Subversivo, conceitual e brasileiríssimo: Amaro Freitas

Corais de igreja, Jazz & Maracatu, parcerias com Milton Nascimento e Criolo, pregadores de varal e os 13 discos que mais influenciaram a caminhada do pianista que revoluciona a música instrumental brasileira

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Fotos: Helder Tavares / Divulgação

Ao desligar o telefone, após quase duas horas de conversa com Amaro Freitas, fiquei elétrica. Mandei mensagens compulsivamente para vários amigos, até liguei para um deles, que, depois de me ouvir, perguntou com muita paciência: o que faz esse pianista de Jazz tão especial? Dei duas ou três voltas repassando suas respostas tão bem articuladas e concluí: Amaro é especial, porque é protagonista de sua arte. Ele é uma pessoa extremamente consciente dos motivos pelos quais faz o que faz, da forma que faz e de como quer ser reconhecido por isso. Ele passa sonhos do diário para a agenda.

Amaro, recifense, tem 28 anos, um tom de voz muito gentil e, ao mesmo tempo, sério. Extremamente disciplinado, estuda piano de 3 a 4 vezes por semana, durante 8 horas do dia. Sabe apreciar o ócio e tira uma hora do dia para ficar em seu quarto curtindo a solidão, que, segundo ele, pode ser um presente. Amaro desaprova a aversão moderna a ficar parado, sozinho. Gosta de ouvir música pela música, sem muito namorar as fichas técnicas e o hábito o impulsionou a querer ser ele mesmo. “Eu sou muito obcecado por música, eu sou louco, na verdade. Então ou eu estou estudando ou estou escutando música ou comendo e pensando em música”, conta.

Criado em uma família evangélica, o pianista teve o primeiro contato com música dentro da igreja. Pelos corredores da casa ecoava música Sacra, Gospel, Cristã – Feliciano Amaral, Jacira, Grupo Logos e Prisma. Amaro, claro, não passou incólume: cantou em coral infantil e adulto e chegou a reger corais na igreja. “A parte lírica do meu som são várias possibilidades do Amaro, várias camadas. A parte lírica, melódica no meio do caos está relacionada a esse contato com a música da igreja. Corais, quartetos, harmonias, tudo isso está próximo da música erudita, na qual a beleza da melodia é o que predomina”, explica.

Aos 15 anos, porém, houve um divisor de águas com nome, sobrenome, ano de lançamento e selo de gravadora: o disco de Chick Corea, Alive (1991). “Isso mudou a minha vida. Quando eu comecei a não só trabalhar consonância, mas também a dissonância. Depois eu ganhei um DVD do Oscar Peterson, aí veio outro pianista chamado Gonzalo Rubalcaba, eu fui pirando com música instrumental, com o quanto era instigante, especialmente ao vivo porque era muito único”. Desse primeiro contato com o Jazz nasceu o paradoxo que permeia a sonoridade de Amaro: o encontro entre harmonia e subversão. Mais tarde, essa dualidade se tornaria seu norte musical, ao combinar ritmos nordestinos, como Frevo, Coco e Maracatu, às possibilidades infinitas do piano de Jazz.

Depois de lançar um aclamado álbum de estreia, Sangue Negro (2016), e excursionar mundialmente com o disco Rasif (2018), Amaro ganhou maior projeção nacional pela campanha e EP Existe Amor, em que colabora com Milton Nascimento e Criolo. Começando por São Paulo e com o plano de alcançar cada vez mais estados, é uma iniciativa solidária com o objetivo de auxiliar a população em situação de vulnerabilidade social durante a crise do coronavírus. Existe Amor repaginou as faixas “Não Existe Amor em SP”, de Criolo, e “Cais”, de Milton, presente no clássico Clube da Esquina (1972). Além do trio Milton, Criolo e Amaro, o EP lançado no dia 8 de maio, que conta com mais duas faixas, teve participação do gigante Arthur Verocai.

