The National emociona novamente em “I Am Easy to Find”

Experiência do álbum tem sua sensibilidade aumentada através de filme que acompanha a obra

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Começo, meio, fim. Não é de se estranhar que as lágrimas caindo ao ouvir The National cheguem ainda mais rápido com I Am Easy to Find, álbum acompanhado de um filme que conta, linearmente, do primeiro ao último momento na vida de uma personagem. E se a música da banda sempre soube despertar os sentimentos certos aqui dentro, essa característica ganha uma amplitude considerável ao sermos mostrados justamente aquilo que todos, sem exceção, tem em comum: O início e o término dos nossos dias, com tudo o que faz parte do intervalo entre os dois.

O filme tem direção e roteiro de Mike Mills, que vem assinando também os clipes do grupo, e é estrelado pela atriz Alicia Vikander (de Tomb Raider). Aos 29 anos, ela interpreta a personagem central desde seu nascimento até uma doença inesperada na velhice. Os outros atores mudam, mas, em todas as idades, é ela quem vemos em todas as cenas – e não tem como não sorrir com as sutilezas de sua atuação, da postura do corpo infantil aos gestos menores quando avó.

Ter um só rosto ali, com o mesmo corte de cabelo, estabelece uma das características fundamentais da obra: A familiaridade. Ao longo dos 23 minutos de narrativa, estabelecemos nossa conexão com a personagem e seu universo. Sob o preto e branco e uma direção de arte bastante específica, os cenários são parecidos entre si e logo nos percebemos dentro daquele seu universo. Mesmo os enquadramentos são semelhantes.

Isso é importante como facilitador de uma conexão mais forte com o som intimista que The National faz, dos vocais densos de Matt Berninger ao aspecto bagunçado, mas que depois você gosta – como diz o curta em certo momento. Mais do que seguir uma tendência de discos visuais, ou de filmes baseados em singles/álbuns (Olá, Guava Island), I Am Easy to Find oferece aos ouvintes inquietos, aqueles que as estatísticas dirão que não ouvem um disco até o fim, uma atenção que se estende enquanto vemos a ampulheta da história correr. Contudo, aqueles que não quiserem passar mais de vinte minutos olhando para a tela podem ter a experiência condensada em uma versão (bem) mais breve, que foi lançada como o clipe da belíssima Light Years (a última do filme, quando passam os créditos).

Ao final da experiência, o que fica é um olhar bastante sincero sobre a vida e sua finitude. Há algo bastante banal nas coisas que a personagem passa, sem muitos episódios chocantes ou mesmo incomuns. Nem todos vão experimentar abortos e casos extraconjugais, mas muita gente não terá filhos ou mesmo netos. Acompanhar alguém ali, do começo ao fim, tendo uma vida um tanto pacata, traz à mente não só um olhar melancólico sobre como o que mais carregamos dos nossos dias é o que nos marca negativamente, como as dificuldades. Isso, e o privilégio que é chegar a uma idade avançada tendo experimentado o ar puro, a grama, o amar e o observar consciente do tempo.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.