TETO PRETO com munição infinita

Um papo sobre o lançamento de “Tu Cuerpo Es Una Armada”, construções de gênero, privilégios, liberdades do corpo e a arte enquanto grito de resistência fundamental – especialmente agora

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Fotos: Hick Duarte

Resistir para não ser assassinado é o cruel exercício diário dos corpos fora do padrão masculino hétero cis normativo brasileiro. A pandemia escancara o aumento de 40% das denúncias de agressões às mulheres e 22% dos casos de feminicídio em 12 estados do país onde mais executam transvestigeneres no mundo. O lançamento do primeiro single em espanhol do TETO PRETO, “Tu Cuerpo Es Una Armada”, comunica sobre tais questões por meio da arte – enquanto as mulheres são julgadas moralmente até em relação ao direito de uma criança estuprada praticar o aborto garantido por lei.

“Essa música fala de uma discussão sobre a construção das mulheridades de corpes estranhos à normatividade. Eu me identifico muito com a Linn da Quebrada, a Jup do Bairro, Maria Beraldo, Gaivota Naves, Cashu, Ava Rocha, Malka, Valentina Luz, Ana Giselle e uma lista longa de mulheres artistas profissionais que estão buscando construir uma mulheridade menos opressora. Quando escrevi a letra da música, eu estava (e ainda estou) embriagada pela leitura do Heliogabalo ou o Anarquista Coroado, do Antonin Artaud. Fiquei bastante contaminada com essa perspectiva de outras culturas e outras épocas em que o feminino e masculino não estavam divididos de maneira binárias e estavam integrades. Enfim, de alguma maneira, a minha construção enquanto mulher também assume muito o masculino que tenho dentro de mim e se multiplica em coisas que nem sei o que são”, afirma Laura Diaz, a Angela Carneosso, vocalista da banda, durante entrevista ao Monkeybuzz.

O papo foi realizado ao lado do multiartista Loïc Koutana, que complementa: “Hoje em dia, em relação a tudo que está acontecendo no mundo, o meu corpo, sim, é uma arma, porque sem equilíbrio mental e corporal sinto que não sou nada. Mais do que nunca precisamos buscar força dentro de nós, somos nossa própria arma de resistência política em uma sociedade que agora busca mais apoio através do que está interno dela”. O single celebra a energia e o carinho dos fãs da banda, na maioria gays, mulheres cis, trans e lésbicas, que veem suas trajetórias de resistência espelhadas no palco entre performances e versos. O visual da arte de capa é assinado pelo Estúdio Margem.

A faixa faz parte também da coletânea Desorden y Progreso Vol. 4, do selo mexicano Onda Mundial, conhecido por impulsionar artistas de vanguarda da América Latina. O lançamento, influenciado por ritmos sul-americanos, sinaliza um dos novos caminhos pelos quais a banda deve andar em breve – após o período de isolamento, utilizado para estudos, aprendizados e experimentos. São altas as possibilidades de um novo disco surgir na sequência e outra invasão mundial em festivais aclamados. Após soltar o disco Pedra Preta, a banda teve performances das mais elogiadas no Unsound, Dark Mofo Festival, Carnaval de Bahidorá, Les Escales Festival, CTM 2020, Tremor Festival, e brilharia no palco do Primavera Sound se não fosse a pandemia. O grupo é representado por importantes agências de booking internacional, como a brasileira Urban Jungle, e a renomada Futura Artists, cujo casting têm Lena Willikens e toda crew do clube alemão Salon des Amateurs, Elena Colombi, Violet, John Talabot e outros nomes relevantes do cenário musical eletrônico. “Atualmente, estamos numa nova fase do TETO de amadurecimento, de ajustes, de cada um saber suas possibilidades e ir processando o que serão as próximas etapas. Mas sem botar pressão. Somos do ‘susto’, vamos lá e fazemos quando precisa. Na live feita para o aniversário de sete anos da Mamba, adicionamos alguns elementos novos, mas são coisas em aberto, estamos no take your time, vendo referências, se aprimorando. O que me incomoda é essa lógica de produtividade que alguns artistas se colocam para soar como ‘aqui a fábrica está funcionando e está tudo bem’. Lógico, é importante alimentarmos as redes com novos conteúdos para as pessoas, mas sem passar a impressão de que está tudo bem e vamos sair dessa como seres humanos melhores. A quarentena é um momento das coisas se assentarem para terem gás e conseguirem perdurar”, acredita Laura.

Além de Valesuchi, responsável por dar uma força no espanhol de divertido sotaque portenho de Carneosso, os demais integrantes da banda aparecem nos backing vocals. Outro destaque é a performance vocal de Loïc, que a cada dia chama mais atenção no projeto solo como L’Homme Statue. “Sempre amei essa evolução constante no TETO, a cada momento as possibilidades são imensas. Quando entrei na banda, eu era bailarino e a Laura cantava. De repente, a Laura começou a cantar e dançar comigo, eu comecei no backing vocal…Cada um acabou fazendo mais coisas. O Zopelar e a Laura fizeram eu me dar conta de que poderia cantar. Durante a gravação do álbum Pedra Preta, lembro da Laura ter me chamado e pedido para eu cantar algo na introdução com a minha língua do Congo na faixa ‘Safo’. Aconteceu algo parecido na gravação de ‘Tu Cuerpo Es Una Armada’, Laura pediu para me ouvir um pouco mais e rolou. Eu gosto muito de explorar tantas possibilidades”.