O deus, o campeão e o pianista (ou uma diáspora pulsante e viva)

“Gravar com Milton foi uma das coisas mais bonitas que eu já vivi da minha vida. Eu precisei ser outra pessoa, na verdade não é ser outra pessoa, mas eu tive que pensar que não estava ali estando ali. Ouvia aquele solfejo de Milton, aquele “u”, que você começa a tocar e se arrepiar. Eu percebi uma coisa: ele é a expressão da natureza que nos conecta diretamente com o espiritual. Uma riqueza e um presente da vida que eu vou gravar para sempre. Percebo no Milton essa pessoa muito séria, muito na dele. Chega para mim no estúdio e fala ‘nossa, que arranjo bonito’, ou ainda “como você fez o encaixe ficou lindo”, eu comecei a dançar no estúdio, todo mundo ficou rindo. (risos) Essa coisa do nosso manifesto das coisas primitivas. Normalmente, você recebe um elogio e fica na sua, mas eu dancei porque a dança é celebração mesmo, como a música, como a arte. Seus movimentos para celebração, para dor. Fiquei muito feliz com as palavras do Milton, fiquei muito feliz de conhecer Criolo – como ele é esforçado, focado, inteligente, revolucionário. Um é o deus da música e o outro é um campeão. Três gerações diferentes, três lugares do Brasil… ‘uma diáspora pulsante e viva’, como Criolo diz.”

A estranha e gratificante condição de fã-artista. Seus dois discos, tão insurgentes para o Jazz e excêntricos para a Música Brasileira, lhe renderam prestígio, especialmente entre curadores, músicos e musicistas; nas idas e vindas de festivais teve alguns encontros com João Donato. “Por fora, ‘Pô, João, tudo bem?’, por dentro pulando que nem uma criança”, descreve. Certa vez em um festival em Santa Tereza, Donato viu o show de Amaro e, quando um amigo em comum perguntou o que ele tinha achado da apresentação do pianista, Donato respondeu em uma palavra: “Frenético”.

O pianista age em um território desconhecido e faz dele seu maior trunfo: não é o esperado do Jazz, não é o esperado da nossa música. As composições são intrigantes justamente pelo constante jogo de construção e desconstrução. De um lado, progressões em que a gente se deixa levar facilmente, do outro, sequências imprevisíveis que nos arrebatam e nos levam ao caos, de sobressalto. Ciente do desafio que propõe, ele diz que “Não é tão fácil, nem tão rápido. Precisa de estratégia, planejamento; você vai estudando. Em vez de tocar em 10 festivais, vai tocar em 4 festivais; em vez de sair em 10 revistas, vai sair em 5 revistas, mas a vantagem é que a sua sonoridade está alicerçada em uma verdade firme”.

Amaro Freitas: segundo João Donato, “frenético”.

A expectativa dos outros e a verdade de Amaro (em 3 toques)

“A música brasileira que toca na Europa e nos EUA tem dois segmentos: elegância, Samba Jazz, Bossa Nova, ou a que traz à tona o olhar do exótico, para dançar. O maior impacto com a minha música é que ela está totalmente atrelada ao cerebral, precisa de tempo para que se chegue num lugar de pesquisa para criar, leva um ano para terminar as minhas composições. Música conceitual – essa não é a música que esperam do Brasil – a música intelectual, Jazz, esperam-na do europeu e do americano. E no meu campo tem pessoas brancas e negras trabalhando, e eu precisava conquistar todas elas, não só para mostrar que pode ser uma outra coisa. Eu quero botar isso num pedestal, quero que isso seja consumido”.

“A coisa mais inusitada nessa trajetória aconteceu quando eu já era considerado o cara que estava revolucionando a música instrumental brasileira. Tinha saído Sangue Negro (2016) e uma empresa queria fazer um vídeo comigo É normal isso acontecer, mas essa foi especial. Meu piano era brutal, lírico também, mas quebradeira. A coisa do Coco, do Maracatu.. O cara dizia ‘nossa, você é genial, que lindo isso que você faz no piano’. A gente estava passando som, passou a primeira, segunda música; houve um momento que ficou só eu e esse cara, e ele vai: ‘você sabe tocar uma música do Elton John?’ (risos). Toquei ‘Your Song’ e ele ficou muito emocionado mesmo. A reação dele depois foi meio que ‘esse cara é genial, mas ele também toca Your Song’. Entende? Ele estava falando que eu era genial, porque era o que outras pessoas estavam falando, mas não era a música que tocava ele.”

