Thurzzz e a pista futurista

Lançando EP de estreia, o DJ e produtor une guitarras de afrobeat, batidas de funk, grooves obscuros e vozes de hits radiofônicos – tudo com um único objetivo: fazer você dançar

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Fotos: Ots / Divulgação

“Esse EP tem a batida do funk brasileiro, mas com uma pegada futurista. Não é comercial. Tem bastante variação, corte, edição, efeitos e tudo colado com grooves das antigas”. É assim que Arthur Tosello, o Thurzzz, explica o título de seu EP de estreia, Future Funking, lançado no período de quarentena. Na saga dos beats, tracks e samples há pelo menos quatro anos, o campineiro já dedicou sua produção a bases de Rap e também enveredou pelo caminho mais Lo-Fi, até, ao que tudo indica, aterrissar no chamado Global Bass. É difícil definir exatamente o que constrói e caracteriza o gênero. Tem a ver com, sob imponentes linhas de baixo, colorir uma produção com tudo o que se encaixe – de elementos regionais a samples inusitados –, a fim de promover um ritmo dançante. Com uma simples missão: contagiar a pista. Tropkillaz e Diplo (ou o Major Lazer) são alguns dos nomes conhecidos que podem ser associados ao Global Bass.

DJ na noite, Thurzzz leva consigo a preocupação de criar tracks que caiam no gosto do público que o escuta comandando as pick-ups. “Defino meu estilo como Global Bass ou Club Bass. É música para pista. Produzo Afrobeat, Funk, Trap, mas não exclusivamente. Como eu toco, comecei a desenvolver isso: fazer músicas que eu consiga tocar em uma pista”. E, para que isso funcione e, ao mesmo tempo, não caia no lugar comum, a pesquisa deve ser incansável e a criatividade precisa estar aflorada. “Minha pesquisa começa desde que eu nasci, ouvindo música com o meu coroa, muito flashback, música dos anos 1970. Depois criei meu próprio gosto e misturei tudo”. Para ele, ser DJ – além de ajudar na definição “esse som é pista ou não é?” – contribui muito para aprimorar noções de compasso e mixagem.

Antes do EP, Thurzz vinha soltando faixas em seu perfil no Soundcloud que demonstram o repertório de influências – as quais, juntas e fundidas, incendeiam uma pista. “EI VOCÊ” mescla a fabulosa “Hei! Você”, samba-funk-soul lançado por Dom Salvador & Abolição nos anos 1970, a tambores que passeiam entre o Afrobeat e a música latina, enquanto a voz de Kelis surge entoando os versos do hit “Milkshake”. O conceito de colar sons de escolas diferentes de uma maneira consistente (e sempre dançante) perpassa também o EP Funking Future, produzido majoritariamente a partir de samples.  “Não tem um padrão, um alvo, tipo “hoje vou produzir um Afrobeat’. Normalmente, começo a partir de um sample e vou adicionando elementos, baterias e grooves, sempre com a ideia de passar isso para uma pista”.

Outros destaques disponíveis no Soundcloud são uma versão repaginada de “La Belle De Jour”, de Alceu Valença, e “Eu Tiro Onda”, trapfunk que junta o violão acelerado de “Tiro Onda”, de Jair Oliveira (Jairzinho), à acapella de “Ela Fica Só de Portãozinho”, de MC G15 – e ainda há espaço para citação de “End Of Time”, de Beyoncé. Bagunça da boa. Os flertes sonoros com o universo do Hip Hop são reflexos da bagagem acumulada na juventude por Thurzz, fã especialmente de Don L e Emicida. “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro… e Roteiro Pra Aïnouz são alguns dos álbuns que eu mais ouvi na minha vida”.

Já as referências de produção, que o encorajam a despejar tudo no caldeirão, como não poderia deixar de ser, vêm de ídolos capazes de unir versatilidade, pesquisa e apelo dançante. “No Brasil, me inspiro em Daniel Ganjaman e Zé Gonzales (Zegon). O Ganjaman dominou a produção de muita coisa fez minha cabeça, Sabotage, Criolo e BaianaSystem. E o Zegon, com o Tropkillaz, enxergou a cena de funk, trap, EDM e agregou tudo isso em uma coisa só”. Mas as influências também estão além das terras brasileiras. “O Sango meio que inventou o Chill Baile, misturou Trap, Funk, percussões daqui, mesmo sendo gringo, e depois veio uma leva de produtores que se inspiraram nele. E o Kaytranada é genial, criou um estilo, um groove futurista e, além disso, tem uma assinatura inconfundível”.

"Ser DJ contribui para ter noção das coisas que caem bem na pista. Eu vejo a reação das pessoas com aquela batida, com a percussão, reparo em como elas dançam. Isso ajuda a saber o que funciona".

Com arte assinada pelo conterrâneo Ots (fundador da Ilustra Soul) e masterização por conta de Tiago Pinheiro, Future Funking foi produzido em um período de oito meses e surgiu despretensiosamente, movido pela ideia de que as tracks carregavam conceitos em comum. “Eu não tinha a ideia de fazer o EP, fiz duas tracks com samples que dialogavam, com baterias semelhante e aí tive a ideia do tema ‘Funk Futurista’, de tentar criar novas linhas de funk . Aí fiz a ‘Nave’, que é mais digital”. A quarentena, embora o impeça de exercer a atividade de DJ, também acabou contribuindo para que sua atenção fosse dedicada totalmente à finalização do EP e à evolução como produtor. “Tá sendo bem ruim, datas canceladas. Mas tô aproveitando para produzir muito. Além de finalizar o EP, fiz umas 10 músicas novas e ando pesquisando muito. E nesse período também montei um set especial para uma label da Califórnia, a Burn Cartel”.

Mesmo bebendo de tantas fontes diferentes, o som de Thurzzz traz o funk carioca como o carro-chefe que faz outros ingredientes brilharem, chamando todo mundo para a dança. Não é uma questão de protagonismo, mas, sim, de besuntar tudo com o ritmo do tamborzão. “O Funk é muito louco. Se você ver desde o começo, do melody até o que virou, variou demais. É absurdo. Ostentação, 150 BPM, Rave Funk, Brega Funk. Tudo puxado principalmente pela percussão e essa é a riqueza que eu tento trazer”.  A produção é complexa, mas a missão é simples e a pista é democrática. Com o intuito de fazer dançar – não de fazer você descobrir qual é o nome do gênero musical que está escutando (se é que existe um nome definido) –, Thurzzz considera Tim Maia como o maior símbolo dessa arte. “Um dos maiores gênios da música brasileira. Pega, por exemplo, o Tim Maia Disco Club, de 1978. Serve para qualquer pessoa, em qualquer época. Nunca enjoa, nunca perde a graça”.

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ARTISTA: Thurzzz