“Um dos grandes privilégios que eu tive por causa do TETO foi quando fizemos turnê na gringa [Canadá, Alemanha, Portugal, Dinamarca, México, França e Austrália]. Ao performar e dançar, levamos uma versão nossa do Brasil, das manas pretas, das sapatões, de todes, de como vivemos aqui. Fizemos o público pensar: ‘Ah, então é isso que acontece no Brasil’. Não era a versão que a TV ou os políticos querem transmitir. A arte do TETO foi um dos modos de mostrar como vivemos e o que está acontecendo de verdade no país” – LOÏC KOUTANA

Sobre a letra do single ter amplificado de sentido com o passar do tempo, Loïc avalia: “É a minha estreia no TETO PRETO cantando em francês, um trecho em que falo ‘os policiais assassinos não param de reclamar’. A música foi criada em janeiro, pouco tempo depois rolaram várias questões sobre violência policial, como o caso George Floyd, que ganharam repercussão mundial. Às vezes, o que escrevemos soa como premonições”. Além de “Tu Cuerpo Es Tu Armada”, a banda tem um histórico de levar o público a pensar sobre os abusos de poder e intolerância refletidos em atos de violência, como é possível notar no clipe icônico de “Gasolina”, gravado em plena repressão policial em um protesto na Avenida Paulista. E, também, na forte letra da música “Bate Mais”, praticamente uma homenagem à trans Matheusa Passareli e à vereadora Marielle Franco, ambas silenciadas de forma covarde. Durante a entrevista, o tema virou uma reflexão a respeito de como os desmandos da polícia estão ganhando cada vez mais volume na conjuntura ditatorial em voga no Brasil, que, escorada em falhas na Lei de Drogas, aumenta consideravelmente as prisões arbitrárias. Não dá mais para a branquitude de classe média se manter confortável e alienada a este problema. Os abusos estão se alastrando de forma exponencial até fora do espectro da periferia, onde as práticas de violência fardada são uma realidade instituída há décadas.

Por meio do coletivo Mamba Negra, Carneosso atuou em ocupações musicais de espaços marcados pela exposição da vulnerabilidade de viciados em drogas no centro velho de São Paulo, como a região da Luz, Campos Elíseos e Barra Funda. “A Cracolândia é essencial nesta discussão [sobre drogas], todas questões se complementam, porém, o mais urgente é compreender o consumo de drogas, não importa se você é contra ou a favor, ele acontece… existe há muitos anos na humanidade. Hoje em dia, a grande verdade escondida pela lei não é o consumo ser proibido, mas ser proibido para a juventude preta e parda trabalhadora, mais vulnerável. O consumo de drogas é ultra permitido e incentivado pela alta burguesia, que toma aqui um aditivo aqui e ali para ‘problema de saúde’. Este é o centro da discussão quando falamos da legalização das drogas ou não. A pessoas vêm com um papo moralista falso. Estamos assistindo agora com o Covid como a direita é imoral. Quem pergunta sobre quem está pagando essa conta, porque não são os playbas que produzem, quem paga são os trabalhadores precarizados. Não estou dizendo algo do tipo ‘vamos organizar essa biqueira de cocaína’, não, mas eu acho que se você legalizar as drogas você institucionaliza as substâncias que estão por aí já acontecendo. Ao menos deixa as regras do jogo mais iguais de alguma maneira, temos muito que avançar nesta questão”.

 “Eu não sou padrão, se meus padrões fossem de mercado eu estaria riquíssima e nos castings, não é bem esse o contexto. Justamente por uma série de acessos e privilégios que eu tive, senti que cada um lida de um jeito com repressão. A minha forma, o meu caminho foi me masculinizar, foi a primeira reação de defesa. Eu não tenho problema ou sinto culpa por isso, eu me sinto até confortável, tenho um monte de testosterona no meu corpo mesmo e acho que existem várias outras questões mais complexas do que o número de hormônios. A discussão a respeito do corpo que eu coloco no palco é do corpe ser livre. Os corpes das pessoas que não necessariamente se identificam como homens de neca. Existe uma relação diferente com esses corpes que têm xoxota, mas não necessariamente se identificam como mulheres, porque têm xoxota, o peito, enfim as mulheridades do feminino em geral. Porque também existem mulheres sem xoxota e que sofrem toda essa carga de repressão do feminino.
O feminino não pode existir, é violentado o tempo inteiro, então a liberdade do corpe, seja o meu, seja o da Jup, da Linn, da Maria Beraldo, da Saskia, claro que elas trazem discussões diferentes do meu [corpo], são referências que fortalecem essa discussão ‘porque a nudez ou não, tamanho da saia que vamos usar ou não, se vai usar calça, se vai usar neca, enfim, isso tudo são questões pessoais nossas, entendeu? E só cabe a nós escolher e não aos outros, essa é a grande discussão. Se a Jup vai estar nua ou não, se vai ser vulgar ou não, se eu vou ser vulgar ou não, se devo estar nua ou não no Sesc, se posso estar nua ou não no vão do MASP, se estarei nua ou não ou em qualquer ocasião e até na praia, como fazer topless, são questões nossas, dos nossos corpes. E lembro desde o princípio [desta discussão] que eu estou falando de um ponto de vista privilegiado de mulher latino-americana branca, mas isso também não pode me impedir e aceitar vestir uma carapuça, ficar quieta ou falando que os pretes vão apontar o caminho para mim. Eu não estou esperando ninguém ser messiânico para eu levantar a bunda e me mexer, eu posso aumentar e compartilhar os acessos aos quais eu tive. Fortalecemos uns aos outros com a Mamba Negra e nossas redes de trabalho e afeto” - CARNEOSSO