“Isso foi uma coisa que eu aprendi na turnê Rasif: há diferença entre Amaro pessoa e Amaro músico. Quando toquei na Alemanha, saí durante o dia para conhecer a cidade; recebi olhares que…eu não tenho outra forma para definir, eram olhares atravessados, tanto que não conseguia ficar na rua, nas lojas. Nesse momento, cercado por todas as pessoas de olhos bem azuis, branquinhas, com todo mundo supondo que eu era americano, não aguentei – voltei pro hotel e fiquei no quarto até a hora da apresentação. Na hora do show, fui tão aclamado, a gente tocou por 4 horas! As pessoas choraram, saíram dizendo que me amavam, me abraçando, comprando meu vinil, comprando meu CD. Normalmente, se eu fosse conhecer uma dessas pessoas, essa não iria ser a relação”.

Qual foi a coisa mais importante que você aprendeu sobre música até agora?

A música trouxe uma resposta para mim que é uma resposta que serve para vários outros segmentos: os sonhos não podem parar de existir nas nossas cabeças. Os sonhos fazem você passar por momentos muito complexos, muito difíceis, fazem você enxergar a tempestade como uma fase. Sonhar é o que nos possibilita sermos criativos, evoluir.

É importante que esses sonhos estejam direcionados em vários aspectos da nossa vida. Entendendo que a vida está para nos ensinar várias coisas em vários aspectos, a música serviu como uma terapia, um laboratório em que eu saio da minha zona de conforto e vou para outro lugar. Estudar música, matemática, piano percussivo está associado a uma parada muito científica, a melhor versão da criação que existe dentro de mim.

Me conta mais sobre o seu primeiro contato com música pernambucana.

Foi um absurdo de coisas que chegou para mim na universidade: Alceu Valença, movimentos de Maracatu, várias modalidades de Coco, Lenine. Quando eu escuto essa música, me sinto parte disso, apesar de não ter vivenciado como criança – isso é atrelado com ancestralidade. Só que quando eu começo a compor, naturalmente essa composição já sai na estética do Jazz, porque foi minha vivência dos 15 anos até entrar na universidade, com 22 anos; essa sonoridade meio Jazz, meio tradicional, meio moderno, porque minha vivência trazia isso.

Quais eram suas maiores influências quando você entrou em contato com música pernambucana? Assim, um TOP 3.

Coisas (1965), de Moacir Santos, porque quando eu descubro esse disco no meio disso tudo, ele é o único que traz a africanidade tão forte. Esse cara estava preocupado com orquestração de Jazz e com as claves afro que a gente tem como herança. Passo de anjo (2004), do SpokFrevo Orquestra, quando escuto, eu falo caramba, meu irmão. É muito gratificante também ver o Spock como ascendência na minha carreira: ele tocou onde eu fui tocar depois, Lincoln Center, vários festivais, só que Spok levou outro segmento, com big band, folia, alegria, eu queria levar mais para esse lugar laboratório, experimental, conceitual e cerebral. Ah, Nação Zumbi com Chico Science, Da Lama ao Caos (1994). Queria dizer só mais um que é do Naná Vasconcelos, o disco Africadeus – N.Angelo – Novelli (1975).

Me fala uma coisa pela qual você está obcecado agora – um ritmo, uma dança, um gênero musical, um livro, pode ser qualquer coisa mesmo.

Eu estou estudando uma coisa no piano: estou obcecado pelos pregadores de varal da minha mãe. Fica um som absurdo.

Qual foi o melhor conselho que já te deram?

“Não importa como você vai chegar lá, o que importa é você entrar no mercado”. Isso foi quando eu estava tendo aulas de piano, tinha 19 anos, e disse para o meu professor que eu queria viver de música instrumental – no Brasil, ela é tida como algo da nossa diversão. Ele me disse que talvez eu não conseguiria trabalhar com música instrumental logo de cara, mas que não precisava desistir dela, talvez seria interessante começar por outros meios e ir aos poucos direcionando, me aproximando.

Guardei o conselho a sete chaves no meu coração. É nesse propósito que eu vou trabalhar. Toquei em banda de sertanejo, banda católica, banda de forró, bandas montadas só para o Carnaval com alguns cantores de Pernambuco, piano bar, fui entrando na cena Jazz aos poucos, tive bandas autorais até começar a trabalhar com a galera do instrumental. Aí então decidi gravar meu primeiro disco.

