Torres, à flor da pele

Em primeiro EP solo, “S.O.S.”, o cantor expele suas frustrações em canções de amor (e dor) embaladas por elementos de R&B, Trap Pop e Chill Baile

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Fotos: mauvistto

Não existe receita certa quando o assunto é lidar com o fim de um grande amor. Alguns de nós recorreremos aos excessos, outros ficam apáticos, miúdos, falando baixinho — mas sentindo muito. Para Torres, contudo, só funciona de um jeito: escrever canções. “É onde eu mais consigo ser mais sincero comigo”.

Em S.O.S., seu primeiro projeto solo, distribuído pela ONErpm, o artista deixa isso bem claro. Com 5 faixas, todas embriagadas pelo teor romântico do R&B, Torres vai a fundo para se libertar das amarras de um amor intenso e árduo que viveu. Ao lado dos produtores — e parceiros de vida —, André Miquelotti “Tresk” e Mind, que atende por Ort1, buscou batidas sonoras que envelopassem suas inquietações e o resultado foram faixas influenciadas por elementos do Chill Baile, Trap Pop, Lo-Fi e, claro, as baterias, sopros e vocais quentes do R&B, ritmo com o qual o artista se identifica. “Gosto muito e me considero um artista de R&B, tenho timbres e tons específicos. Por isso gosto de trabalhar com o André e o Mind, porque consigo criar basicamente qualquer coisa ao lado deles”.

Embora afirme não ter nenhum ídolo ou inspiração musical direta — exceto Michael Jackson, “Como ele, é humanamente impossível” —, Torres se apresenta com canções ritmicamente contemporâneas, leves e bem românticas. “Mesmo que algumas músicas tenham sido feitas há dois anos e meio atrás, elas são muito atuais”, pontua Tresk. O produtor firmou a parceria no projeto um tempo depois e foi responsável pelas faixas “Erros” e “Perfume”, parceria com Fleezus, uma das caras do Grime brasileiro.

A história do EP, que ainda nem tinha essa ambição como conjunto, se deu depois da saída do artista do CEIA Ent. Coincidentemente, Torres vivia a transição do fim do seu relacionamento — que lhe deu a energia e emoção do projeto. “Eu estava muito confuso, sem autoestima, sem entender para onde eu precisava ir”, relembra.

Até que uma viagem entre cinco amigos para o Espírito Santo se tornou o pontapé inicial para o projeto que chegou aos serviços de streaming nesta sexta, 8. “Fomos no intuito de gravar clipes para as faixas que eu já tinha [“S.O.S”, “Erros”, “Me Deixa”]. O Fleezus nem estava previsto. Mas aí ele chegou e a gente viveu uma loucura incansável”. O encontro entre os cantores, e amigos, se deu na única faixa do EP com batidas mais “dançantes”. “Fui em uma parada mais festa mesmo. O feat foi o certo. O Fleezus é um cara que tem uma visão mais malandra da coisa, ele é da rua. Vagabundo verdadeiro”, comenta Tresk sobre a escolha das batidas.

Torres e Tresk destrincham o processo de criação de S.O.S. com exclusividade para o Monkeybuzz:

 

Como você chegou à ideia do que você queria que o seu EP fosse? 

Desde que comecei a fazer música, tenho em mente que queria lançar um EP. Isso há oito anos. Mas sempre tive dificuldade de concretizar esse trabalho de uma forma que me agradasse plenamente. Só que isso também envolveu muito o fato de eu estar próximo de pessoas que não acreditavam tanto em mim quanto eu, e me fizeram ter muitas dúvidas. Esse EP, na verdade, foi uma transição, foi quando eu comecei a entrar em crise no meu relacionamento até o ponto que eu pensei que tivesse resolvido, entrado em crise de novo, e aí terminar o meu relacionamento de vez.

Esse EP tem um processo de dois anos, sendo exatamente o tempo que aconteceu tudo isso. Nessa altura eu me senti realmente preparado, porque essas cinco faixas representam o momento em que mais consegui ser sincero comigo mesmo e leal com o que eu estava sentindo nos últimos dois anos, e aí eu senti: ou eu soltava esse EP, ou ele não ia fazer mais sentido depois. Eu precisava lançar ele também para me livrar desse sentimento. Tipo: ‘fiz. Agora tá no mundo’. Acho que isso me ajuda a resolver a minha própria situação interna.

