Skate e Música: Relação Inseparável

Esporte e arte interagem desde os primórdios como expressão de uma contracultura

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Qual a relação entre o skate e a música? Uma simples reflexão nos leva a crer que a causa e a consequência deste relacionamento nunca foram muito bem abordadas, no entanto é inevitável pensar que ambos são elementos quase que indissociáveis. Referências ao skate na música vem sendo feitas desde o seu surgimento do esporte na metade da década de 1940, passando por diversos gêneros com ritmos distintos. De capas de disco de Surf Music e Punk Rock até a mixtape de Joey Bada$$, a semiótica por trás do esporte nos leva a uma relação de signos bastante direta. Atualmente, dado o grau de popularidade do esporte, podemos considerar que quase qualquer música pode ser usada para se andar de skate, dependendo somente do gosto do seu ouvinte. Entranto, a história nos mostra que o modo de vida de skatistas, bastante marginalizados pela sua ocupação de espaços urbanos de forma anárquica, os colocou sempre relacionados à música alternativa, buscando uma trilha sonora que sustentasse a contracultura que eles representavam.

Por isso, quando pensamos em música e skate, logo nos vem à cabeça gêneros como Punk, Hardcore e, mais recentemente, Rock Alternativo e Hip Hop. É fácil também pensar o porquê de tais estilos estarem historicamente relacionados ao esporte. Em seu primeiro grande Iboom, na metade da década de 1960, já existiam empresas e lojas locais suficientes na Califórnia para atender os surfistas quando as ondas almejadas estivessem “flat”. Logo, a ocupação do “surfe de rua” era apenas uma questão de tempo, pela vontade de surfar mesmo quando não fosse possível. Foi o que fez com que os milhares de surfistas aderissem ao esporte e, consequentemente, seu modo de vida com gostos musicais por Rock e Surf Music ganhassem os ouvidos dos agora skatistas.

A rapidez e o ímpeto do Rock’n’Roll combinavam mais ainda com o asfalto quente, a sensação de perigo constante e a quebra de barreiras que o skate proporcionava. Já a Surf Music mostrava-se ideal para a fluidez de ondas acompanhadas por acordes de guitarra e faziam com que os movimentos realizados ganhassem ainda mais plasticidade quando ambos eram exibidos em um filme, por exemplo. Isto é uma visão posterior do que realmente acontecia na época, dado que o primeiro aparelho de som realmente portátil, o Walkman, surgiria duas décadas depois, assim como a popularização de sessions em video. Entretanto, chega a ser dificil pensar no esporte sem uma trilha-sonora por trás – atualmente, de competições internacionais até gravações amadoras, a seleção musical é feita para justamente dar ênfase e realçar manobras, movimentos e execuções. A evolução natural destes estilos seria encontrar tais elementos no Punk e no Hardcore, ambos ainda mais rápidos e que enalteciam a contracultura, o DIY e a revolta urbana.

Logo, o movimento começou a se tornar inverso: não mais a música servia de pano de fundo para manobras, mas agora músicos usavam a linguagem e o amor ao skate para compor. Inúmeros artistas servem de exemplo: Black Flag, Millencolin, Bad Religion, Suicidal Tendencies, NOFX e Agent Orange são algumas das bandas que estão praticamente indissociadas do skate – serviam tanto como trilha-sonora diária dos skatistas como o esporte servia de alimento para composição.

Não é a toa que, à medida que os anos foram se passando, o esporte acabou se dividindo em duas partes: a amadora e a profissional. A primeira tornara-se cada vez mais marginalizada por tomar espaços públicos “não previstos para o esporte”, como praças, escadas e alamedas para sua prática. A segunda, de forma inversa, era cada vez mais celebrada em campeonatos cada vez maiores que se iniciaram na década de 1970, como conta o documetário Dogtown e Z-Boys de Stacey Peralta. No entanto, o Punk Rock e o Hardcore acompanhavam ambos os praticantes, independente do preconceito ao seu redor.

