Talk Talk E A Liberdade Para Experimentar

Falecimento de Mark Hollis em fevereiro oferece mais uma oportunidade para revisitarmos o legado da banda

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Quem ouvisse o hit It’s My Life nos idos de 1984 jamais poderia dizer que Talk Talk seria diferente da maioria das bandas inglesas da época. Um pé fincado no Technopop/Synthpop do período, vocalista com presença marcante/introspectivo e uma bela melodia emplacada nas paradas de sucesso. Nem era o primeiro sucesso do grupo, uma vez que Talk Talk e Dum Dum Girl já haviam galgado posições em paradas britânicas. Mas It’s My Life, faixa-título do segundo disco dos sujeitos, era promissora.

Corta.

A morte de Mark Hollis, vocalista e cérebro pensante do grupo, deixa evidente que Talk Talk não é lembrada como autora de um hit dourado. O legado que Hollis deixou foi de experimentação e liberdade criativa. Hoje em dia, longe das amarras contratuais da velha indústria musical, é fácil descobrir um sem-número de bandas e artistas que se valem da experimentação e da falta de compromisso com o sucesso para tocar suas carreiras. Não que Talk Talk tenha chutado o balde em meio a um dilema estético-existencial. A banda optou naturalmente por deixar as fórmulas de hits radiofônicos para trás em favor de uma forma mais livre de música Eletrônica dos anos 1980. Seu movimento foi importante a ponto de ser reconhecido hoje, 2019, e inspirado – junto a outras fontes de informação/influência – um estilo importante da década de 1990: o Post-Rock.

Quando afirmo isso, não quero dizer que bandas como Tortoise, Mogwai ou, vá lá, Godspeed You Black Emperor tenham procurado emular sonoridades perpetradas por Hollis e seus amigos em álbuns lindos como Spirit Of Eden (1988) ou Laughing Stock (1991). Talvez até tenham, mas isso não é o mais importante. A ideia aqui é falar de um exemplo dado em tempos em que não havia chance disso acontecer. Talk Talk era contratado da poderosa gravadora EMI, a mesma de Queen e Paralamas do Sucesso, comprometida com o sucesso, o rádio e a MTV. O clipe de It’s My Life é uma das imagens televisivas dos anos 1980, com a banda tocando em meio a frames de animais selvagens. Estes dois discos finais do grupo são um não rotundo ao formato banal e um abraço apertado ao livre exercício. A influência se dá em outros planos também. As texturas sonoras usadas por Hollis e seus amigos

a partir de 1988, mostram que o grupo experimentava com teclados e sonoridades acústicas, mantendo um equilíbrio e uma proposta definidos. Também havia influência de música contemporânea erudita, Ambient e uma engenharia bem urdida no sentido de aproveitar e valorizar o uso do silêncio nos arranjos. O resultado se traduz em longas e enigmáticas composições, como The Rainbow e Eden – ambas de The Spirit Of Eden – e After The Flood e New Grass – em Laughing Stock, todas com duração superior a sete minutos. Muitas vezes instrumentais, as composições evocam imagens e sentimentos, mas, quando trazem as letras de Hollis, os temas orbitam questões como redenção e perda, sobretudo da inocência e a revisão de conceitos. Em suma: Talk Talk começou a fazer, em meio a contemporâneos Technopop habituais, música reflexiva e abstrata.

Quando ouvimos as bandas noventistas de Post-Rock e mesmo Radiohead em Ok Computer, percebemos a mesma abstração e o abraço a uma forma de canção existencial/instrumental que Talk Talk ajudou a moldar. É claro que, no caso dessas formações, há influências progressivas e de outros lugares, mas a experiência que Hollis e sua banda viveram certamente contribuiu para que tais grupos compusessem uma cena musical importante e que continua a render frutos. Hoje em dia, com rótulos em constante mudança, falar de Post-Rock talvez seja anacrônico, porém, se pensarmos no Tempo como uma espiral em constante movimento multidirecional, quem sabe não seria mais importante usar o termo Post-Rock para o próprio Talk Talk em 1988?

Mark Hollis dissolveu a banda ainda em 1991. Sumiu dos palcos e foi se dedicar à família. Ainda retornou com um disco solo homônimo em 1998, muito próximo do formato que Talk Talk utilizou em seus dois últimos álbuns e trazendo a mesma fórmula: silêncios, longas composições, temas abstratos, reflexão, existência.

A história está cheia de pioneiros que tiveram reconhecimento póstumo/tardio em relação às barreiras que ajudaram a quebrar. Talvez seja um dos efeitos colaterais da tal espiral do tempo que mencionamos há pouco. Ou seja apenas o curso natural das coisas, no qual o futuro chega antes do presente para retornar no futuro como passado. Ou algo assim.

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ARTISTA: Talk Talk
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.