SINAPSE: superfícies reflexivas

caroline, Mac DeMarco, slowed+reverb e flanar pelos leitos dos rios

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

 

CANSAÇO, REFLEXO

caroline, Mac DeMarco e o reverb

 

caroline é uma banda inglesa que explora uma sonoridade simpática ao post rock, com influências do emo estadunidense “raiz” e  algumas tendências experimentais. O seu auto-intitulado álbum, que nasceu após cinco longos anos de processo criativo, debutou finalmente no mês passado.

A música de caroline é caracterizada por acordes insistentes, em canções de um único verso, que se repetem como ecos reverberando por alguma caverna. Como se estivessem emperrados em algum lugar insuperável, esses “temas” crescem em energia, fermentando como algo engarrafado e borbulhante. O número de integrantes, oito na formação atual da banda, dá corpo às composições e engrossam o caldo das apresentações ao vivo.

Uma das fotos de divulgação do álbum mostra os integrantes vestidos de galochas, apoiados num tronco de árvore que parece ter caído no leito de um rio. O mesmo figurino é aproveitado para o clipe da música “Skydiving Onto the Library roof, no qual a banda aparece chafurdando por um canal a céu aberto, embaixo de uma ponte, enquanto tira alguns pneus de dentro da água.

De acordo com uma entrevista, alguns integrantes da banda adotaram o “wading” como ocupação depois da pandemia. “To wade”, em inglês, significa caminhar parcialmente imerso pela água. Uma espécie de flanar, mas pelos leitos dos rios que circundam as cidades. O termo também serve de metáfora para uma situação laboriosa, na qual se avança lentamente.

Um ótimo vídeo para conhecer o grupo é uma apresentação ao vivo promovida pelo selo Rough Trade. A banda, colocada dentro de uma piscina vazia, de ladrilhos azuis, apresenta as músicas “Dark Blue e “Skydiving Onto the Library Roof. Do lado de fora do que parece ser um ginásio abandonado, com ambientes cobertos de vidros espelhados, um microfone capta apenas as reverberações que escapam da sala principal.

As paisagens habitadas por caroline, cheias de água e superfícies reflexivas, são particularmente suscetíveis ao eco, e evocam um tipo de música muito nostálgica, apegada ao reverb como espinha dorsal de sua estética.

Mac DeMarco lançou seu terceiro disco, Salad Days, em 2014. O álbum é marcado por um certo cansaço, em músicas que falam sobre o processo de envelhecer. Nele, a música Chamber of Reflection, particularmente submersa em reverb, é um exemplo melancólico sobre a consciência do amadurecimento.

O nome Chamber of Reflection faz referência a um ritual que faz parte do processo iniciático da maçonaria. Nele, o candidato deve se isolar dentro de um quarto – ou “câmara” –  e refletir com o propósito do autoconhecimento. Entre os objetos simbólicos que são colocados neste lugar para induzir as meditações estão um espelho e um jarro de água.

O riff principal de Chamber of Reflection é sampleado. Nos anos 1970, Shigeo Sekito sentou-se à frente de seu órgão eletrônico Electone e gravou uma série de discos chamada Special Sounds. Considerado um prodígio no instrumento, Sekito é  uma referência em sons experimentais eletrônicos da sua época. No segundo volume desta série, o artista gravou uma porção de versões, além de uma composição própria intitulada The Word II. Por conta de Demarco, a música acabou sendo sampleada novamente por outros artistas.

Recentemente, o fenômeno slowed+reverb tomou conta do YouTube. São versões de músicas remixadas, sobrecarregadas de reverb e com um andamento mais lento. As melodias se tornam mais graves e alongadas, sugerindo um clima mais melancólico e introspectivo, quase ansiolítico, para as canções.

Ao longo do tempo, as músicas voltam como um reflexo, mais lentas e mais atentas aos detalhes. Como se de fato envelhecessem, metaforizam esse “wading” das gerações pela história da música.

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MARCADORES: caroline, MacDeMarco

Autor:

é músico e escreve sobre arte