The Vines e seu Disco Psicodélico que Influenciou Gerações

Contestado segundo trabalho dos australianos se mostrou influente em diversos grupos e completa dez anos de seu lançamento

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Ao lançar Highly Evolved em 2002, The Vines despontou como não só uma promessa do “novo Rock” que tinha nos nomes de The Strokes, The White Stripes e The Hives a sustentação necessária para a criação de uma cena, mas também como uma banda que caminharia por trilhas totalmente opostas. Se o “the” que viria a acompanhar os grupos após Is this It?, que pautaria sua sonoridade pela revitalização de elementos sessentistas do Rock, o grupo australiano liderado pelo maluco Craig Nicholls se tornaria conhecido como os “últimos filhos do Nirvana” pelo seu som Garage Rock e pela sua atitude de palco extremamente agressiva que lembrava as melhores apresentações do maior grupo de Grunge de todos os tempos.

Foi com Get Free, provavelmente a faixa mais conhecida da banda, que os olhares e ouvidos da mídia especializada se atentaram para os australianos. Raivosa e antagônica em relação aos novos grupos daquele início de década, podiamos perceber que The Vines era diferente dos demais por bem ou por mal. Se o seu primeiro disco se tornaria uma referência e seria extremamente elogiado, o sucessor Winning Days não teria a mesma sorte por alguns fatores. O segundo disco de uma carreira é sempre complicado, seja pela crescente expectativa de um público que agora já conhece muito bem o seu som, seja pelas vontades dos músicos em muitas vezes querer seguir outras propostas sonoras. O que é melhor, se manter seguro ou inovar?

Se estas fossem somente as questões que passassem pela cabeça do grupo, não teríamos tantos problemas assim, no entanto a história é muito mais densa. Na turnê de Highly Evolved, perfomances nervosas com instrumentos quebrados ou brigas internas na banda davam ares de que seriam meras estratégias de marketing e que o espiríto de “novo Nirvana” tomava conta de seus shows. Entretanto, logo após o lançamento de Winning Days, o vocalista e líder, Craig Nicholls, foi diagnosticado com a Sindrome de Asrperger, tipo leve de autismo que leva o seu agente a ter disturbios comportamentais e dificuldades de comunicação. Curiosamente, em 2004, a banda iniciaria um período de incertezas e abandonos que ainda a afetam até hoje. Por exemplo, como um trio, The Vines atualmente possui somente o seu vocalista como membro inicial, sendo os outros dois instrumentistas participantes recentes de 2012.

Se Craig parecia muitas vezes bêbado ao tocar ao vivo, tudo isso era relevado pelo seu disco de estreia e todo o hype ao seu redor. Por isso que seu segundo álbum foi contestado ao seguir uma abordagem um pouco distinta do Garage Rock inicial e abraçar a psicodelia de vez, algo que ironicamente parece se propagar pela Austrália como um todo em grupos como Tame Impala e Pond. The Vines parecia ter perdido o seu impeto e a crítica não poupou más resenhas a um disco que, se escutado ou lançado atualmente, seria muito bem aceito. Logo, uma revisão da obra se faz necessária, com sua capa sessentista e um som que traz um pouco de The Beatles e Pink Floyd e, que quando se une ao Garage Rock, traz uma espécie de Stoner Rock preciso.

Em Highly Evolved, tínhamos a balada Autumn Shade como um dos momentos mais serenos de uma composição pautada na distorção e nos gritos de Craig. Sua voz, quando cadenciada, nos lembra de certa forma um John Lennon mais chapado e menos poético, mas com talvez mais emoção em seu timbre. Esta valência é abordada ao longo de faixas que se tornam ótimos acompanhamentos para letargia ou a falta de compromisso. Belas baladas tomam conta de todo este segundo disco, sendo a faixa título e a segunda parte de Autumn Shade músicas viciantes e guardadas na memória. Rainfall é outra canção que pode ser confundida com qualquer produção atual que queira beber da Psicodelia, mas em 2004 tal exercicío se mostrava “chato” para veículos como o site Pitchfork.

No entanto, era uma mudança sonora que talvez não fosse compreendida há dez anos, mas que pode ser percebida contemporaneamente. A raiva e energia surgiam no single Ride, com seu ótimo clipe com diversos músicos tocando a faixa, e Fuck the World, canção garageira que poderia ser tocada por Queens of the Stone Age e ninguém perceber. Ou a pesadíssima, Evil Town, puro Stoner Rocker e que traz nos efeitos de voz de Craig a viagem sonora para transportar o ouvinte para um lugar bem distante.

Percebemos um som bem diferente saindo do grupo. Animal Machine tem diversos elementos do Grunge, como a voz, riffs de guitarra e sua inspiração no Punk Rock. Realmente não consigo imaginar como um disco com tantas faixas boas, e talvez até mais coeso que Highly Evolved, possa ter sido tão criticado assim. O lado roqueiro de Arctic Monkeys? Pode ser escutado aqui também e são tantas as relações sonoras entre The Vines e a música atual que somente demonstra que muitas vezes os críticos erram feio. TV Pro é um pouco de The Beatles com um refrão extremamente roqueiro, enquanto Amnesia poderia estar no início da carreira de Pink Floyd ou na fase Sgt. Peppers dos meninos de Liverpool.

The Vines nunca conseguiu se manter por muito tempo pelos problemas comportamentais e de relacionamento de Craig, o que é um grande desperdício para uma carreira que parecia fadada ao sucesso e aos holofotes que outros nomes tem hoje em dia e que surgiram na mesma época. Aliás, o excesso de olhares e elogios no início de seus trabalhos podem muito bem ter servido como potencializador de um comportamento patológico. Se nos tempos atuais o grupo ainda se mantém na atividade e realiza trabalhos interessantes, sua relevância foi diminuindo aos poucos. No entanto, ao revisitar um disco tão contestado quanto o psicodélico Winning Days, que completou ontem dez anos de existência, se mostra uma tarefa interessante e demonstra que como segundo álbum, a obra traz faixas inesquecíveis e que influenciaram toda uma geração de lunáticos que está fazendo o sucesso que os australianos mereciam possuir, caso não tivessem se tornado uma banda tão conturbada.

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ARTISTA: The Vines
MARCADORES: Aniversário

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.