No Brasil, nome comos Mad Rats, Ratos de Porão e mais recentemente Charlie Brown Jr. e Dead Fish tiveram seus nomes associados ao esporte, um complemento à música marginal e alternativa que estes faziam frente a outros estilos mais populistas. A união entre ambas as partes (amadora e profissional) pode ser resumida no festival Warped Tour (maior evento musical itinerante dos EUA, realizado pela marca Vans), que vem unindo bandas com neste estilo à entusiastas e profissionais do esporte desde 1994, e no Circuito Banco do Brasil, que conta com pistas de skate em sua infraestrutura e provas oficiais de grandes campeonatos.

O quanto de nossa noção sobre a relação de skate e música não está relacionado com o que vemos? Os mesmos vídeos que hoje assistimos no YouTube, no canal Off ou nos X-Games nasceram da vontade de seus praticantes em exibir o estilo de vida de um esporte que não estava sendo transmitido na televisão quando o mesmo já era sensação mundial nos EUA. Era a chance de sintetizar a ideia apaixonante do risco e de seus praticantes descolados de outra forma, saindo das publicações físicas como Skateboarder Magazine, Trasher e Transworld. Sempre voltadas a tais estilos acima, essas sessions começaram a receber trilha-sonoras mais inusitadas de seus skatistas e produtores, ajudando a desvincular o esporte de movimentos musicais específicos e ampliando o seu leque.

A explicação para esta abertura sonora é ainda mais simples, pois o skate é um esporte individual, relativamente barato e acessível à prática nas cidades e todavia, outros estilos foram sendo apropriados não só por músicos mas também por praticantes. O Hip Hop é um deles. Ande uma vez de skate ou veja algum vídeo relacionado ao som de De La Soul, Nas ou Public Enemy e você entenderá que batidas e o flow do esporte combinam perfeitamente. O Rock Alternativo dos anos 1990 de Built to Spill, Modest Mouse e Sonic Youth, são só alguns exemplos – aliás, a banda de Thurston e companhia tem um clipe bastante famoso, 100%, que exibe takes em preto branco de skatistas.

Esta panacéia sonora pode ser resumida em um só produto, Tony Hawk Pro Skater, famoso jogo de videogame que conseguiu unir ao mesmo tempo tudo que o esporte cativava a um público jovem extenso: trilha-sonora plural com Punk, Hardcore, Hip Hop e Rock Alternativo, comandos intuitivos e jogabilidade frenética. Provavelmente foi a grande porta de entrada de uma geração que se encontra atualmente na faixa dos 20 aos 30 de idade e que dificilmente desliga a relação do esporte à música. Hoje, vemos que o cenário é ainda mais amplo quando o skate se torna algo além do esporte, do estilo de vida e da moda: torna-se também um meio de transporte acessível dentro de cidades que abraçam a cultura de ciclovias e vias de acesso alternativas.

Sendo um dissidente do Surf, nada mais normal que o Skate tomar as mesmas diretrizes musicais consumidas por seus praticantes iniciais. Dividindo-se entre febres surfistas e amadores a posteriomente competições internacionais, o esporte sempre esteve ligado à contracultura e é por isso que estilos notoriamente análogos ao status quo da música acabariam o abraçando. Esta vontade de se relacionar com algo muito mais Do It Yourself que um produto pré-fabricado ligaria a modalidade intimamente ao Punk e ao Hardcore. No entanto, é díficil restringir o esporte a somente um gênero musical, porque a relação entre skate e música é simples como um rolê de skate com seu fone de ouvido e sua trilha sonora favorita ou assistir um video de manobras radicais na Internet com músicas bem escolhidas. Não é a toa que hoje em dia até artistas mainstream como Calvin Harris, Rihanna e Miley Cirus escolheram o esporte como linguagem para o seus videos. Logo, de contracultura à cultura popular, o Skate se tornou o esporte preferido de músicos e produtores pois sua combianação é perfeita, independente de formato, gênero musical ou estilo de vida, se tornando uma relação histórica e indossociável.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.