Sobre Escrever Resenhas

De como muda a visão do objeto da escrita e, a partir disso, da própria escrita

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Vou confessar algo pra vocês: eu adoro escrever resenhas de álbuns. É, sem dúvida, dentre os textos jornalísticos, o meu preferido. Deve ser por conta da época em que comecei a ler sobre música, lá no meio da década de 1980, através da finada revista Bizz. Eu tinha 14 ou 15 anos, já gostava de música desde muito pequeno – lar com discos, mãe e avô fãs de gente como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Bee Gees, entre outros – e comecei a comprar meus próprios álbuns antes dos dez anos de idade, especialmente coletâneas de hits e trilhas sonoras de novelas globais. Desta forma, quando chegamos em 1985, eu já estava pronto para entender e conhecer as pessoas que cantavam e tocavam nos discos que eu ouvia. É engraçado e não nos damos conta o tempo todo, mas, até certo ponto, não temos a menor curiosidade ou vontade de conhecer quem canta, compõe e toca o que ouvimos, né? É um processo sutil, que se espalha subitamente e não vai embora nunca mais. Pelo menos, não comigo.

Escrever sobre discos, no entanto, é um ofício que muda através do tempo, assim como muda o próprio conceito do álbum em si. O LP de vinil, grande, com mais de uma música, é invenção relativamente recente. Teve novo fôlego a partir dos anos 1960, quando a música jovem assumia papel preponderante na cultura ocidental – leia-se Estados Unidos e Europa, além de seus países satélites, Brasil incluído – justamente pela importância que o ato de ouvir música em casa recebia da própria indústria. Sendo assim, a experiência de levar o seu artista preferido para casa e ampliar o tempo que você passaria com ele, independente das emissoras de rádio e TV, era algo que significava dinheiro e seu consumo foi assegurado através de um sem número de melhorias nesse ato, seja nas artes de capas, encartes, seja na qualidade dos equipamentos reprodutores ou na própria qualidade sonora dos álbuns. Foi um processo sólido, para usar o conceito do nosso querido Zygmunt Bauman. De uns tempos para cá, mais precisamente, desde a virada do milênio, que o disco, seja ele em vinil, seja em CD, vem perdendo a sua importância, justamente pela fragmentação da experiência auditiva.

Num tempo em que o ato de ouvir seu artista preferido não passa mais, decisivamente, pela necessidade de adquirir um CD/LP com várias canções, estando elas – mais cedo ou mais tarde – disponíveis na Internet, às vezes de graça, legal ou ilegalmente, por que o conceito de álbum continuaria inalterado através do tempo? Não que seja menos importante, pelo contrário, se um artista/banda se arvora a lançar um novo feixe de canções inéditas, dando prosseguimento à sua carreira e investindo dinheiro em gravação, prensagem, capa, tudo o que antes lhe era fornecido por contrato pelas gravadoras, devemos estar atentos, certo? E a quantidade de lançamentos só aumenta, cada vez mais gente pode e deve lançar disco. Por causa deste binômio facilidade/investimento, a análise de um álbum deve mudar. E este desafio foi enfrentado por mim recentemente.

Explico: criatura da década de 1970 e amante do conceito de disco, percebi, após insistentes demandas editoriais, que não era necessária a contextualização histórica do lançamento, pelo menos, não sempre, não como regra indissociável do ofício de resenhar um disco. Sempre achei necessário informar ao leitor/ouvinte algum dado histórico da banda ou do artista, algo que desse, sempre tendo em mente alguém que lê sobre o assunto pela primeiríssima vez, noção mais ampla do contexto do lançamento. Isso não é errado, mas significa dar espaço precioso a uma lenga-lenga professoral e deixar de lado a realização, o próprio álbum. Alguns textos ficavam 70% contexto, 30% disco e isso não é legal em tempos como os de hoje, quando os discos têm essa aura meio estranha, de anacronismo e interesse, tudo ao mesmo tempo. É confuso, eu sei.

Há algum tempo que prefiro dar importância ao que as canções parecem aos meus ouvidos/sentidos. Às vezes descrevo-as minuciosamente, com impressões meio abstratas, meio viajantes, tentando ser o mais preciso através da imprecisão deliberada. Com isso, o foco passa a ser o que o artista sentia e pensava na hora de compor e gravar, suas ideias, o que ele tentou reproduzir ou criar ali, na hora H, na cara do gol. Talvez já tenhamos evoluído o suficiente no convívio com a música Pop, outra invenção recente, a ponto de perceber intuitivamente as canções, ao fim e ao cabo, elementos primordiais dos discos. Privilegiá-las é justo. Estas linhas servem como uma percepção de jornalista e historiador, algo que, certamente, você não lê na chamada “grande imprensa”, na qual não há tempo ou espaço para reflexão, apenas a produção em série, descompromissada em relação ao leitor, puro paradoxo existencial. Receber um desafio do editor sobre uma mudança pessoal no ato da escrita e em como isso melhora seu ofício de jornalista é algo que, em vários anos, nunca me aconteceu. Serve de experiência para quem escreve e, sobretudo, para quem ouve. Privilegie as canções. Elas vão te levar na direção certa.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.