Tom Zé E Os Dez Anos De Estudando O Pagode

Décimo aniversário de disco-opereta-manifesto do músico

 4,279 total views

Fotos: André Conti

Vocês lembram de 1936? Sabem de alguma coisa que aconteceu neste distante ano? Tom Zé vinha ao mundo nesta volta da Terra em torno do Sol, há mais tempo que a esmagadora maioria dos artistas e bandas que você admira. Ele é mais idoso que Caetano Veloso, Chico Buarque, Bob Dylan, Paul McCartney, mas nunca mais velho que estes e outros seres humanos que nasceram há menos tempo. Tom Zé é a personificação do desafio ao Tempo (com “t” maiúscula), à cronologia, à concepção de que o mundo segue uma estrada de mão única em direção ao que vai acontecer amanhã como sendo algo obrigatoriamente melhor e mais importante do que o acontecido hoje e ontem.

A família de Antônio José Santana Martins, morava na cidadezinha de Irará, na Bahia. Seus parentes melhoraram de vida depois que ganharam na loteria e Tom Zé veio ao mundo nesta época. Sua natureza inquieta deu as caras logo cedo e ele deixou a cidade para estudar música em Salvador. Lá aprendeu violão e entrou para a universidade, também dando as caras como músico em programas de auditório, acompanhando calouros. Como habitante de Salvador e fazendo jus à sua herança interiorana, o jovem maravilhava-se com shows de talentos empreendidos por artistas multitarefas, gente que sabia cantar, tocar, imitar, contar piada e desempenhar funções circenses, algo que o inspirou na própria e nascente carreira. Não é de espantar que ele tenha se integrado à facção mais libertária e anárquica da Tropicália, fazendo os jovens Caetano e Gil soarem comportados perto de sua irreverência. Talvez por isso, por essa pinta de que está rindo de tudo e todos, a carreira de Tom Zé tenha sido menos considerada que a de seus colegas tropicalistas “mais sérios”. Mesmo aparecendo na capa do álbum-manifesto Tropicália, em 1968 e lançando seu primeiro disco solo no mesmo ano, Tom Zé teve lampejos de popularidade raríssimos, mesmo com obras interessantes como o clássico álbum Estudando o Samba, de 1976.

A verdade é que Tom Zé jamais pareceu compor para outra pessoa que não fosse ele mesmo. E isso não é mau. Sua alma é plural e cheia de inquietações, gerando criações igualmente diversas e interessantes. Mesmo assim, alguns momentos de sua carreira são realmente herméticos e o colocaram numa categoria de “artista maldito”, do qual poucos ouviam falar, muito menos ouvir. Essa situação mudou consideravelmente nos anos 1990. David Byrne, o próprio Talking Head, esteve flertando com música africana e brasileira em fins dos anos 1980, por conta de sua carreira solo, cujo primeiro álbum chama-se, sintomaticamente, Rei Momo. Byrne esteve várias vezes no país buscando inspiração, conversando com músicos e pesquisando ritmos, até que topou com a obra de Tom Zé. A reação foi a melhor possível e, pouco tempo depois, mais precisamente, em 1992, o selo de David, Luaka Bop, lançava uma coletânea com o melhor do trabalho do baiano. Com o nome de The Hips Of Tradition, o álbum caiu como uma bomba na intelectualidade e na imprensa especializada anglo-americana e sendo repetido aqui, como era de costume, gerando uma renascença artística para Tom Zé.

Essa novíssima fase de sua carreira trouxe um reconhecimento internacional inimaginado, levado adiante por músicos ingleses e americanos que ouviram o disco Tropicália ao longo de três décadas e se impressionaram com sua atemporalidade. A partir daí, Tom Zé caiu numa nova estrada e viu-se diante de um mundo que ansiava por sua presença, em pouco tempo estava produzindo trilhas sonoras de balé para o Grupo Corpo e gravando novo álbum, Defeito de Fabricação, que lançou em 1998 e cujo espetáculo foi premiado no exterior e, depois, aqui. Fechou contrato com a gravadora Trama em 2000 e iniciou uma nova fase na carreira, modernizando seu discurso e pesquisando novíssimas abordagens para suas canções. Dentro deste contexto, seu disco de 2005, Estudando O Pagode tem papel de destaque.

O lançamento do álbum coincide com o aniversário de quase trinta anos de Estudando o Samba, mostrando que Tom Zé se dispunha a dar uma espécie de “aulão” sobre ritmo, sociedade e entendimento da modernidade, não necessariamente nessa ordem e de forma (felizmente) intuitiva. A ideia não é repensar uma variante do Samba, no caso, o próprio Pagode enquanto ritmo musical de sucesso no país desde a década anterior, mas observar e fazer reflexões sobre a mulher. Pensado como uma opereta e dividido em três atos o Estudando O Pagode aborda segregação, preconceito com desenvoltura e sem abrir mão da brejeirice sonora. Com produção e presença massiva de Jair Oliveira, tocando instrumentos tradicionais como cavaquinho e violão de sete cordas, as canções visitam, além do próprio Samba, Eletrônica, Música Nordestina, Adoniran Barbosa, Vinícius de Moraes, World Music, além do próprio Pagode, um gênero no qual a presença feminina só se dá como inspiração, restando pouquíssima ou nenhuma representante com êxito neste terreno. As cantoras Zélia Duncan, Suzana Salles, Luciana Mello se alternam nas vozes.

Mesmo aparentemente difícil, o álbum tem apelo Pop já na divisão das 16 canções, em seis atos, que têm duração compatível com os formatos mais acessíveis e não abrem mão de nuances e detalhes que privilegiam a apreciação mais descompromissada. Há provocações como Mulher Navio Negreiro mas há momentos assoviáveis como O Amor É Um Rock, dando a entender que Tom Zé não quer encher o saco de ninguém com conceitos cabeçudos, mas divertir o ouvinte e a si mesmo, ainda que esteja falando de coisa muito séria. Com o subtítulo Na Opereta Segregamulher e Amor, enfatizando seu formato e seu propósito, mais para uma conversa de botequim naquela terra brumosa que adentramos quando passamos de um determinando limite etílico, o disco dá seu recado bem demais e se acomoda com graça no setor de obras interessantes, inteligentes e acessíveis da MPB desde sempre. É bom saber que obras assim surgem de tempos em tempos.

 4,280 total views

ARTISTA: Tom Zé

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.