“Música conceitual não é a música que esperam do Brasil – esperam-na do europeu, do americano. Eu quero botar isso num pedestal, quero que isso seja consumido.”

A Coleção

Perguntamos para o pianista quais foram os 7 discos mais indispensáveis, marcantes, impecáveis de Jazz que ele já ouviu. Ele nos indicou 13 – sorte a nossa. Com a palavra, Amaro Freitas:

1) Alive (1991), de Chick Corea. Esse disco, e esse DVD, ele tocou com John Patitucci e Dave Weckl e é de 1991. Eles lançaram em Nova Iorque e “Alive” significa viva. Esse disco foi o que eu ganhei com 15 anos de idade. O meu primeiro contato com Jazz. Eu percebi a liberdade de voar em outros lugares, da criatividade, da excitação, improvisação em tempo real. Reinvenção de possibilidades criativas, notas grotescas, estranhas, belas notas e o quanto isso causava sensações em mim. Foi o primeiro susto que eu tive com Jazz.

2) Eu ficaria com Native Dancer (1975), é de Wayne Shorter e Milton Nascimento. É uma junção de Brasil com Estados Unidos, uma geração de pretos, negros brasileiros com negros americanos. Celebra esse encontro da genialidade musical brasileira com genialidade americana. Milton Nascimento, o que mais me causou na música dele foi a forma diferente dele cantar, abordar melodias e o que tinha de conteúdo. Esse lance de criar pontes. Logo depois, o Bush e o Trump, de uma forma bem mais recente, estavam falando de levantar muros e o Milton quer criar pontes. A beleza que é a natureza Milton Nascimento junto com os gênios do Jazz americano. Uma música que eu gosto muito no disco é “Ponta de Areia”.

3) Underground, do Thelonious Monk. É de 1968, um período em que o Jazz não andava bem porque o Rock estava em ascensão. Eles queriam um disco que fosse revolucionário, então para a capa pegaram uma base francesa, o Thelonious está no piano com uma metralhadora nas costas, contrataram os melhores diretores de arte e é fantástico. Tem um nazista amarrado no fundo, é um caos. A sonoridade deste Jazz está ali. Tem uma música que se chama “Ugly Beauty”. É ela, pega no meio. (risos) Não teve sucesso, não vendeu muito e ganhou um Grammy de melhor capa do ano.

4) Inception (1962) do McCoy Tyner. McCoy tinha o Elvin Jones na bateria. Inception celebra o Afrojazz e o Latin Jazz, que já é essa referência de Caribe, Cuba, Brasil, misturado com a música jazzística americana. Lembra uma casa de Jazz que eu tocava, Mingus, era um momento de laboratório para todos nós, Eu estava muito feliz de estar vivendo a música instrumental. “Speak low”, a gente gostava muito de tocar essa música.

5) O encontro de John Coltrane com Thelonious Monk (1961). Monk tinha uma doença mental e, curiosamente, ele fica muito tranquilo com Coltrane, que é abastecido de uma forma gigantesca pela forma que Monk compõe. A concepção rítmica era muito rica para a época. É incrível poder se revestir dessa criatividade. Uma música para escutar antes de dormir ou logo quando você acorda: “Ruby, My Dear”.

6) Importante para história do Jazz no geral, todo mundo deveria conhecer esse álbum: Kind of Blue (1959), do Miles Davis. Esse período do Thelonious que o Jazz andava mal, 10 anos antes o Jazz estava no auge. Disparada música mais ouvida tanto na Europa como nos Estados Unidos. Tem uma música que é o clássico do Miles Davis, “So What”, amava tocar essa no Mingus também.

7) Esse nome é italiano, Accelerando (2012). Bem contemporâneo, é de um indiano e americano, Vijay Iyer. Ele é considerado pela crítica como uma das maiores revelações do Jazz atual. Possibilidade rítmica, misturando com música Pop. Tem uma música do Michael Jackson nesse disco. Já se apresentou várias vezes no Brasil, foi uma das pessoas que me influenciou no ritmo negativo, nas claves de Maracatu, Samba, Xote e Frevo. Isoritmina, polirritmia. Ele, Marcus Gilmore na bateria e Stephen Crump no contrabaixo. Foi apontado por toda crítica.

