“The Age of Adz” – O Despertar Eletrônico de Sufjan Stevens

Disco lançado em 2010 abriu o leque estético do músico Folk, que hoje trabalha com Hip Hop no trio Sisyphus

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Sufjan Stevens – The Age of Adz (2010)

“Cansei da minha voz”, disse Sufjan Stevens em 2006, após o grande sucesso de seu álbum Illinois, o quinto de sua carreira e lar do hit Chicago. Para alguém com uma discografia calcada no misto de tradição Folk com invencionismos dos primeiros anos do século 21, não querer ouvir a si mesmo configura o mesmo problema que um atleta que perdeu seu encanto com o esporte ou um programador que se cansou de computadores. Era necessário encontrar ou uma ferramenta que recuperasse o pique no ofício ou um bom desafio, algo que sempre renova as energias. The Age of Adz fez as duas coisas ao ambientar a obra do músico no universo da música eletrônica.

Quando isso aconteceu, foi um choque para muitos fãs, mas Sufjan nunca deixou de surpreender. Seja nas mudanças de temas tratadas de um álbum para outro ou nas variações de timbres utilizadas entre as faixas de um mesmo disco, o elemento surpresa sempre fez parte de seu show. Porém, talvez a característica do disco que mais incomodou o público ortodoxo, mais ainda que as batidas eletrônicas ou os efeitos nos timbres, foi o uso do autotune nos vocais do músico – justamente o recurso que trazia inovação àquilo que lhe deixava insatisfeito.

Apenas quatro anos depois (ou nem isso, já que o disco foi lançado em outubro), a discussão sobre usar ou não efeitos na voz já parece datada, principalmente agora que estamos habituados a vermos trabalhos assim saírem com frequência, como os de James Blake e Kanye West – dois dos nomes que provaram, assim como Sufjan, que o artifício pode ser muito bem utilizado. Porém, de todas as mudanças que The Age of Adz deu à carreira do artista, fico com a impressão de que a mais relevante delas não é a construção com elementos eletrônicos, mas o que ele conseguiu atingir a partir delas.

Ter uma nova base para suas composições significou a possibilidade de contar também novas histórias. Vão embora as inspirações em lugares ou nos casos que ouviu falar e encontramos ali um novo centro: O próprio Sufjan Stevens. Se o som eletrônico parece inorgânico nas mãos de alguns, o músico conseguiu soprar vida em cada segundo da uma hora e quinze minutos que completam a obra. E o mesmo vale para o autotune. Quando você ouve o vocal processado falando “No, I know it wasn’t safe, it wasn’t safe to breathe at all” (em Impossible Soul) ou por toda a extensão de Now That I’m Older, percebe que as ferramentas de produção não são nada além de facilitadores pra alma inquieta do músico se comunicar com o mundo aqui fora.

Talvez daí também ele ter encontrado nos trabalhos de Royal Robertson a identidade visual do álbum. O artista trabalhava temas complexos, como o fim do mundo e o caos interior, e se autoproclamava um profeta, sendo diagnosticado com esquizofrenia – o tipo de personagem que Sufjan gosta de investigar em um nível mais pessoal, como fez com o psicopata John Wayne Gacy Jr. na faixa homônima de Illinois (“And in my best behavior, I am really just like him. Look beneath the floor boards for the secrets I have hid”). As pinturas de Robertson eram a maneira com que ele conseguiu dialogar com o mundo seus dramas pessoais mais doloridos, bem o que Stevens fez neste disco, sem medo de expor “loucuras” ou medos.

Daí também tantas faixas serem tão carregadas de emoção. Dá até a impressão de que ele se sentiu mais à vontade sob o verniz eletrônico para trazer à luz uma estética para sua interpretação e suas letras que poderia ficar exagerada para o Folk construído com violões como ele apresentava antes (ou mesmo quando usava piano e/ou guitarra) . All For Myself, Get Real, Get Right e I Want to Be Well exemplificam bem isso.

Seu único lançamento solo desde então foi a compilação Silver & Gold, com músicas natalinas gravadas entre 2006 e 2010 (muitas seguindo o estilo do disco), mas ele se aventura também com o projeto Sisyphus, antigo s / s / s, uma mistura de Hip Hop com Eletrônica que carrega seus aprendizados com o álbum de 2010. Pelo visto, o que The Age of Adz despertou em Stevens ainda poderá ser sentido em sua obra por muito tempo, talvez para sempre. Os fãs agradecem.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.