Sons Tropicais e a Música Atual

Percebemos algumas influências dos trópicos em diversos artistas novos e tentamos criar uma tese. Seria essa uma tendência?

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Justificar o nascimento de uma cena é uma tarefa complicada. Muitas vezes, vemos nitidamente a semelhança entre o som de alguns atos, o que logo de cara já apresenta argumentos suficientes para sustentar uma tese. No entanto, em outros casos, conseguimos capturar apenas a subjetividade de influências – como o inconsciente coletivo que permeia as mentes criativas – e, a partir de algumas constatações, percebemos que existe algo no ar.

Diante de algumas bandas que resenhamos recentemente, visualizamos uma certa inspiração tropical baseada em sintetizadores oitentistas ou na própria música eletrônica como forma de expressão de alguns músicos. Longe de ser uma novidade, cristalizou-se no segundo disco do Friendly Fires, Pala, que, fora a capa com uma arara de asas abertas, tinha uma sonoridade concentrada em percussão, dança e ecos florestais. El Guincho, do músico Pablo Díaz-Reixa, é outro conhecido projeto que aborda os trópicos a partir de elementos semelhantes.

Ambos podem ser considerados atos de Indie Rock/Nu Disco com ênfase nessa estética. Quando vemos o que acontece na cena atual, o pluralismo de gêneros e a forma como tais ares são explorados denunciam que associação se mostra tênue e quase frágil. Primeiramente, quando normalmente nos referimos a “tropical”, logo o sol nos vem a cabeça. Não podemos nos esquecer que mesmo nos trópicos existe o frio, neblina e densidão de árvores.

Pegue por exemplo Jensen Sportstag. Sua capa é desconfortável, natural e nebulosa. Seu som, entre o R&B, Eletrônico e o experimentalismo, utiliza-se levemente de timbres cristalinos, uma percussão que sopra nos ouvidos e nos emana o imaginário de videogames antigos, como Wave Race 64 ou Super Mario Sunshine. Deon Custom já trabalha com o Trap e cria faixas muito mais expansivas e feitas para clubes enérgicos. No entanto, a mesma sensação de que existe algo tangendo ambos os grupos é inevitável. Mesmo diante de tanta disparidade no produto final, é no meio tempo, nos insumos, que encontra semelhança.

St. Lucia já se mostra mais definido na influência tropical direta. Música dos anos 1980, daquelas que poderia muito bem estar em alguma série que se passa em Miami, GTA Vice City ou mesmo no debut do Knife, tudo surge de forma imaginativa quando escutamos o som. Pop na medida, e necessário dentro de baladas e festas, o primeiro trabalho completo do produtor Jean-Philip Grobler nos parece a consolidação desta visão musical em formato aprazível e objetivo de música.

Posteriormente, surge o pós-tropical, ao mesmo tempo que o primeiro quase que não se estabeleceu. Curiosamente, e permitido em uma arte tão plural quanto a música, o segundo disco de James Vincent McMorrow utiliza-se da emoção que artistas como James Blake costumam nos proporcionar e a coloca de uma forma ensolarada, mas ainda sim melancólica, sem tentar nos deixar esquecer de sentimentos que o Sol não consegue esconder. SILVA, ótimo presente que recebemos há poucos anos, já se mostrava como uma figura tropical por essência mesmo com sintetizadores e sinceridade tão semelhantes com o inglês citado acima.

Mahmundi, outro ato tupiniquim e muito mais seguro de seu trabalho, só exemplifica que se em gringos conseguimos perceber levemente as influências tropicais, densas ou expansivas, com toques oitentistas ou gamísticos, em relação aos nossos artistas, a percepção se mostra definitiva e clara. Não é a toa, dado que o calor e a história musical nacional são propicios para excurssões mais certas e que mostrão um estilo tropical intrínseco aos nosso artistas. Como dito no começo do artigo, justificar uma cena é complicado.Como um bom cientista, temos que observar e enxergar padrões que outrora poderiam passar despercebidos para sustentar uma tese. Se a música tropical fará a sua grande volta, algo que tenta desde 2010 no meio Indie, não podemos afirmar agora se realmente existe uma conexão entre gêneros e artistas que nos parecem tão dispares em um primeiro momento. No entanto, algo no ar existe e nos possibilita viajar e acreditar que realmente Jung estava certo com sua tese de inconsciente coletivo.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.