Soltos na Vila do Refúgio

Cria da prolífica cena de Franco da Rocha, a banda viaja pelo Shoegaze e o Post-Rock no disco de estreia “Europa”, inspirado em ficção científica, artes cênicas, isolamento e escapismo

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Fotos: Reprodução / Giuseppe Giannotta

Descobrir se existem alienígenas na quarta maior lua de Júpiter é o drama central de Europa Report, filme de 2013 dirigido pelo equatoriano Sebástian Gutierrez, que retrata uma tripulação passando por uma bad trip espacial. O clima de tensão e desconforto que atravessa toda a narrativa do longa é a inspiração para o primeiro disco da banda Vila do Refúgio, cria da prolífica cena artística de Franco da Rocha, município da Região Metropolitana de São Paulo conhecido por abrigar o histórico prédio arquitetônico do Hospital Psiquiátrico de Juquery. O grupo viaja pelos sons do Shoegaze e do Post-Rock e é formada por  Brenno Rubem (guitarra, teclados e sintetizadores), Abel Santiago (guitarra, baixo), Breno Amorim (bateria) e Elves Ferreira (guitarra, baixo).

Europa faz jus ao filme no qual se inspirou – riffs melódicos e distorções constroem um cenário de utopia, que, às vezes, traz breves lampejos ensolarados. Tudo faz parte do plano da banda de traduzir a sensação de não pertencimento através da música. O resultado surpreende, a mente brisa fácil desde a primeira audição do disco e o som instrumental conduz os ouvintes a um universo distante.

As faixas “Cosmonauta”, “Stasis”, “USS Supernova”, “Pés”, “Europa”, “Finito” e “Recomeço”  foram produzidas pela própria banda e gravadas no Estúdio Montauk por meio do edital Aldir Blanc. Quem assina a mix e a master do trabalho é o engenheiro de som e produtor Breno Amorim; a arte original da capa do álbum é um quadro feito por Clara Majjorana; e o design de capa e outros cartazes de divulgação do álbum foram feitos por Marlom Henris. Confira o bate papo do Monkeybuzz com a banda, que indicou uma leva de artistas francorochenses para quem está a fim de conhecer mais a cena da região.

Como vocês se conheceram e quando rolou a ideia de formar uma banda? Vocês são todos de Franco da Rocha?

Todos os membros da banda se conhecem da cena musical da cidade há muitos anos, participaram de diversos festivais locais com seus respectivos projetos musicais. Boa parte desses festivais independentes foram organizados pelo Abel Santiago (baixo e guitarra), que sempre está buscando enaltecer as bandas autorais da região. A ideia de formar a banda veio do Brenno Rubem (guitarra e sintetizador), que desde 2011 vem compondo músicas instrumentais. Depois de muitas tentativas com amigos músicos, foi com o Breno Amorim (bateria) que a banda surgiu, de fato. Os dois também são membros da banda A Tomada da Budéga e foi no meio disso que os primeiros esboços para a Vila do Refúgio começaram a criar vida. Na sequência, o Abel entrou e formamos um trio, mas como algumas músicas eram compostas por mais de uma guitarra e algumas também com sintetizador, percebemos que a banda precisaria de mais um membro. É aí que entra Elves Ferreira (guitarra e baixo). Todos os membros da banda são de Franco da Rocha.

Por acaso Vila do Refúgio é Franco da Rocha? Caso sim, qual é o clima da vila que inspirou a criação do álbum?