E em relação à sonoridade?

Eu gosto muito do R&B, me considero um artista de R&B, então tem timbres, tons específicos que eu gosto, e é por isso que eu gosto de trabalhar com o André e com o Mind, porque eu consigo criar basicamente qualquer estética sonora que eu quero ter. Mas não consigo te dizer nem como ou porque eu quero determinada estética, eu só sinto, e tento guiar isso para que nós cheguemos em uma forma que me agrade. Acho que o beat tem que ter um sentimento que vai me recordar algo que quero falar, e aí eu conseguir misturar esses dois sentimentos e a música de modo geral trazer essa sensação completa.

As canções têm um denominador comum, né, falam sobre o amor, término. O que isso representa para você?

Uma libertação muito grande, de grades, correntes que eu não sabia que tinha. Porque o lance do término, eu acreditava que tava tudo bem, que eu podia continuar fazendo as minhas coisas que não ia dar em nada. Mas era uma pessoa completamente diferente de mim, e, eu só consegui perceber isso depois. Depois que nós terminamos, quando eu precisei sofrer tudo o que eu sofri, depois que eu vi tudo o que não queria ver, e consegui chegar nesse ponto de chegar e falar: ‘Sou muito mais do que isso’.

Essa liberdade de conseguir me livrar de todos esses sentimentos que estavam me prendendo e me atrapalhando, porque o processo criativo dessas faixas foi feito diante dessa situação, de onde eu acreditava que tava tudo bem resolvido, mas não estava. E aí eu só fui conseguir me sentir livre de verdade, depois do término, de entender o que eu podia fazer. Então significa essa sensação de liberdade e uma cura de muitas coisas que eu sabia que eu tinha dentro de mim.

Rolaram muitas alterações?

A gente ficou batendo cabeça o tempo todo para decidir qual seria o nome do projeto. No final, não teve muitas alterações.

E por que S.O.S.?

S.O.S. é um pedido de socorro, literalmente, e eu tava pedindo socorro demais em todas as faixas, para mim mesmo, sem perceber que eu tava pedindo socorro. E o mais bizarro de tudo é que eu consegui entender sozinho que era um pedido de socorro muito grande, mas não esclarecido, não escancarado, não necessariamente dizendo “me ajuda”, mas um sentimento que me bagunçava e acabava distorcendo a minha visão da realidade, sabe? E aí precisei passar por todo esse processo de cura, e entender onde eu precisava ir, mas ficou S.O.S., porque eu precisava de um socorro muito grande internamente.

“Essas cinco faixas representam o momento em que mais consegui ser sincero comigo mesmo e leal com o que eu sentia nos últimos dois anos – ou eu soltava esse EP, ou ele não ia fazer mais sentido depois. Eu precisava lançar também para me livrar desse sentimento. Tipo: ‘fiz, agora tá no mundo’. Acho que isso me ajuda a resolver a minha própria situação interna” – Torres

Vocês se conhecem há bastante tempo e viajaram para o Espírito Santo para fazer o EP, né. Acreditam que o ambiente e a parceria tenham influenciado no resultado?

Tresk: Completamente.

Torres: Sim, completamente. E tudo partiu dessa viagem. A gente conseguiu se conectar ali completamente. Conheci o Gabriel naquela viagem. Bastou 15 minutos do lado do outro, percebemos que nos conhecíamos o suficiente para nos amarmos, tá ligado. E foi assim com todo mundo, o André eu conheço há bastante tempo e aí por meio disso, nos aproximamos muito mais e todo mundo que trabalha hoje comigo, é meu amigo. Nos falamos todos os dias, raramente sobre trabalho, marcamos reuniões pontuais para falar de trampo, porque é muito mais amizade do que trabalho.

Tresk: E isso ajuda demais.

