Um Gênio Chamado Chilly Gonzales

Nome por trás de produções de Daft Punk, Peaches e Drake come música Clássica para digerir o Pop

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“Prazer, meu nome é Chilly Gonzales. Eu sou um gênio da música”. Li isso em uma entrevista há alguns anos e esse nome me chamou atenção. Já ouvia falar desse produtor tão respeitado, mas nunca tinha tido disciplina pra ir atrás do que esse respeito implica. Mas, praqueles que estiveram presentes no festival Coachella em 2013, um vídeo foi publicado de um dos álbuns mais esperados daquele ano: Random Access Memories, dos franceses Daft Punk, e, junto de vários outros talentosíssimos colaboradores, estava Gonzales. O canadense, além de responsável por Within e Give Life Back To Music, é o nome por trás do novo LP de Drake e de trabalhos que permeiam o Pop com Feist.

Essa é a essência do canadense. Primeira vez que pegou num piano foi aos três anos e, desde então, com a ajuda do avô e do irmão, foi se aperfeiçoando no instrumento. Aprofundou na técnica e harmonia na Universidade e foi se formando em música Clássica, da qual quis trazer todos seus conhecimentos em prol da época que vive. Foi então que Chilly se voltou para o Rap e se aventurou em sintetizadoras e samples, conseguindo transferir toda sua energia extremista em um gênero que se desafia a toda hora. Cabe ao produtor dizer que é um pianista privilegiado, já que nenhum outro consegue ter uma plateia feminina tão jovem e bonita quanto a dele. Humildade, a essa altura do campeonato, já é questionável.

Mas pra quem teve uma história tão complicada, um pouco de glória soa como mérito. Chilly teve uma banda nos anos 90 assinada pela Warner. O contrato de três álbuns levou Son ao mundo, mas de uma forma negativa. Em uma popularidade decrescente, a banda foi fadada ao fracasso. Após isso, usou sua ferida como medalha e recomeçou sua carreira na Europa a fim de poder exportar sua música de uma forma mais agressiva que a América. A Alemanha acolheu o compositor e foi ali que uma nova narrativa foi pensada, um momento que Gonzales teve para focar em sua individualidade enquanto artista e entender sua estratégia musical. Em pouco tempo, já soltou seu álbum de Rap Instrumental Solo Piano e, em seguida, iniciou as colaborações, começando com Feist e Peaches. Ambas artistas entenderam que se tratava de um artista que, ao ser empurrado do penhasco, conseguia facilmente ir adiante, impressionar, inovar.

Chilly Gonzales tem uma visão que pouquíssimos artistas em seu meio tem. É uma visão completa de música – acordes, notas, composição e harmonia. Consegue entender sobre ritmo e melodia, o que acrescentar, retirar, quais referências trazer para que uma canção fique mais agressiva, mais melódica ou mais comercial. Isso que moldou sua personalidade multifacetada. O tal “compositor” de hobby, que faz performances loucas, batidas de Hip Hop com orquestra, improvisações à la Kanye West, tudo muito casual, surreal, real e atual. E essa última palavra pega muito pra Gonzales. Apesar de ter um público fiel e que o reconhece por suas peças melódicas magníficas no piano, ele quer ser um homem do tempo de hoje, quer trazer o não-palpável para a audiência, quer mostrar para todo mundo que o que muitos pensam que é sofisticado, na verdade, pode ser bem divertido.

E, nessa necessidade, Chilly teve uma ideia genial: Resolveu mostrar pra todo mundo que muito do que traz muito dinheiro e muda da água pro vinho a vida de alguns artistas, na verdade, é uma sequência muito simples de notas de piano. E, pra provar isso, resolveu dar algumas aulas pra discutir esses assuntos resgatando algumas peças importantes lá de trás, sempre tendo como tema singles de Pop:

Estamos falando de um inquieto, um inquieto que deu certo. Foram doze trabalhos, um filme estrelando Peaches, Feist e Tiga, mais de 100 mil cópias vendidas no mundo inteiro, lançamentos solo, perfomances de 27 horas ininterruptas. Chilly Gonzales ama o mainstream e quer fazer parte dele. Entende que os maiores gênios da música só chegaram ao ápice por trabalhar tão bem – entender todos os processos que envolvem a criação de uma música – que ficaram mundialmente reconhecidos. Aqui, o “POPular” não é sinônimo de “mal feito, repetitivo, pobre”, significa “estratégico, perfeito, bem articulado”. E como um artista perfeccionista, Gonzales mistura o clássico com Disco, com Pop, com audiovisual, com humor, com apelo e perfomance, arte. Incita que os artistas que não se empenham como deveriam, não são tão talentosos quanto deveriam. Os gênios são realmente incompreendidos.

Hoje, o produtor trabalha firmemente com um dos nomes mais fortes da Alemanha na cena eletrônica, Ridha, mais conhecido como Boys Noize, e o rapper Domo Genesis. Teve a companhia do produtor alemão em seu filme Ivory Tower e, desde então, resolveram ir adiante na parceria com Octave Minds. O duo segue com uma proposta doce, bem diferente do que o DJ de Electro é acostumado. Aqui a atmosfera é leve e a influência de Chilly Gonzales é mais forte que nunca. Que continuem sempre trazendo grande gênios para mais projetos incompreendíveis, então.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King