The Jesus and Mary Chain: História sem Piedade

Com a volta da banda ao Brasil, vale a pena relembrar rapidamente cada álbum de estúdio

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Os escoceses invocados de The Jesus And Mary Chain estão bem próximos de sua terceira visita ao Brasil. Seja no palco do Cultura Inglesa Festival (dia 25 de maio, no Memorial da América Latina, SP) ou no Vivo Open Air (dia 27 de maio, na Marina da Glória, RJ), a presença da banda dos irmãos William e Jim Reid é sempre um bom motivo para celebrar. Egressos de um tempo que já se foi, o início dos anos 1980, os Reid representam uma discreta mutação na lógica de bandas formadas no Pós-Punk inglês daquela época. Enquanto a maioria cultuava apenas a psicodelia de gente como Doors ou Velvet Underground e a misturava com alguma herança eletrônica/melancólica contemporânea via Joy Division, o grupo não conseguia esconder uma tara sincera pela agressividade distópica de The Stooges e um amor dourado suspenso no ar pelas melodias chicletes dos girl groups dos anos 1960.

Os irmãos iniciaram suas atividades no início dos anos 1980. Primeiro foram The Poppy Seeds, depois The Death Of Joey. A mitólogica escolha pelo nome que ficou para a eternidade repousa na lenda de que teriam optado por ele a partir de uma propaganda de cereal, na qual a pessoa comprava a caixa e ganhava como brinde uma corrente com o pingente de Jesus e Maria. Pode ser verdade, ou não. O fato é que os irmãos Reid nunca foram músicos preocupados com a fama ou com a imagem e isso é um dos seus maiores trunfos. Ao contrário da maioria dos contemporâneos, J&MC também sempre optou pelo barulho total, abortando que totalmente as possibilidades de sucesso fácil ou posters nas paredes de quartos de adolescentes. O negócio dos caras sempre foi microfonia e vocais sussurrados, devidamente emoldurando um subterrâneo em que habitavam melodias ganchudas. Os Reid tiveram a primeira formação com as presenças do baixista Doug Hart e do baterista Murray Dalglish. Os primeiros registros de demos apontavam para grande semelhança com os Ramones, fato que levou os irmãos a adicionarem grandes doses de barulho. Os primeiros dois anos, 1982 e 1983, não trouxeram qualquer mudança na vida dos dois e do restante da banda. Como não parecia haver espaço para eles na cena escocesa, decidiram partir para a aventura de morar em Londres no início de 1984.

Logo que chegaram lá, deram a sorte de ter Alan McGee, fundador da recém-criada Creation Records, como um fã. Também escocês, McGee recebera uma fita da banda através de outro compatriota, Bobby Gillespie, que seria baterista do J&MC logo após, dividindo tempo com sua própria banda, Primal Scream. McGee traria o grupo para o cast de sua novíssima gravadora e assumindo o posto de empresário. Logo a banda encontrou espaço para tocar em pequenos palcos, com o seguinte padrão de show: 20 minutos de duração, totalmente turbinados por anfetaminas e de costas para a plateia. O primeiro single foi Upside Down, lançado em novembro de 1984, chamou a atenção da Warner, que ofereceu um contrato por intermédio de seu selo Blanco y Negro. Outro single veio, Never Understand, que chegou ao Top 50 da parada inglesa de singles e fez do famoso radialista John Peel um dedicado fã. A chegada de Just Like Honey, lançada no fim de 1985, fez com que a banda chegasse ao 45º da parada, antecipando a tensão para o primeiro disco, que viria logo após, Psychocandy. O que se ouvia do novo álbum era o encontro improvável de Velvet Underground e produções douradas de Phil Spector. Melodias angelicais de Beach Boys sufocadas pelo peso de mil microfonias. A própria introdução de Just Like Honey já emulava a tradicional bateria de Hal Blaine de Be My Baby, canção marca registrada das produções de Spector, gravada por Ronettes em 1963. Psychocandy foi unanimidade positiva entre os críticos mas, logo após sua gravação e shows iniciais, Gillespie deixou a banda para se concentrar no Primal Scream. Para J&MC, a rotina de shows se intensificaria com apresentações nos Estados Unidos e Japão.

A vida agitada da banda, com inúmeras discussões e brigas entre os irmãos e um constante entra-e-sai de baixistas e bateristas começou a fazer-se notar nas turnês seguintes, ao longo de 1986 e início de 1987. A banda concentrou-se para gravar o segundo álbum, Darklands, já sem a presença de McGee como empresário. Se a microfonia dominava o trabalho anterior, aqui ela aparecia mais insinuante, subjetiva. As canções ganharam arranjos mais econômicos, esparsos, mas cheios de momentos de confronto entre distorção e melodia. O primeiro single do novo trabalho, April Skies, chegou ao Top 10 inglês, com o lado B escancarando a influência beach boy, com a inequívoca Kill Surf City. Happy When It Rains viria em seguida, novamente na cartilha de melodia dourada sob toneladas de microfonia e o novo álbum foi lançado em setembro de 1987, quase totalmente executado pelos irmãos e uma bateria eletrônica. Com a fama de arruaceiros aumentando, a banda seguia on the road, fazendo shows e emendando turnês. Darklands foi novamente saudado pela crítica especializada e o grupo decidiu aproveitar e soltar uma coletânea de lados B e sobras de estúdio, sob o nome de Barbed Wired Kisses, em 1988. No ano seguinte vinha à luz o terceiro álbum da banda, Automatic. Produzido por Alan Moulder e contando com os serviços novamente prestados por uma bateria eletrônica, o disco trazia sonoridade mais agressiva que Darklands, porém alcançada pelo uso de sons mesclados de guitarra com baixos sintetizados, trazendo, pela primeira vez, resultados diversos em meio à opinião da crítica. Os singles Head On e Blues For A Gun não chegaram a ter o mesmo desempenho nas paradas.

