Sophia Chablau, Uma Enorme Perda de Tempo e a madrugada infinita

Conversamos com o quarteto paulistano que acaba de lançar seu disco de estreia – produzido por Ana Frango Elétrico e que vai de Shoegaze a Bossa Nova

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Fotos: Biel Basile

Um e-mail com foto colagem e a frase “Afinal, você acorda no Largo da Batata com uma bala Halls e precisa descobrir o que aconteceu. O que você faria?” e o link de um joguinho online em que você decide o fim da noitada. Essa foi a maneira instigante que a banda paulistana Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo encontrou para anunciar a data e o single de estreia do primeiro álbum.

Na virada para 2019, Sophia Chablau encontrou Uma Enorme Perda de Tempo – ou foi o contrário. Nessa história, a ordem dos fatores não altera o resultado. A cantora e compositora paulistana, hoje com 21 anos, tinha um show marcado, só faltava uma banda que a acompanhasse e foi assim que Sophia Chablau (voz e guitarra), Téo Serson (baixo), Theo Ceccato (bateria) e Vicente Tassara (guitarra e teclados) começaram por acaso uma banda que, hoje, se mostra predestinada a estar junta. “A gente era uma banda que tinha tocado um show, a brisa era tocar Rock triste, meio absurdo. E isso era a ‘maior perda de tempo’, depois de uma aula de filosofia falando sobre o Adorno, isso fez sentido pra mim. Quando eu conheci os meninos, esses ensaios seriam esse espaço pra perda de tempo, ócio criativo, algo que é produtivo, mas improdutivo. Começou chamando Música do Esquecimento e depois Uma Enorme Perda de Tempo, depois dessa aula que eu tive”, conta Vicente, em entrevista exclusiva ao Monkeybuzz, que teve a presença entusiasmada dos quatro integrantes.

Apesar da pouca idade dos integrantes, que têm entre 21 e 23 anos, todos contam com uma sólida jornada musical que se iniciou ainda na infância. Essa vivência se reflete nas músicas – ainda que inocentes e cheias de luxúria jovial, elas orbitam em diversos estilos e referências e são bem amarradas dentro de um conceito maduro. Confiança e destreza que impressionam logo no primeiro disco, que saiu hoje (08/04) pelo selo RISCO. E a firmeza e o manejo apurado para fazer música pode ter vindo de família. “Meu pai é músico, ele até gravou as violas no disco. Ele toca um instrumento chamado viola de arco, é tipo um violino maior, e ele toca em algumas partes. Ele trabalha com música, trabalha no Palavra Cantada, e muitas outras coisas. Quando eu era pequena, ele me incentivava a tocar, fui colocada em aula de piano a força, mas eu gostava de violão e comecei aulas com nove anos. Quando eu disse que realmente queria seguir e trabalhar com música, meus pais não queriam. Passei na USP e faço Geografia lá porque eles queriam, aí eu falei ‘bom, tô na USP, posso seguir na música?’, e não teve muito jeito”, conta Sophia.

Téo Serson e Theo Ceccato, que tocam juntos desde os sete anos idade, já dividiram bandas com muita gente por aí, inclusive com o pai de Ceccato – que foi quem introduziu o Metal aos garotos, gênero que eles consideram uma influência. Já Vicente foi parar nas aulas de piano por incentivo da família, mas depois se jogou na guitarra amparado por revistinhas de cifras dos Beatles.

UMA ENORME PERDA DE TEMPO POR: 

Téo Serson – “Perco tempo olhando na janela”

Theo Ceccato – “Cozinhando” 

Vicente Tassara – “Jogando xadrez”

Sophia Chablau – “Compondo. Eu sempre tô atrasada” 

TODOS – “E a gente perde muito tempo juntos. Todo dia”

“Delicia/Luxúria”, carro-chefe do projeto, é daqueles Pops perfeitos e contagia à primeira audição. É Pop, Dance e esbarra em um Rock alternativo dos anos 1980 – com um toque preciso, porém, de Brasil, especialmente a fase Jardim Elétrico, dos Mutantes. “Rock é um novo mundo para mim. Todas que eu fiz eram um samba ou uma bossinha, sabe? Eu toco violão, nem tenho guitarra, só uma que é emprestada. Mas agora tem tanta troca nossa que a gente ouvindo as produções, já entendemos que virou uma banda e tudo se misturou. E tem uma coisa que eu amo ouvir rádio, eu gosto de Nelson Ned, Guilherme Arantes, acho que também por isso elas soam meio Pop. E da nova geração, o Negro Leo acho que é uma grande referência pra todos nós” diz Sophia.

