SINAPSE: tijolo por tijolo

Teorba, Kali Malone, música concreta, passarinhos e água escorrendo pelo ralo da pia

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

 

CONCRETO

Kali Malone, música concreta, mundo interior

 

Kali Malone é uma musicista estadunidense, residente na Suécia, para onde se mudou aos 18 anos a fim de estudar composição eletroacústica. Em 2019, a artista lançou um álbum intitulado The Sacrificial Code. Belo, sombrio e meticuloso, o disco explora as maquinações mecânicas de um órgão.

The Sacrificial Code é dividido em três partes e, em cada uma, Malone tocou um órgão diferente. A preocupação da artista é com a proximidade e com a precisão, capturando o som dos teclados muito de perto, como se o microfone fosse uma espécie de lente de aumento que evidencia a materialidade do som. Ao mesmo tempo, sem o reverb que tanto lhe caracteriza, o instrumento deixa de ser tão facilmente reconhecível.

No álbum chamado Velocity of Sleep, de 2017, Malone também explora algumas características austeras da música que tanto lhe interessam. As faixas são executadas por uma teorba – um instrumento similar ao alaúde –, tocada de maneira lenta e minuciosa. Durante as gravações, a proximidade do microfone captou a respiração do instrumentista concentrado em sua performance, o que acabou por se tornar parte da música.

Diz ela em uma entrevista: “O tocador de teorba, Peter Söderberg, estava usando sua respiração como uma espécie de metrônomo. Essa peça é difícil de tocar porque você pode perder a concentração com muita facilidade. Você pode adormecer quando estiver tocando, porque se trata de um padrão lento e aditivo. Se você estiver muito envolvido na música, pode perder a noção de onde está, mas se estiver muito consciente e contando, também vai estragar tudo. A maneira como ele permaneceu presente foi com sua respiração”.

Recentemente, a artista tem trabalhado no estúdio do Groupe de Recherches Musicales, em Paris. O lugar é almejado dentro da música experimental, pois foi a sede de onde se desenvolveu, na primeira metade do século passado, da chamada música concreta (em francês, que tem o compositor Pierre Schaeffer como patrono).

Um dos aspectos interessantes da música concreta é como ela prioriza características como timbre e espectro sonoro, ao invés de melodia, harmonia ou ritmo. Em suma, é como se a qualidade plástica do som bastasse para considerá-lo como música. Nesse sentido, gravações de passarinhos voando ou da água escorrendo pelo ralo da pia, por exemplo, possuem uma característica metafórica, e são suficientes para transportar o ouvinte para o mundo interior.

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ARTISTA: Kali Malone

Autor:

é músico e escreve sobre arte