Brenno R: Na verdade, o nome da banda vem da música “Villa Del Refugio”, da banda This Will Destroy You (EUA). Quando comecei a ouvir bandas instrumentais, essa música me causou um impacto muito grande; ela é praticamente um drone, não tem baterias, apenas um som que vai crescendo e adicionando aos poucos alguns ruídos, faz emergir cada vez mais até a sua mente estar livre de tudo e em paz. Essa música me fez sentir o que eu sinto quando componho, que é estar livre de tudo. Então, além de uma homenagem, o nome capta toda a ideia por trás da banda, que é fazer música para que todos possam emergir com a gente e, por alguns instantes, também se sintam livres de tudo. A cidade influencia bastante nisso também, embora tenha cerca de 150 mil habitantes, é uma cidade rica em florestas, rios e cachoeiras. Fazem parte da paisagem também os antigos prédios do Hospital Psiquiátrico do Juquery (1898), criados pelos arquitetos Emílio Olivier e Ramos de Azevedo. Com alguns bairros formados quase exclusivamente por chácaras, por muitas vezes, ela parece uma vila pequena em que todos se conhecem.

Elves: A Vila Do Refúgio é aquele “não lugar” que sempre busco nos meus momentos de escapismo, quando posso me permitir não me preocupar com o mundo à minha volta e apenas desabafar sobre mim mesmo. A Vila é a nossa própria sonoridade, um lugar seguro, embora não tão calmo como eu gostaria que fosse. Não poderia deixar de ser também essa nossa cidade que muita gente nunca ouviu falar, mas que existe – a famigerada Franco da Rocha.

Como surgiu essa brisa da “jornada da última pessoa com vida na Terra até a lua de Júpiter”?

Brenno R: O conceito veio depois das músicas, uma metáfora para os temas em que as músicas foram inspiradas: isolamento e escapismo. A ideia da viagem vem do filme de terror Europa Report, em que uma equipe de pesquisa viaja até a lua de Júpiter para investigar sinais de vida em seus oceanos submersos. Com as duas ideias somadas, criamos este conto, que representa não se encaixar onde você está e ir atrás de algo novo, deixar seus medos e angústias para trás. Embora geralmente não contemos com muita esperança.

É um álbum sobre não se encaixar mais onde você está, um manifesto, um desabafo. De que forma vocês buscaram traduzir musicalmente esse sentimento de desencaixe?

Elves: Através das sete faixas presentes no álbum buscamos trabalhar em arranjos que criassem uma atmosfera capaz de levar os ouvintes para outros lugares além do senso comum, em uma viagem sonora que os proporcionem não apenas a epifania, mas também a sua própria catarse.

Como é a relação da banda com o universo do teatro? Falem um pouco sobre a trajetória artística de cada integrante.

Elves: Eu trabalho como iluminador cênico, fiz trabalhos no teatro em parceria com diversos grupos e diretores, como Grupo Pandora de Teatro, Coletivo Sete na Linha e André Arruda. A minha relação com o teatro vem de 2014, quando conheci as oficinas culturais da cidade. De lá para cá, minha trajetória dentro da linguagem também consistiu desde atuar, até criar trilha sonora para os trabalhos em que estive envolvido. Me tornar Iluminador cênico permitiu que eu abrisse mais possibilidades em trabalhar com composições instrumentais, afinal, a luz também é intangível, subjetiva e atmosférica. Paralelo à Vila do Refúgio, tenho meu projeto solo chamado Casmurro, baseado nas canções que componho desde 2014 e que pretendo em breve lançar o primeiro EP.

Breno A: Além da Vila Do Refúgio, toco bateria na banda A Tomada da Budéga. Sou produtor musical e engenheiro de som no estúdio Montauk, no qual sou dono e onde o álbum Europa foi produzido e gravado.

Abel: Faço parte de coletivos culturais relacionados à música, principalmente à música autoral da cidade de Franco da Rocha. Sou cantor, compositor e guitarrista da banda A Pedra do Reino Animal. Na Vila do Refúgio, eu toco baixo e guitarra. Sempre procuro transmitir as sensações e as texturas nas músicas que me propõem imergir no mundo dos temas instrumentais.

Brenno R: Há cerca de 10 anos minha vida é fazer música e colaborei com músicos da região da Bacia do Juqueri e também de outras partes de SP, de forma física e remota. Atualmente, também faço parte da banda A Tomada da Budéga, Massonettos e do projeto Collectively Alone.

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