Em 2024, se completam 10 anos do lançamento do primeiro EP de Tássia Reis, trabalho autointitulado que ganhou força por seu single “Meu RapJazz” – uma demonstração de que as misturas seriam a tônica da arte da rapper vinda de Jacareí, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. A própria definição de “rapper” não dá conta do que Tássia cria. Sua carreira se inicia no rap, e as rimas seguiram e seguem como força potente, mas o hip-hop é apenas uma das raízes que florescem em sua criatividade.
“Fazer música, para mim, é uma experimentação”, explica Tássia. “E tem a ver com todas as minhas influências, e eu sou uma artista múltipla também. Antes de ir para o hip-hop, eu venho da dança. Na verdade, só fui para o hip-hop porque estava na escola de samba e lá alguém me levou para ir dançar, para o hip-hop como cultura. Um amigo meu me levou para uma aula de dança, eu me apaixonei pela dança, me apaixonei pela cultura – e anos depois, comecei a fazer música. E quando comecei a fazer música, não era só rap. A primeira coisa, a primeira música que escrevi era um funk soul; a segunda, um samba. Entendi que eu podia fazer rap pelo entorno em que eu já estava habituada. Eu já sabia os signos, os símbolos. E eu sabia rimar”.
Entre rimas e danças, há um cenário importante citado por Tássia: a escola de samba. O samba está em suas raízes e aparece quase como guia em Topo da Minha Cabeça, disco lançado em setembro. Mas, calma lá, não estamos dizendo que esse é “o disco de samba de Tássia Reis”. Nada disso. É um disco da Tássia que tem samba. E tem muitas outras coisas: o rap está lá, o funk soul segue presente e os flertes com a música eletrônica continuam. E mesmo o samba, tal qual a própria obra de Tássia, é múltiplo: tem referências a mulheres precursoras do gênero, há um diálogo com o típico samba paulista e até um contato direto com o samba torto, recorrente na cena alternativa dos anos 2000 para cá.

“Experimentar é parte da minha assinatura como artista. Desde o momento 1 da minha carreira, houve uma preocupação de ‘preciso me sentir livre para experimentar sempre que achar necessário’. Mas, ao mesmo tempo, não estou fazendo nada que já não estivesse no meu universo, só estou me apropriando de coisas que já estavam ali”
Para Topo da Minha Cabeça, Tássia mergulhou em si própria e em sua música, com a perspectiva de se entender mais por meio desses processos. “Com isso, entendo que experimentar é parte da minha estrutura e da minha assinatura como artista. E me dei esse direito desde o momento 1 da minha carreira. Sempre foi uma preocupação de ‘eu preciso me sentir livre para experimentar sempre que achar necessário’, mas, ao mesmo tempo, não estou fazendo nada que já não estivesse no meu universo, só estou me apropriando de coisas que já estavam ali. O samba tem grandes influências no disco, mas várias faixas têm grandes misturas. Tem faixa com neo soul, tem faixa que é algo meio Brasil 70, mais Black Rio, mais Elza [Soares] também em algum momento, muito Alcione nos três primeiros discos, muita experimentação. E também tem a própria faixa ‘Topo da Minha Cabeça’, que é esse jazz meio alt r&b, com influências de soul. Todo disco tem muita influência de soul e outras experimentações mais doidas, como o ‘Imprevisível’, por exemplo, produção do Kiko Dinucci. E é isso, apesar de terem várias influências, tudo soa naturalmente dentro do contexto da história que conto no álbum”, reflete.
Para que essa história fosse contada com fluidez, foi necessário um tempo especial, que está relacionado aos processos de descoberta, experimentação e criação de Tássia. De Próspera até Topo da Minha Cabeça passaram-se cinco anos (nesse meio tempo, ela lançou seu excelente disco de remixes Próspera D+). De todo modo, Tássia é artista independente e não passou esse tempo flanando por aí – seguiu trabalhando forte e, em meio a muitos shows, subiu em palcos importantes de grandes festivais. Seu show no palco principal do Lollapalooza 2023, por exemplo, foi uma bela celebração dos 10 anos de carreira. O tempo e seu dinamismo, as celebrações e os momentos de acelerar (e desacelerar) fazem parte da forma com que Tássia cria.
“Sou uma pessoa que acredita muito no fluxo das coisas, no fluxo da vida, no tempo das coisas. Por exemplo, ‘Ofício de Cantante’ começou em 2020, mas a ‘Tão Crazy’ começou em 2017, que foi a primeira vez que comecei a canetar ela. Ela foi se criando através do tempo, então não estava nem pensando num disco ainda, estava só fazendo a música mesmo, deixando ela vir para o mundo. Acho que é entender essa sutileza de que você está formando uma coisa ainda que de uma forma orgânica ali. Você tem que sentir que aquilo está acontecendo: ah, eu acho que tem um disco vindo aqui, sabe? Estou sentindo que tem um disco vindo aqui, eu vou me organizar, vou sentar para entender o que essas músicas estão querendo me dizer e aí traduzir isso numa obra. Quero também deixar claro que não sou contra fazer um disco rápido, acho que tudo é proposta. Posso fazer um trabalho de forma rápida e entregar, mas só não era essa a proposta desse disco. Se amanhã eu decidir fazer um disco em uma semana, vou fazer, sabe?” explica.