Os irmãos só lançariam novo álbum em 1992. Eles construiriam seu próprio estúdio no ano anterior e, pouco depois, Reverence, primeiro single gravado no Elephant & Castle Studio, veio às paradas. A boa e velha polêmica reapareceu na carreira dos Reid, dessa vez por conta dos versos iniciais da canção, com as singelas palavras “Eu quero morrer como JFK, quero morrer nos Estados Unidos, quero morrer como Jesus Cristo, quero morrer numa cama de espinhos”. O resultado foi o banimento da música em vários programas ingleses, além da própria BBC. Mesmo assim, a expectativa pelo novo álbum aumentou e Honey’s Dead foi lançado em fevereiro de 1992. A banda caiu logo na estrada, a bordo da Rollercoaster Tour e definiu os Estados Unidos como alvo principal. A partir disso, integraram o line up do primeiro festival Lollapalooza, se apresentaram no programa noturno de David Letterman. Honey’s Dead novamente reuniu a crítica especializada em torno de resenhas muito positivas. A presença de um baterista “de verdade”, no caso, Monti, do Curve, deu nova dinâmica à sonoridade dos Reid, já quase viciada em estúdio por conta da ausência constante de bateristas. Reverence abria o disco com sua letra pé na porta, mas nem tudo era agressividade total. Sugar Ray, Good For My Soul, Frequency e a semi-balada Almost Gold fazem bonito no percurso do álbum.

O panorama de turnês e shows não mudaria para os Reid, mas o álbum seguinte, Stoned & Dethorned, lançado em 1994, seria diferente dos trabalhos mais recentes. Novamente com Monti na bateria, os irmãos teriam a presença de um baixista, John Lurie, que excursionava com eles, viera emprestar seu talento às gravações. Além deles, as presenças de convidados especiais como Hope Sandoval (Mazzy Star, à época, namorada de William Reid) e o líder dos Pogues, Shane MacGowan, conferiam um ar novidadeiro à empreitada, que nascera como um disco acústico próximo das sonoridades Folk e Country, devidamente abandonadas no meio do caminho. God Help Me (com MacGowan) é uma das grandes canções do álbum, junto com Come On, Girlfriend e Sometimes Airways.

The Jesus And Mary Chain deixaria a gravadora em 1995 e retornaria para os braços da Creation Records, bem como para a Sub Pop americana. O próximo trabalho a ser lançado pela banda seria Munki, em 1998, com a presença do baixista Phil King. O disco, não tão inspirado quanto os trabalhos anteriores, seria o último lançado pela banda, que encerraria as atividades no fim do ano. Os irmãos permaneceriam em recesso por pouco tempo, cada um cuidado de projetos individuais que jamais chegaram a atingir a mesma visibilidade de Jesus. Em 2007, para surpresa dos fãs, a banda retornaria para apresentar-se no Festival Coachella. Em junho do mesmo ano, apresentavam-se no Meltdown Festival, na Inglaterra. No ano seguinte, a Rhino Records empreendeu o relançamento dos quatro primeiros discos de J&MC em versões CD duplo/DVD, com material extra em grande quantidade. Desde então, os irmãos mantém uma agenda frequente de apresentações, com shows até na China. Agora, quatro anos após sua apresentação no Festival Planeta Terra, a banda retorna ao Brasil.

Talvez os Reid sejam mais dessa leva de artistas que vivem de nostalgia, lembrando os gloriosos tempos idos do passado. No caso deles, como jamais foram conformados ou convencionais, sempre acenando com alguma forma de desajuste, refletido lindamente em suas canções, os irmãos talvez tenham um plano de novo disco em mente – como já anunciaram inúmeras vezes – ou só queiram mostrar como soa ao vivo a banda que fez a trilha para a cena final do longa Lost In Translation (Encontros e Desencontros, 2003), na qual Scarlett Johannson sussurra algo ininteligível a Bill Murray, numa Tóquio cosmopolita e estéril. Talvez eles só estejam ganhando algum trocado para pagar as contas, vá saber. O que você precisa saber é que J&MC é uma parte inexplorada dos anos 1980, visitada por pouquíssimas ou nenhuma banda mais recente. E você precisa conhecê-los. Agora.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.