“Tinha esse show marcado no Rio de Janeiro e parece clichê falar, mas a gente não tinha a pretensão de virar uma banda. A gente achou que iam três pessoas no show e foi muita gente. Foi uma coisa ‘bom, a gente tem um repertório’. E a Ana [Frango Elétrico] foi quem incentivou muito a gente nesse sentido, de que a gente tinha um disco”

Depois de ter uma experiência reveladora com o álbum de estreia de Ana Frango Elétrico, Mormaço Queima (2018), Sophia virou algo entre fã e discípula do trabalho de Ana. “Eu tinha 18 anos e fiquei louca pela Ana. Comecei a achar que nada que eu tinha feito era bom, sabe? Eu falava para todo mundo em São Paulo do Mormaço Queima. A Ana abriu um canal em mim”, lembra Sophia. E especialmente após um show na Casa de Francisca em que Ana cantou Rita Lee, Sophia se viu no famoso after. Ela não conhecia ninguém, mas foi nessa ocasião, com uma energia “noite muito louca do filme Superbad“, que a amizade entre as duas nasceu e foi firmada. Corta para poucos anos depois, e quem assina a produção do trabalho de estreia da banda é a amiga e inspiração Ana Frango Elétrico. “Eu tinha terminado um namoro e tava mal, aí compus muita música. E aí tinha esse show marcado no Rio de Janeiro, parece clichê falar, mas a gente não tinha a pretensão de virar uma banda. A gente achou que iam três pessoas no show e foi muita gente. Foi uma coisa, ‘bom, a gente tem um repertório’ e a Ana foi uma pessoa que incentivou muito a gente nesse sentido, de que a gente tinha um disco. Não chegamos compor um disco juntos, mas por outro lado acho que o nosso show é o nosso disco e aí os arranjos tem a ver com essa nossa junção”, conta Sophia.

“O tempo que eu perdi anotando o ritmo do pisca-alerta”. Essa é a primeira frase da faixa de abertura do disco, “Pop Cabecinha”, e dá o tom cândido e ao mesmo tempo sagaz que ronda as composições. As letras têm muito de coração partido e crônicas do dia a dia revestidas de humor ácido, alternando entre momentos de entusiasmo ou de extrema delicadeza e introspecção. São nove faixas que não necessariamente criam um grande diálogo entre elas, mas que, em sequência, fazem sentido. Diferentes gêneros e moods se juntam em uma montanha-russa desenvolvida com competência. “O álbum é um todo e é diferente, e por ser assim funciona como um disco. O timbre, o som meio quente, a produção e tudo que faz o disco ser esse inteiro, foi a Ana. Ela que deu essa unidade”, conta Téo. “E o Gui Jesus Toledo (engenheiro de som do álbum) é muito um leitor da Ana, eles funcionam muito bem juntos”, completa Theo Ceccato.

Após passar por momentos de MPB e Rock(s) da década de 1990, eufóricos ou soturnos, a quinta faixa “Deus Lindo” é uma explosão de poeira sonora cheia de Shoegaze ao Noise. “Eu curto muito My Bloody Valentine, os meninos curtem bastante Sonic Youth e Dinosaur Jr. e essa música tem muito desses universos”, aponta Vicente. Logo na sequência, a Bossa Nova debochada de “Hello” confirma que as misturas funcionam muito bem, e, a essa altura da audição, você entende que as letras são um capítulo à parte. “No fundo, essas músicas são uma safra de músicas da Sophia, no sentido de ser a alma dela. Tem uma música comigo e uma outra com os meninos, mas a alma do disco são essas composições dela, não falando dos arranjos, falando das letras mesmo”, diz Téo.

“Moças e Aeromoças”, penúltima faixa do álbum e o registro mais elegante desses 22 minutos, conta com um piano Rhodes tocado por Vicente e a ilustre participação de Lucinha Turnbull, a primeira guitarrista brasileira, que contribuiu na guitarra semiacústica e no solo da canção. É uma sequência final de repertório que mira o futuro.

Desde a primeira foto, aquela do e-mail, a banda demonstrava uma segurança quanto sua identidade, estética e, digamos, “astral”. O clipe “Delícia/Luxúria”, dirigido por Marina Letizia, rendeu uma leva de fotos que parece evidenciar essa ideia de vazio pós-festa-e-euforia, a madrugada e sua intensidade que se recusam a terminar. “A gente tá vestindo umas roupas que são meio chiques, mas são decadentes, é meio brega, classudo e decadente”, define Sophia. E para fazer as fotos de divulgação e da capa do disco, eles chamaram Biel Basile, baterista da banda O Terno. “Com essas fotos do Biel, acho que vem esse nosso outro lado, da coisa mais do it yourself, que é muito nossa também. Punk, gibi, zine, Dead Kennedys, a Sniffin’Glue (zine punk mensal importante em 1977), coisas feitas à mão, essa parada Lo-Fi, são as principais referências. Acho que tem a ver com uma sujeira de imagem”, explica Theo.

O futuro está aberto e as possibilidade são muitas para o jovem quarteto. Não se levar tão a sério e combinar referências de forma desimpedida – aproveitando o que cada integrante tem a entregar – é uma fórmula que já funciona nesse disco de estreia e pode ser ainda mais intensificada. “Acho que com o passar dos anos, as próximas coisas que a gente for fazer talvez tenham ainda mais composições diversas e mais visões”, finaliza Sophia.

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