Durante o período de criação do novo disco, Tássia foi trocando com diferentes parceiros, todos diretamente ligados a ela de forma pessoal. Topo da Minha Cabeça não é disco de feats feitos para as plataformas – os encontros são peças-chave no tipo de construção artística de Tássia. Ao longo do repertorio, nomes consagrados como Criolo e Kiko Dinucci aparecem ao lado de importantes figuras do underground como Barba Negra e EVEHIVE. “Eu me sinto muito abençoada por poder encontrar essas pessoas incríveis, esses artistas maravilhosos ao longo da minha carreira”, reforça.
Parcerias
“[O Kiko] a gente trocou muita ideia no ano passado, sobre sons e tudo mais […] Acho que ele que escolheu, na verdade, ‘Previsível’. Eu comecei a compor no baixo, eu não sou baixista, mas estava com o baixo em casa e comecei a experimentar. E eu compus, estava meio irritada, falei ‘vou compor um negócio’. Quando eu mostrei para o Kiko, ele falou ‘você compôs no baixo?’. Ele falou que queria fazer essa: ‘eu peço licença para enlouquecer, vou fazer as doideiras’. Eu falei ‘bora!’. Já sou muito fã do trabalho do Kiko, do Metá Metá, de todos os trabalhos em que ele já esteve envolvido, ele é uma referência, e fico muito feliz de poder trocar com ele. E também ele insistiu para que o baixo da música fosse o baixo que eu toquei, então a gente manteve o meu baixo na música: primeira vez que componho no baixo e a primeira vez que eu gravo um baixo numa faixa. Então, ele me deu esse presente também”.
“Com EVEHIVE veio antes. A gente tinha produzido para um projeto que não vingou, mas fiquei com o ‘Rude’ na cabeça e ele também. Falei: ‘vamos fazer?’. Agora, estou na dúvida sobre quem puxou esse bonde, mas concordamos de qualquer maneira. Não era para o disco, tanto que ‘Rude’ saiu antes, um single, e quando ‘Previsível’ entra no disco, me dá espaço para colocar ‘Rude’. E tem o Criolo, que participou só há um tempo, os outros produtores também. Barba Negra, que produziu comigo ‘Topo da Minha Cabeça’. Estou muito imersa nos processos – eu que direcionei os músicos no estúdio, e, claro, mandamos para ele. É o mago dos recortes e é ‘o terrível ladrão de loops’. Seleciona as coisas de forma muito especial – e o conheço há muitos anos, com outro vulgo, o MC Ralph, do Vale do Paraíba. A gente já colaborou de outras formas, mas é a primeira vez que a gente produz uma faixa assim. E estou apaixonada pelo resultado”.
“Sou uma pessoa que acredita muito no fluxo das coisas – no fluxo da vida, no tempo das coisas”
Esse cuidado de Tássia não está apenas nas canções, mas passa por todo o conceito estético deste e de todos seus álbuns. Para a capa, ela trabalhou ao lado do diretor criativo e designer Leandro Assis, para quem ela contou sobre um sonho em específico. “Em um sonho, tive uma espécie de visão em que eu via um capacete, era tipo um capacete dourado. Falei ‘e agora? Como nós vamos fazer esse capacete, pelo amor de Deus?’ Queria ter feito de ouro, né? Aquela coisa igualzinha a que eu vi. Aí fiquei pensando, fazendo pesquisas de como chegar nesse capacete, nessa representação de um ori, de uma cabeça dourada, de uma cabeça rica, de um topo de uma cabeça que é pensante, que é vibrante, que é luminosa. Acabei chegando na ideia da balaclava, mas como é que eu vou fazer essa balaclava? Calhou que uma amiga minha, que tem uma marca de crochê e tricô, postou uma coisa semelhante a uma balaclava. E perguntei para ela, a Samira Carvalho, da São Bento (@sambentotc) eu falei ‘amiga, você faz balaclava fechadinha?’ Ela falou que fazia, aí levei essa ideia pro Leandro, ele pirou também. Fizemos essa balaclava dourada, e aí a gente entende que todo o desenvolvimento do material foi baseado também nos diferentes cabelos, nas tramas e nos cabelos que eu já usei e que posso vir a usar. Uma coisa que realmente gosto é de adornar minha cabeça, com variados cabelos. E acho que é um jeito também de valorizar a minha própria cabeça, eu comigo mesma, que é grande parte da minha autoestima”.
Todas as capas dos singles também ganharam ilustrações que celebram as múltiplas possibilidades do cabelo de Tássia, além de diagramação e fonte que remetem a muitas dessas referências setentistas citadas pela artista. O zelo e a dedicação para afinar cada detalhe reforçam sua perspectiva sobre o projeto. Topo da Minha Cabeça é um disco edificado a partir da perspectiva de uma artista que entende seu ofício nos campos simbólicos – na construção de valores e significados –, mas também representa dispêndio de trabalho e suor, no sentido de esforço produtivo/criativo no sistema em que vivemos. A habilidade de Tássia é a de se embrenhar pelas rachaduras para erguer belezas que escapam, em muitos sentidos, ao próprio sistema. De forma corajosa e independente, ela percorre uma carreira de 10 anos seguindo a sua intenção mais sincera – e Topo da Minha Cabeça é mais uma prova disso. É pop, é samba, é rap, é soul, é poesia e, sobretudo, é o disco de uma artista em constante movimento.
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