SINAPSE: longas jornadas

Squid, Bi Gan, “Death Stranding” e a desconexão com o mundo físico

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

 

A REALIDADE VIRTUAL NO FIM DO MUNDO

Squid e a viagem pelo tempo expandido.

 

Uma das melhores apresentações da rádio KEXP das últimas semanas é a da banda londrina Squid, que passa pelo programa para divulgar o álbum Bright Green Field, lançado no ano passado. A música, pós-punk, é incisiva, com timbres metálicos e abrasivos. Na performance, uma longa construção da música de abertura “Boy Racers”, de mais de 10 minutos, parece levar o ouvinte a uma realidade paralela.

Aliás, talvez “construção” não seja o termo correto, porque a sensação é justamente a oposta: aos poucos a música começa a se fragmentar, como se algo grande começasse a desabar, tipo uma plataforma de petróleo ou uma antiga indústria abandonada: camadas de concreto se desfazem, circuitos eletrônicos ficam expostos e fios elétricos entram em curto. Afinal, essa destruição sonora culmina na música “Narrator”.

“Narrator” conta a história de uma pessoa incapaz de distinguir sonhos e memórias da realidade. A música é inspirada pelo filme chinês de 2018 intitulado Longa Jornada Noite Adentro, dirigido por Bi Gan. Em uma entrevista, o diretor declarou que seu processo de escrita é um processo de destruição:

“Nunca fiz cursos de roteiro, então desenvolvi meus próprios hábitos de escrita. Após escrever o primeiro rascunho, comecei a destruí-lo por dentro, pouco a pouco. Isso criou uma forma que me agradou. Originalmente, Longa Jornada Noite Adentro era um filme noir. A partir desse meu processo de ‘destruição’ de cena após cena, o filme finalmente assumiu o estilo que tem hoje.”

A segunda parte do filme, uma cena contínua de 59 minutos de duração, envolveu uma longa produção e foi convertida posteriormente para o 3D para uma mudança de textura visual. O filme usa imagens geradas por computador e distorce o senso de realidade e, assim, metaforiza como o cinema assemelha-se ao funcionamento da memória.

O clipe de Narrator também mostra a banda tocando num cenário 3D. Os integrantes aparecem tocando em uma planície enlameada, cheia de detritos, que aos poucos se torna mais complexa, com prédios abandonados. Feito com a Unreal Engine, uma ferramenta para construção de jogos, o clipe constrói paisagens corrompidas e pós-apocalípticas com uma fidelidade fotorrealista.

O vídeo lembra, visualmente, o videogame chamado Death Stranding, desenvolvido por Hideo Kojima. O jogo conta a história de Sam Bridges, um personagem que, após um evento apocalíptico, tenta reativar um sistema de internet pelas vastas paisagens desoladas dos Estados Unidos.

Criticado por ter um andamento moroso e uma história confusa, o jogo foi chamado de “simulador de caminhada”. A proposta, no entanto, é justamente uma jornada mais imersiva. No jogo, onde cai uma chuva intermitente que faz as pessoas envelhecerem, o personagem deve, em suma, atravessar terrenos instáveis.

A cena final de Jornada Noite Adentro, as músicas de Squid e o videogame de Kojima possuem uma característica fundamental em comum: são longos. Além disso, é claro, todos eles escolheram o mundo virtual para existir. Curiosamente, todos exigem um tempo expandido de fruição, algo que, dizem, perdemos depois do uso de tecnologias.

Desacostumamos com o tempo que passa devagar ou estamos experimentando novas possibilidades de alargamento provocadas pelo mundo virtual? Talvez o apocalipse, essa sensação de fim dos tempos, não venha sem uma espécie de desconexão com o mundo físico, provocada pela entrada em outra realidade.

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ARTISTA: Squid

Autor:

é músico e escreve sobre arte