Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (às quintas-feiras).
OUVIR: VERBO DE AÇÃO
A Bienal de SP e a escuta
O ato de escutar está muito presente na Bienal de SP deste ano, intitulada Nem Todo Viandante Anda Estradas: Da Humanidade Como Prática. O nome é inspirado por um verso de Conceição Evaristo que vem de um poema intitulado “Da Calma e do Silêncio”. A mostra tenta conduzir nossa relação com a arte através de títulos que, dentro de uma cidade como São Paulo, evocam momentos raros de silêncio.
O seminal ensaio Noise: The Political Economy of Music, escrito por Jacques Attali em 1977, é uma boa chave para entender essa relação da Bienal com o som. Attali escreve que “há 25 séculos, o conhecimento ocidental tenta ver o mundo. Mas ele não entendeu que o mundo não é para ser contemplado. É para ser ouvido. Não é para ser lido, mas escutado”. Ou seja, dentro de uma curadoria que pensa a humanidade como um ecossistema, funcionando em conjunção com o ambiente ao seu redor, e não separada dele, adorei ver trabalhos que pensam a música e o som dentro desta lógica.
Leonel Vásquez, por exemplo, é um artista colombiano que investiga o som como força vibracional e meio de transformação sensorial. Vásquez tem se dedicado a práticas de escuta relacional voltadas a “agências sônicas mais-que-humanas” – como a água, árvores, pedras e outras matérias vivas e vibrantes. Em sua obra Templo da água: rio Tietê, apresenta uma instalação muito bonita na qual longas flautas de cobre, conectadas a bulbos de vidro e animados por um sistema mecânico, mergulham em bacias de água, soprando o ar e produzindo som. O subir e descer aleatório das flautas produz notas soltas, acordes dissonantes e uma harmonia improvável que envolve o corpo do ouvinte.
De acordo com o artista, “entender e interagir com a realidade implica dispor de uma atitude atenta e profunda aos seus sons, intenção que está sujeita à mediação de sentidos, interesses e poderes; a escuta é antes de tudo um ato político. […] O som como substância sutil, transparente, sem forma e ao mesmo tempo força vibrátil e dúctil, me permitiu moldar a experiência do corpo e do espaço dentro de um fluxo de intensidades temporais e afetivas.”
Outra obra que pensa na interação aleatória do som, produzido através de matérias orgânicas, é Quando o nada se torna um eco de algo e algo é um eco do nada (sete respirações) do artista vietnamita Trương Công Tùng. A obra é uma escultura espalhada no chão, formada por tapetes de contas de madeira, vasos laqueados, tecidos tingidos de areia de basalto vermelho, cabaça, um cupinzeiro revestido com outro, e alguns chips com luzes piscantes e fios coloridos. Entre objetos escolhidos, o artista tece uma rede híbrida entre naturezas orgânicas e dispositivos tecnológicos. Conforme o espectador avança por sua escultura, tentando decifrar seus elementos, sensores detectam sua presença e emitem sons em resposta. Os sons acontecem de repente e colocam a escuta como método de percepção humana no mundo, para além do protagonismo visual, “sintonizando novamente nosso subconsciente com a presença espontânea e instigante dos sons.”
Finalmente, Nguyễn Trinh Thi, outra vietnamita, busca uma abordagem mais sensível para perceber o mundo, dando atenção especial às paisagens sonoras. Sua obra da Bienal, derivada de um trabalho anterior intitulado Ri s̄eīyng’, encontra-se em uma sala escura, e só pode ser percebida depois de um momento de pausa do espectador. É preciso que o olho se acostume à escuridão para enxergar instrumentos pendurados no teto, e é também preciso fazer silêncio para que eles comecem a tocar sozinhos através de alguns gatilhos robóticos.
A paisagem sonora, composta por Nguyễn com influências da música do Leste Asiático, está em constante mutação, sendo aleatorizada, interrompida ou silenciada conforme interage com movimentos e vozes no espaço, ou com a intensidade da luz solar na sala. Ao detectar movimento ou uma voz humana, os instrumentos param de tocar, resultando em silêncio até que a calma seja restaurada. Assim como na floresta, a paisagem sonora de pássaros, animais e espíritos só se revela por completo quando estamos em escuta atenta.
Os três trabalhos podem parecer que propõem conceitualmente uma espécie de abstenção humana na natureza, um silêncio necessário para nossa existência no mundo. No entanto, propõem estruturas naturais criadas por humanos, em uma mistura entre materiais orgânicos, sensores tecnológicos e instrumentos musicais que interagem necessariamente com a presença do público. Silenciar e ouvir são verbos de ação.
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