco, e, no canto da imagem, podemos ver o poeta Allen Ginsberg.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte