SINAPSE: um pedregulho perdido na estepe

Grizzly Bear, Samuel Beckett, Caetano Veloso e a energia das coisas que vão se deteriorando lentamente

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

RUÍNAS

Grizzly Bear, Caetano Veloso e a desconstrução

 

Por acaso, recentemente voltei a ouvir o último disco da Grizzly Bear, lançado em 2017 e intitulado Painted Ruins (“Ruínas Pintadas”). O nome evocativo deste esforço paradoxal, no qual se cultiva um estado de degradação, é uma maneira simbólica de falar sobre a susceptibilidade humana diante da ruína.

O álbum possui uma energia de coisas que vão se deteriorando lentamente, desse estado transitório entre duas realidades distintas que, por um momento, se interseccionam. Músicas lentas e uma guitarra afinada alguns tons abaixo do usual dão um clima de familiaridade dentro da estranheza, como o sentimento de alguém que acaba de acordar num quarto bagunçado e, por alguns segundos, entre o sono e o despertar, não consegue entender onde está.

Iluminado por um lusco fusco azulado e melancólico, o disco ecoa repetidamente a imagem de entulhos acumulados. O clipe para a faixa Neighbors” traz um bom exemplo visual: nele, as pessoas vão sendo engolidas pelo entorno que habitam, como se a apatia diante do cotidiano transformasse um casal em meros vizinhos dentro do que foi um dia o lar.

Já a música Four Cypresses constrói a imagem de alguém assoberbado, “emaranhado numa pilha” de coisas e que encara a parede. Essa atitude encarar a parede é uma máxima do escritor Samuel Beckett, que escreveu, em um dos trechos mais marcantes de sua literatura, um diálogo sobre alguém que desaparece gradativamente da própria vida:

“Um dia você estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será um pedregulho perdido na estepe”.

Caetano Veloso lançou o disco Circuladô em 1992, inspirado pelo poeta Haroldo de Campos. É uma obra situada na intersecção entre a arte erudita e a popular no Brasil e que resume bem as idiossincrasias e as belezas complexas de nosso país. Na música Fora da Ordem, ao mencionar sobre as tragédias sociopolíticas dos anos 1990, Caetano canta um dos versos que melhor sintetizam a complexa relação da humanidade com suas ruínas: “aqui tudo parece / que era ainda construção / e já é ruína”. (Uma referência ao que foi dito pelo antropólogo Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos, de 1955).

O disco Circuladô foi produzido por Arto Lindsay e é todo improvável, exibindo uma estrutura fragmentada de camadas sonoras. Arto, experimental, coloca guitarras atonais ao lado de percussões ocas e ruídos metálicos, evocando um esforço de desconstrução em sua música. É uma abordagem incapaz de distinguir harmonia de dissonância, que reorganiza a música brasileira, colocando seus elementos fora da ordem para construir um lugar ambivalente, de reconhecimento e desconfiança simultâneos.

 

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Autor:

é músico e escreve sobre arte