Ao abordar questões de privilégio e lugar de fala no contexto social do cerceamento de direitos humanos, Loïc relata: “Sofro o choque da sociedade demonstrando que eu sou preto e qual deveria ser meu lugar. Por exemplo, quando ia até a Polícia Federal resolver questões de documentos, se eu não chegasse mostrando meu passaporte francês eu era tratado de uma maneira péssima, nem olhavam para mim. Ouvi de um policial que, se minha documentação não estivesse em ordem, era para eu voltar para casa, insinuando que eu deveria voltar para África. Mas aí eu falei bonjour, pardon e o tratamento mudou na hora, o cara verificou meu papel. A situação atual devido ao Covid-19 me impressionou ao me dar conta das fronteiras fechadas, mas como eu sou francês consigo sair do Brasil e ir para Europa. Aí eu me dei conta. Por mais que eu seja preto, ter um passaporte francês no Brasil me dá um enorme privilégio, mais do que muitos outros pretos e, por isso, eu vou usar minha voz para ecoar e abrir mais portas, este é o meu caminho no TETO”.

Agora, o grupo recorreu a um ensaio de moda como meio de registrar o novo trabalho musical. Sob curadoria da Mirror Age, o fotógrafo Hick Duarte, ganhador do prêmio New Wave: Creatives do Fashion Awards em 2019, clicou uma atmosfera envolvente e nada trivial com Loïc e Carneosso, ao lado de uma equipe formada por  Styling Suyane Ynaya e Fernando Ferreira (styling), Mika Safro e Suy (beauty) e Edson Luciano (assistência de imagem). O figurino é da estilista Fabia Bercseck.

“Do live da Mamba até o ensaio tivemos os cuidados todos da pandemia, aproveitamos a oportunidade de promover um statement que acompanhasse ‘Tu Cuerpo Es Una Armada’, trazendo essa vertente quente latina Pop, mas com algumas pequenas cores, com a perversão desse Pop ou dessas afirmações. Não é simples seu ‘cuerpo ser una armada’, é foda, todos os dias nossos corpos necessitam ser fortes para aguentar tapa na cara. Poderíamos ter caído nessa situação do que o Pop esperaria de nós. Mas não rolou. Uma das fotos mais fortes fizemos com uma vela em cima de nossos corpos. Fiquei muito feliz com este ensaio, agrada muito mais do que um clipe, ressoa forte, cada foto parece um quadro. Não é uma celebração festiva, a make-up discutiu essas deformações das mulheridades e dos nossos corpes como homens e não bináries que tem o feminino e masculinos entrelaçados, procurando outros lugares não formatados para nos restringir. Onde possamos fluir livremente. Não é fácil encarar todos os dias tendo um corpo forte com essas e outras armas, que são nossas músicas, nossa dança, o que temos de melhor para colocar para fora”, dizem ambos, em meio a uma conversa.

NOVA FORMAÇÃO

Desde o começo da pandemia a banda traz uma nova formação. Bica Tocalino continua no trombone, cuíca e percussão, assim como Zopelar nos synths, baixo e drum machine. Mas Savio de Queiroz saiu para encaminhar outros projeto. Foi substituído pelo jovem produtor Martinelli. Integrante do Radioworkers, ao lado de Benjamim Sallum e Zopelar, ele já lançou o EP Sem Sono pela MAMBArec, mesma gravadora do TETO. “O Zopelar falou comigo, eu não esperava este convite. Já trabalhos em outros projetos, temos facilidade de trabalhar juntos. Demorou para a ficha cair, demorei para responder, mas aceitei. Sinceramente, está sendo um pouco difícil aprender o repertório do show, já existe uma base. Mas é tudo novo para mim. É uma nova linguagem, outro jeito de se comunicar. Mas as experiências em estúdio foram muito diferentes, é outro jeito de produzir, de se apresentar. Acompanho o grupo faz cinco anos, sempre que possível eu ia nas apresentações, sou muito amigo do Zopelar. Então, quando rolou o convite, não acreditei que eu poderia fazer parte de uma banda que acompanho há tanto tempo. Estou feliz, é muito legal trabalhar com eles”, conta Martinelli.

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ARTISTA: Teto Preto

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