8) Gonzalo Rubalcaba, pianista cubano, traz a virtuose no nível master. Criativo, virtuoso, não erra. É muito surreal. The Blessing (1991). Ainterpretação de “Giant Steps”, do John Coltrane. um dos maiores bateristas do mundo, Jack DeJohnette. É um álbum assim, tem “Bésame Mucho”, brutalidade em cima do piano até a sensibilidade, transcende por todos esses lugares.

9) Disco de uma mulher! Disparado nas rádios, especialmente do Reino Unido, fez parte do filme em cima do single principal, “My Baby Just Cares For Me”. Little Girl Blue (1959), da Nina Simone. A música que mais me emociona, traz todo lamento, esperança, são 4 notas de esperança, 4 notas de lamento, fica no vazio e tudo isso é construído de uma forma muito linda em cima da música “Little Girl Blue”. Eu conheci esse álbum um pouco antes de entrar na universidade, por volta de 2008, 2009.

10) Queria destacar uma outra mulher, maranhense, que foi morar no Rio de Janeiro, começou tocar com 7 anos de idade, referência de cantar solfejando enquanto toca piano. É swing brasileiro, fervura e calor do piano, ela é incrível! Tânia Maria, disco que eu gosto muito, Piquant (1981). Esse disco tem uma música que é bem legal, muito swingada, toda fora do tempo, “Yatra-Ta”. Ganha reconhecimento primeiro fora do Brasil, na Europa. Influenciada por muita coisa e tocava nos clubes do Rio de Janeiro, depois em São Paulo até conseguir a carreira. Os policiais já chegaram a entrar no bar chamando ela de prostituta. A galera da cena dessa época dizia que Tânia Maria tocava como homem, uma forma deles considerarem ela uma verdadeira musicista, o que é absurdo. É um olhar preconceituoso sobre mulheres musicistas, como se o homem tivesse esse lugar do toque correto, essa afirmação que o homem tem na nossa sociedade.

11) Free Jazz, de Cecil Taylor. Esse disco traz toda a desconstrução que uma pessoa no Jazz já conseguiu traduzir. Cecil Taylor é a revolução, existe a música pré e pós Cecil Taylor. Ele tinha uma forma muito particular de abordar o piano que foge à harmonia, ele só pega a sonoridade e começa a construir através de níveis frequenciais que vão impactar seu corpo, para você se contorcer. Embraced, escuta logo depois do Moacir. Começa com solo de bateria, é um caos. É, assim, trânsito de São Paulo no movimento mais caótico sem passagem para pedir ônibus. Caos.

12) Moacir Santos, negro, pianista, altamente reverenciado fora do Brasil. O disco Coisas (1965). Não conhecido aqui dentro do Brasil, assim, ele é muito conhecido pela crítica especializada, mas não teve a projeção do Tom Jobim, do Vinicius de Moraes, do Baden Powell. O disco Coisas é um dos mais incríveis que eu já vi. É o trabalho das orquestrações do Jazz e das claves afros dentro dessa orquestração, expande para os metais, mistura com piano, percussão. “Coisa nº4”, que é uma música que eu toco no meu show, ela é como se a gente pudesse ver a história dos negros chegando ao Brasil e a gente pudesse acompanhar. Ele narra a história da nossa ancestralidade, é muito bonito.

13) Além da genialidade musical, passou um tempo nos Estados Unidos e tem essa coisa do Caribe, do swing brasileiro, do Samba groovado. E por mais que eu resista ao Samba Jazz – não é porque eu não gosto, eu amo, só não quero que a gente fique rotulado –, mas, para falar de um álbum, eu falaria dele, que vem de um lugar que a gente quase não ouve falar, que é o Acre: João Donato. Quem é Quem (1973) tem a produção de Marcos Valle e é um disco que traz um astral do dia ensolarado, o som da mata, você botando um café pra esquentar, um dia legal. Dia todo de folga, não vai ter que entrevistar ninguém, imagina? A música que eu mais gosto é a primeira, “Chorou, Chorou”. É o primeiro álbum que Donato começa a cantar. A voz dele é uma voz que não é típica do canto, mas é uma voz tipo Chico Buarque, feio bonito, é marcante, a gente não costuma classificar essa voz como bonita – e isso é ridículo. O disco tem um swing de piano, muito bom. Vale a pena também.

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ARTISTA: Amaro Freitas