Diretamente de Pimenta Bueno, cidade de Rondônia, Douglas Silvestre, o d.silvestre, é um dos destaques da atual cena de funk bruxaria e mandelão, com sets e produções que trazem um estilo agressivo e contagiante. Mas, antes de mergulhar em variações sonoras do funk que vão do tuin a distorções brutais dos graves, o DJ e produtor explorava os loops do violão e o groove do baixo
O manuseio versátil do baixo e do violão colocou d.silvestre no universo musical já na adolescência, aos 16 anos de idade. Além de praticar em casa, ele tocava em bandas que atravessavam ritmos diversos, como forró, sertanejo e piseiro – e foi justamente a vivência na noite que aguçou seus sentidos sonoros e fez surgir o desejo de produzir em outras linguagens. “As quebradas de Rondônia tocam forró, piseiro e funk, mas não é o mandela. O público que vai para o baile de piseiro é o mesmo que vai para o baile de funk. Eu fui ficando velho e vivendo a noite – e isso me despertou o interesse por outra coisa”.
Aos 18 anos, quando a discotecagem ganhou espaço em suas atividades musicais, d.silvestre, em paralelo, começou a produzir suas primeiras faixas de funk – que, segundo ele, na época, ainda não batiam tão forte nos bailes. “Sempre fiz um funk muito eu, e sinto que o público não recebia muito bem. Devo ter tocado em uma ou outra festa de Mandrake, que são algumas festas dedicadas ao mandelão de São Paulo. Mas eu não sentia que a rapaziada recebia bem”, conta. Foi a originalidade e o experimentalismo do mandelão que capturaram sua atenção. “O Pretinho da Meiota é meu parceiro de Rondônia que morou em São Paulo e me mostrou as puras. É difícil de explicar, mas o kick não ornava com a voz, o beat era estridente, e a sujeira na produção me chamou atenção”.

“Comecei a tocar as minhas músicas só quando vim para São Paulo. Mas eu também passei por um processo em que comecei gostar mais das minhas músicas nesses últimos projetos”
O som de d.silvestre é imprevisível, autêntico e envolvente. Bolhas, tuins, kicks e graves são manipulados de tal forma que referências do mandelão ressoam e, ao mesmo tempo, são subvertidas. São produções inventivas e originais – e mais um frescor sonoro vindo da cena da música eletrônica periférica brasileira. E ele está em pura ebulição criativa: são seis álbuns e muitos singles, mas, para o artista, o disco autointitulado lançado em julho deve ser encarado como um cartão de visita. “É um marco zero. Se a pessoa vai começar a escutar d.silvestre, ela pode começar por esse álbum. Por isso ele é autointitulado. É o meu som que vai ficar por um tempo e é o tipo de som que eu gosto”.
A faixa “Mal Criado” sintetiza sua produção frenética. Nela, juntam-se elementos como risadas de palhaços, tuin, distorções em glitch, clap e a variação entre o beat agudo fino e o grave intenso. Em “Beat Matemático”, os graves se contrastam aos assobios que se modificam em ritmo e intensidade, em meio à sobreposição de vozes ecoantes de MCs. Um de seus hits, “Bolhas Makiavélicas” é incendiária, no estilo terror & bruxaria.
“[O disco mais recente] é um marco zero. Se a pessoa vai começar a escutar d.silvestre, ela pode começar por esse álbum. Por isso ele é autointitulado. É o meu som que vai ficar por um tempo e é o tipo de som que eu gosto”
O tempo de maturação das faixas e a mudança de gosto ao longo do período de gestação do disco favoreceram as fusões desimpedidas de d.silvestre. “Passo muito tempo com as músicas e vou testando muito elas. E nesse tempo meu gosto vai mudando, então muitas coisas se modificam. Vou gostando de novas referências e adicionando nas músicas”.
Com uma playlist pré-set que vai do rap ao rock (com nomes como Tyler, The Creator, Mc IG, Kanye West, Black Eyed Peas e Oasis), d.silvestre diz que ir para a noite é a melhor forma de encontrar novas referências. “Nunca tinha ido para um rolê de house. Um dia, eram umas 6h da manhã em uma Mamba Negra e eu estava no palco house. Tava tocando a Paulete Lindacelva b2b Kabulom e foi um absurdo. A partir daí, comecei a gostar e entender a brisa do house. Tanto que estou testando algumas referências de house para o meu próximo disco”.
A mudança para São Paulo aconteceu neste ano e, mais próximo da cena do estilo que lhe chamou atenção, d.silvestre se sentiu confortável para incluir suas primeiras produções nos sets. “Comecei a tocar as minhas músicas só quando vim para São Paulo. Mas eu também passei por um processo em que comecei gostar mais das minhas músicas nesses últimos projetos”. Além das novas referências, ele sentiu diferença na noite da cidade. Enquanto em Rondônia os bailes aconteciam em tabacarias, São Paulo ofereceu uma nova amplitude de rolês. “Em Rondônia, tem uma cena de festa, mas, pelo visto, a cidade está morta. Os principais lugares foram fechados pela polícia. Em São Paulo, é tudo muito grande, tem tudo. Qualquer tipo de festa que você quiser ir, você consegue achar em São Paulo”.

“O brazilian phonk é uma tentativa de apropriação. Os DJs têm mesmo que tocar lá fora, meter marcha, e é ótimo que essas portas estão se abrindo. Mas tem que ficar esperto. Não existe isso de funk produzido por gringo. Pode existir no futuro, mas, no momento, não existe”
Ultrapassando fronteiras nacionais, o som de d.silvestre ganhou destaque na cena internacional. Citado como uma das referências do funk mandelão em veículos como The Fader e Pitchfork, o artista deixa claro a distinção entre funk e brazilian phonk – ritmo criado por DJs estrangeiros para incorporar batidas do funk brasileiro com outras referências eletrônicas – que descaracterizam e pasteurizam o funk do Brasil. “O brazilian phonk é uma tentativa de apropriação. Os DJs têm mesmo que tocar lá fora, meter marcha, e é ótimo que essas portas estão se abrindo. Mas tem que ficar esperto. Não existe isso de funk produzido por gringo. Pode existir no futuro, mas, no momento de agora, não existe”.
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