Subjetividade em Obras sem Título

Discos sem nome dão ao ouvinte uma oportunidade mais espontânea de intepretação

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Assim como falamos no texto sobre rótulos de estilos, o homem se vê “obrigado” a dar nomes e definições para tudo que encontra e cria. Nesse último caso, ao criar, pode muito bem ser o caso de um artista, seja ele um escultor, um pintor e, claro, um músico.

Entretanto, sabemos que alguns nomes das artes em suas diferentes formas chegam a simplesmente não dar nenhum título para suas obras. Motivo? Só estando dentro da cabeça dos mesmos ou estudando cada um deles individualmente para sabermos. Mas, o que percebemos é o aumento da subjetividade por trás de uma obra sem título frente a uma com um nome.

Sem um norte, uma orientação, uma dica do que se trata tal obra, a imaginação e poder de síntese do espectador se vê desafiada, e pode ser aí um jeito da obra ganhar ainda mais atenção e representatividade. Apesar de apresentar letras e melodias, que ajudam na temática do disco, a subjetividade não perde força.

Atendo-nos à música – que é o nosso foco por aqui – temos alguns exemplos modernos que não só mostram essa subjetividade, mas também, curiosamente, mostram serem obras icônicas de tais artistas. Coincidência ou não, é um ponto interessante de discutirmos nesse texto e para além dele.

Um (e talvez o maior) exemplo da cultura Pop de um álbum não titulado é o clássico dos clássicos “White Album” ou “The Beatles”. Um dos principais discos da história da cultura contemporânea e do Pop/Rock mundial foi lançado em 1968 e é tido po rmuitos como o principal e melhor trabalho do Fab Four. Contendo músicas como Ob-La-Di, Ob-La-Da, Dear Prudence Blackbird, Helter Skelter e Revolution 9, o álbum está presente na fase psicodélica-hippie do quarteto e abre para inúmeras discussões até hoje tanto a respeito de conceito, relevância, questionamentos e mensagens apresentadas e estilo apresentado.

Assim como aconteceu com The Beatles, outros discos foram batizados pela mídia e fãs por sua coloração predominante. São os casos de “Blue Album”, de Weezer, e “The Black Album”, da banda Metallica.

No caso dos rapazes “geeks” do primeiro grupo, isso se estende para o “Green Album” e para o “The Red Album”, porém é com o azul que o grupo estreia – e logo com os hits Buddy Holly, Say It Ain’t So, Holiday e My Name Is Jonas -, o que faz do disco um marco para o quarteto, podendo até mesmo ser visto como auto-intitulado com o nome da banda, visto que era seu primeiro, com o qual se apresentava sua identidade.

No caso de Lars, James, Kirk e – na época – Jason, “The Black Album” marcava uma mudança abrupta na sonoridade de Metallica, que começava a explorar mais baladas e melodias mais comerciais, por assim dizer. Nesse caso, o título vago, ou que levava o nome do grupo, soava como uma apresentação de uma nova identidade e, mesmo com controvérsias e críticas muitas vezes negativas, o álbum marcou época tanto para a banda quanto para o mundo da música.

Voltando a falar de gigantes, outro disco sem título é IV da lendária Led Zeppelin. Pertencente a tétrade – junto de I, II, IIIIV é um legítimo disco sem título. Sem nenhuma identificação o álbum ganhou tal nome pela sua sequência cronológica, sucessor os outros três oficialmente numerados. Trazendo Black Dog, Rock and Roll e a majestosa e clássica Stairway to Heaven, IV não recebeu título oficial e foi visto pela banda, segundo Page, como “a melhor resposta para toda a crítica – pois sabíamos o jeito que a músicas estava sendo recebido pelas vendas e o público nos shows”, indo contra a máxima de que se necessitam de títulos para um disco mercadológico. Uma atitude corajosa com a qual só gigantes tem como se aventurar.

Há também os casos de discos nos quais se discute a ausência de um nome justamente pelo que se encontra nele. Isso se dá, por exemplo, pelos longos títulos, que para alguns são tidos apenas como um figuração de capa e para outros, como um real nome. É o caso de When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks like a King What He Knows Throws the Blows When He Goes to the Fight and He’ll Win the Whole Thing ‘fore He Enters the Ring There’s No Body to Batter When Your Mind Is Your Might so When You Go Solo, You Hold Your Own Hand and Remember That Depth Is the Greatest of Heights and If You Know Where You Stand, Then You Know Where to Land and If You Fall It Won’t Matter, Cuz You’ll Know That You’re Right – abreviado para When the Pawn… -, de Fiona Apple, e por The Boy Bands Have Won, and All the Copyists and the Tribute Bands and the TV Talent Show Producers Have Won, If We Allow Our Culture to Be Shaped by Mimicry, Whether From Lack of Ideas or From Exaggerated Respect. You Should Never Try to Freeze Culture. What You Can Do Is Recycle That Culture. Take Your Older Brother’s Hand-Me-Down Jacket and Re-Style It, Re-Fashion It to the Point Where It Becomes Your Own. But Don’t Just Regurgitate Creative History, or Hold Art and Music and Literature as Fixed, Untouchable and Kept Under Glass. The People Who Try to ‘Guard’ Any Particular Form of Music Are, Like the Copyists and Manufactured Bands, Doing It the Worst Disservice, Because the Only Thing That You Can Do to Music That Will Damage It Is Not Change It, Not Make It Your Own. Because Then It Dies, Then It’s Over, Then It’s Done, and the Boy Bands Have Won – abreviado para The Boy Bands Have Won -, da hoje pouco conhecida banda Chumbawamba.

Se pensarmos pela tese de serem títulos reais, temos então com a abreviação uma limitação da criação do artista, que no caso pode ser um poema – como no caso de Fiona. Já se pensarmos pelo lado de ser uma “ilustração” artística para um álbum sem título, temos então uma maneira de se passar uma identidade ou mensagem de tema por trás das composições.

Assim sendo, sejam com obras auto-intitulados com o nome da banda para apresentar uma nova identidade ou se apresentar para o público, propositalmente inexistentes para ir contra alguma máxima imposta do mercado, ou por utilização de mensagens artísticas, que podem ser vistas como nulas ou mensageiras de uma temática, os álbuns sem título quase sempre marcam a história de uma banda e trazem muita subjetividade, o que torna sua audição ainda mais interessante e potencializa a sua experiência para o ouvinte.

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Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).