Turma da Mônica & os anos 1980: cinco trilhas marcantes

As composições feitas para os longas durante a década de 1980 vão das orquestrações ao formato canção, com apuro melódico e toques de experimentação

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Fotos: Divulgação

A Turma da Mônica é um grande patrimônio da cultura brasileira. Os quadrinhos criados por Mauricio de Sousa estão no imaginário brasileiro, através de personagens tão divertidas e honestas. Vivemos diferentes momentos das nossas vidas lendo e relendo tirinhas histórias que têm papel fundamental no estímulo à leitura no Brasil. Mas a Turma da Mônica extrapola a literatura gráfica, acompanhando as mudanças tecnológicas e se adaptando a diferentes meios digitais. O vídeo, por exemplo, foi um dos terrenos mais criativamente férteis para que novas histórias fossem contadas. Dentre muitos filmes lançados em fita VHS, há uma particular seleção da década de 1980 que chama a atenção, não apenas por ser uma preciosidade da arte digital em termos de animação, mas também por uma preocupação extremamente cuidadosa com a trilha sonora.

Essas cinco trilhas de filmes dos anos 80 mostram como a Turma da Mônica soube reunir esforços criativos também no terreno da música, compondo discos com orquestras e artistas brasileiros que se reuniram para colorir o mundo de Mauricio de Sousa com outros tons e timbres. É curioso perceber como diferentes referências estéticas do cinema e da música se combinam a fim de criar um pano de fundo para a animação – mas que por si só também sobrevivem com excelentes canções. Cada trilha sonora desses filmes é, em si, um retrato de uma época, misturando jovialidade, sofisticação e uma experimentação sonora que revela o quanto a Turma da Mônica foi também um espaço de inventividade musical.

 

As Aventuras da Turma da Mônica (1982)

Primeiro longa-metragem de animação, As Aventuras da Turma da Mônica teve sua trilha sonora dirigida e arranjada por Remo Usai — entre os grandes nomes da música para o audiovisual no Brasil —, além de contar com a regência de 40 músicos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. As composições, assinadas por Mauricio de Sousa, Gaó Gurgel e Vilma Camargo, alternam temas orquestrais grandiosos e canções leves dedicadas aos personagens. O disco lançado em 1983 traz faixas que hoje soam como pequenas joias de trilha infantil brasileira, equilibrando inocência melódica e arranjos refinados, um diálogo com a música sinfônica popular do início dos anos 1980. Destaque para o tema da Rata Lee.

A Princesa e o Robô (1984)

Se o primeiro filme apostava na orquestra, A Princesa e o Robô abraça um espírito mais cinematográfico, no sentido épico e espacial do termo. A trilha, assinada por Mauricio de Sousa, Lino Simão, Eduardo Leão e outros colaboradores, traz 7 músicas originais que exploram desde baladas românticas até temas instrumentais heroicos. O resultado é uma trilha que ecoa referências de Star Wars e das space operas clássicas, mas também conserva o romantismo melódico das animações dos anos 1950/60. “Pulsar”, “A Princesa Mimi” e “O Robozinho Sem Coração” são exemplos de como a música consegue dar humanidade até mesmo aos personagens metálicos e distantes do enredo.

As Novas Aventuras da Turma da Mônica (1986)

Aqui, a trilha sonora dá um passo em direção à canção popular brasileira oitentista. Assinada por Silvia Goés, Eduardo Leão Waismann e Vinicius Pastana, a música de As Novas Aventuras da Turma da Mônica é menos orquestral e mais voltada à canção, com arranjos que harmonizam elementos eletrônicos e acústicos. As melodias são diretas e afetivas, com ganchos que lembram jingles e trilhas televisivas da época. O tema dos créditos, em especial, carrega forte estética dos temas de big bands de jazz, sem perder a leveza.

Mônica e a Sereia do Rio (1987)

Em Mônica e a Sereia do Rio, a trilha sonora ganha contornos experimentais e poéticos. Gravada em parceria com Tetê Espíndola, que também aparece no filme como uma fada, a música tem o papel de encantar, misturando elementos da natureza com harmonias complexas e arranjos que beiram o avant-garde. As canções “Coração Doidinho” e “Curupaco” exploram texturas vocais e sonoridades que remetem à mata, à água. É talvez a trilha mais ousada e inventiva do conjunto, e mostra como Mauricio de Sousa e seus colaboradores estavam abertos à experimentação sonora em um produto voltado ao público infantil.

Turma da Mônica em: O Bicho-Papão (1987)

Encerrando o ciclo dos anos 1980, Turma da Mônica em: O Bicho-Papão é moderna e introspectiva. O curta Quero Entrar, parte do mesmo VHS, traz sintetizadores analógicos de forma quase sinfônica, criando uma ambiência que se aproxima da música clássica eletrônica. Dentro desse universo, “O Sonho”, composta por Márcio de Souza e Paulo Tarso e interpretada por Sandra Espires com o Coral da USP, surge como um momento de pura emoção. Os arranjos são delicados e cheios de ternura, revelando um senso de melancolia e beleza rara em obras infantis. É uma trilha que sintetiza a maturidade musical do projeto, encerrando a década com um tom sonhador e contemplativo.

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MARCADORES: Turma da Mônica

Autor:

Produtor, pesquisador musical e entusiasta de um bom lounge chique