Torres: Sim, foi a primeira vez na minha vida que eu me senti rodeado de pessoas que amam o que eu faço. As pessoas que estão comigo realmente amam o meu trabalho, se emocionam com as minhas músicas, me mandam mensagens falando sobre coisas que eu fiz por elas, sem eu saber que eu fiz. Essa conexão me ajudou muito e me fez ficar muito mais confiante, trazer minha autoestima de volta para conseguir lançar esse trabalho.

E como rolou essa dinâmica na viagem?

Tresk: [rindo]. Conta como que foi, conta.

Torres: Foi uma loucura do caramba. Ficamos 12 dias no Espírito Santo.

Tresk: Eu nunca tinha ido.

Torres: Eu também não! Mas tínhamos ido para gravar três clipes e na intenção de parar para produzir algumas músicas. Já tinha um tempão sem sair da rotina, quarentena e tal. Aí fomos na de um amigo, o João. Ele sempre apoiou a gente aqui e aí fomos para gravar os clipes. Eu ainda nesse lance do meu relacionamento e da minha autoestima profissional. E aí Junior falou para nós fazermos essa viagem, para voltar para o eixo, relaxar e pensar no trampo mais de boa.

Tresk: Isso que foi legal. A gente não trabalhou dentro do estúdio, trabalhamos olhando para o mar, pisando na areia, bebendo, dando risada. Foi tudo muito leve. Não teve aquela coisa de estúdio fechado. O Torres falava eu quero um beat assim, eu tava com o fone de ouvido olhando para o mar. A gente acordava, fazia um beat e o Torres gravava uma guia.

“Lembro que eu quis muito ir para uma linha de bateria do Afrobeat. Tudo o que eu tinha escutado do Torres era sempre nessa linha muito pessoal, essa vibe do EP, que a gente nem sabia que ia virar um EP, e aí lembro que quando o Fleezus chegou, a gente tava bebendo, curtindo, e eu pensei: ‘Tenho que fazer um bagulho mais para cima, talvez uma faixa que fuja do que o Torres está fazendo até aqui, até esse momento. E aí fui em uma parada mais festa mesmo, acho que foi o feat certo. o Fleezus ele é um cara que tem uma visão mais malandra da coisa, da rua, ele é vagabundo verdadeiro” – Tresk

E a participação do Fleezus? Como rolou?

Torres: Conheço o Fleezus há muito tempo também. Sempre falamos em fazer um som juntos, porque ele é um cara do Grime, mas ele tem uma amplitude musical muito grande, e ele mostra pouco. E eu sei disso, porque eu já ouvi diversas músicas dele. Ele também tem referências musicais muito parecidas com as minhas, e a gente sempre teve essa identificação de admirar um ao outro, de querer fazer algo junto, e ai essa viagem simplesmente aconteceu. Não tava nada previsto. Quando a gente concluiu, pensamos: ‘acho que temos um EP aqui’. Terminamos a faixa às 21h da noite, todo mundo morto, e gravamos clipe até às 2h.

Tresk: Foi sinistro [risos].

Torres, o que você acredita que os meninos acrescentaram no seu trampo e vice-versa? O que o Torres acrescentou no trampo de vocês?

Torres: Eu não conseguiria fazer sem produtores que me entendessem pra caramba, que conseguissem descrever o que eu tô sentido em forma de música. Os caras fecharam comigo real, eles têm talento e uma amplitude profissional e musical muito grande que me ajudaram muito a chegar numa estética que me agradasse.

Tresk: O mesmo que o Torres falou. Acho que a gente é muito musical, tanto torres, eu e o Mind, a gente se conecta muito bem no estúdio, tem refs muito parecidas. Tudo flui. É muito leve, dinâmico, a gente senta e dá duas horas estamos com a música pronta.

FAIXA A FAIXA

“Erros”

Torres: Foi a primeira faixa que nós fizemos. Nessa viagem do Espírito Santo, só saíram duas músicas. Essa eu escrevi no segundo dia que eu cheguei, e eu tava nessa crise do relacionamento. Acho que no meio da viagem eu acabei tendo uma discussão com ela e fiquei martelando na minha cabeça: ‘estou tentando demais conseguir ficar em paz, mas eu não estou entendendo onde eu estou errando’. E ‘por que a gente só consegue descobrir que erramos com alguém quando essa pessoa se machuca?’. A sensação de: ‘Por que a gente só consegue aprender errando? ‘Por quea gente está se magoando desse jeito tentando acertar?’. É que talvez tenha algo mais errado do que conseguimos enxergar.

Tresk: Lembro que a gente foi na praia e quando voltamos o Junho me mostrou o sample de Fabolous ft. Tamia ‎- So Into You. E aí quando eu escutei, pensei e falei para o Torres. E aí “chopei” o sample, desci uma oitava para ele ficar mais grave. Chega até lembrar umas produções que o Drake já fez. Fiquei com essa ideia, fiz a bateria, e decidi dar uma virada no som, na hora que ele cresce. O Torres gostou e gravou a guia rapidão.

“Me Deixa”

Torres: Essa faixa que é uma das mais antigas do projeto, junto com a “S.O.S.”. Mas é dentro dessa loucura do meu relacionamento, nós terminamos e voltamos diversas vezes, e eu acreditei que precisava estar sozinho, que precisava fechar esse ciclo na minha vida. Então a ‘Me Deixa’ é um desespero de querer ficar sozinho, de achar que eu preciso ficar sozinho para me resolver. Uma falsa sensação que eu queria ter naquele momento.

“Pensando bem, não me deixe”

Torres: E aí volta o cão arrependido, né, [risos]. Nessa, a maneira mais intensa de eu ser real comigo mesmo era não só demonstrar esse lado ‘do cara que quer ficar solteiro e acha que isso vai solucionar os seus problemas’, mas em retratar que eu nunca tive problema em voltar atrás. Então essa foi para ser sincero comigo. Talvez a ‘Me Deixa’ deixa faça muito mais sentido para as pessoas, como a “Pensando Bem”, não me deixe pode fazer para outras. Mas para mim, para ela fazer sentido, precisava dessa resposta. Essa música é um looping, a gente pode ficar indo e voltando nelas durante todo o meu relacionamento que vai explicar o que aconteceu.

“S.O.S”

Torres: Esse som chamava saudade. Essa faixa, talvez as pessoas nunca assimilassem o que ela significa, se eu não falasse sobre isso. Mas vamos lá, eu fiz ela quando a mãe do meu filho tinha acabado de ganhar ele, e a gente passou um tempão afastado. Ela teve várias questões de autoestima, e aí nessa faixa, eu meio que peço para ela confiar em mim, para ficar mais perto dela, conseguir entender melhor o que estava acontecendo com o coração dela. “S.O.S.” é basicamente um pedido de espaço, dentro de todas as frustrações que ela teve. Se você ouve, você não vai saber que foi isso. Mas foi por isso que ela foi feita.

“Perfume” feat. Fleezus

Torres: A gente queria fazer uma faixa juntos, e aí ficamos no meio do nada, longe de casa, numa energia muito daora, não tinha porque não fazer. É a única faixa do EP que foge um pouco dessa obrigatoriedade de passar algum sentimento ‘verdadeiro’, ela só é uma faixa de festa mesmo. É a única que não teve esse peso pessoal. Foi só uma descontração, estávamos numa energia boa, não tinha com o que se preocupar a não ser curtir e viver ali.

Tresk: Lembro que eu quis muito ir para uma linha de bateria do Afrobeat, porque eu tô escutando muito os bagulhos da África, e aí quis uma bateria dessa vibe.Tudo o que eu tinha escutado do Torres era sempre nessa linha muito pessoal, essa vibe do EP, que a gente nem sabia que ia virar um EP, e aí lembro que quando o Fleezus chegou, a gente tava bebendo, curtindo, e eu pensei: ‘Tenho que fazer um bagulho mais para cima, talvez uma faixa que fuja do que o Torres está fazendo até aqui, até esse momento. E aí fui em uma parada mais festa mesmo, acho que foi o feat certo, o Fleezus ele é um cara que tem uma visão mais malandra da coisa, da rua, ele é vagabundo verdadeiro.

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ARTISTA: TORRES, Tresk