SINAPSE: sistemas complexos

Superorganism, OK Go, Rube Goldberg e os absurdos que podem acontecer diante do imprevisível

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

 

UM SUPERORGANISMO

Superorganism, Everything e a teoria do caos

 

Conheci a banda Superorganism há três anos, quando o grupo se apresentou no famoso escritório do Tiny Desk. Essa apresentação se destaca entre as outras, por conta do caráter evidentemente “performático”: para além do visual dos músicos, que parecem ter saído de algum filme do cineasta americano Wes Anderson, o uso de carrinhos de brinquedo, baldes com água, maçãs e outras parafernálias como instrumentos musicais, dão um caráter lúdico à ocasião, como se estivéssemos assistindo a um bando de cientistas malucos anarquizando uma feira de ciências.

Me lembrei de quando, há 10 anos, tive a oportunidade de assistir a um show da banda OK Go,  que emana a mesma energia chaotic good, fazendo uso de instrumentos inusitados e cenografia para propor uma apresentação cujo foco não parece estar necessariamente na música em si, mas na ocasião do show.

O show da OK Go parece apenas uma remanescência dos seus videoclipes, espetaculares à sua maneira. Tudo começou com o vídeo de uma coreografia de alguns marmanjos sobre esteiras de caminhada, que viralizou e alavancou a carreira da  banda em direção à fama. Animado, o grupo passou a experimentar coisas cada vez mais grandiosas que, eventualmente, evoluíram para performances megalomaníacas, fazendo uso da gravidade zero e outros absurdos.

Professor Butts and the Self-Operating Napkin é um cartoon dos anos 1930, desenhado por Rube Goldberg. O desenho mostra uma máquina ridícula, extremamente complicada, designada para executar uma tarefa simples: usar o guardanapo. Goldberg, cartunista, escritor, artista plástico e engenheiro, dividindo-se em inúmeras funções criativas, era como a personificação dos sistemas que criou.

As máquinas de Rube Goldberg são evidentemente a inspiração da OK Go porque entretêm e são engraçadas. No entanto, uma interpretação mais complexa aparece nesse imbróglio: a constatação de que, muitas vezes, o caminho mais longo e absurdo para realizar uma tarefa é também o mais criativo.

Mas, voltando à Superorganism, recentemente a banda lançou uma música chamada “It’s Raining, que conta com a participação de Stephen Malkmus e Dylan Cartlidge. Trata-se de um single que antecipa um álbum ainda por vir, e conta com um clipe em animação 3D. No vídeo, o protagonismo fica por conta das gotas de chuva, mais especificamente aquelas que escorrem lentamente pela janela e capturam nossa atenção quando estamos melancólicos, sentados no banco do passageiro e olhando para a paisagem.

A animação, bem-humorada e que dá vida a uma gota d’água, me lembrou o trabalho do artista David O’Reilly. Em 2017, O’Reilly lançou um jogo de videogame chamado Everything, cuja proposta é viajar pelas coisas do universo. O jogador ocupa o corpo de um camelo, depois pula para um coqueiro, depois uma formiga, um grão de areia, uma nuvem e assim por diante, podendo controlar tudo, de planetas inteiros a, alternativamente, vírus e bactérias. Do micro ao macrocosmo, jogar Everything é experienciar algo em comum que une todas as coisas do universo.

Da meteorologia, passando pela política e até a Teoria do Caos, estudar os sistemas complexos é tentar entender como uma ação interfere em um grande número de variáveis, resultando em causas e efeitos aparentemente impossíveis de calcular. Um exemplo famoso é a do efeito borboleta, que afirma que o inseto, ao bater as asas para alçar voo, pode acabar provocando um furação em outra parte do mundo.

Superorganism, uma banda de sete pessoas que se conheceram pela internet, é o resultado feliz de interações criativas que aconteceram no acaso da vida. A maneira caótica como essas pessoas compõe a sua música é sintomática dos absurdos que podem acontecer diante do imprevisível.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte