Há algo de passado e de futuro no som do pífano de Alexandre Rodrigues. Em Kaeté, seu novo álbum, o instrumento que um dia ecoou em procissões, feiras e festas do interior nordestino se torna bússola de uma travessia musical que cruza a floresta, o terreiro e o improviso. O músico pernambucano chama esse caminho de jazz afro-indígena – mas talvez o que ele proponha vá além de qualquer rótulo: é uma ideia de Brasil que respira pela música. “Kaeté significa ‘mata verdadeira’”, diz Alexandre. “É esse o caminho que eu venho buscando com o pífano”.
O disco nasce de uma vontade de reencontro – com a terra, a infância, os povos Caeté, com quem o artista tem ligação ancestral. A abertura, uma parceria com o grupo Sabuká Kariri-Xocó, traduz isso em som: um toré gravado “em um take só, sem ensaio”, que, segundo o músico, representa “o encontro das etnias na floresta, em volta da fogueira, celebrando a água, o fogo, o vento e a terra”.
Essa primeira faixa funciona como eixo espiritual do álbum, em que o sopro é reza e o improviso, oferenda. A partir dela, o trio formado por Alexandre (pífano), Tom Cykman (guitarra) e Felipe Gianei (baixo acústico) percorre frevos, caboclinhos, forrós e maracatus – mas sempre com o espírito livre do jazz entendido, nas palavras do artista, como “liberdade de expressão, não o ritmo americano, mas a improvisação com a nossa linguagem, sotaque e terreiro”.
Kaeté propõe uma ideia política e afetiva de liberdade: a de reconhecer a sabedoria dos instrumentos populares como espaço de invenção. “Algumas pessoas acham que o pífano, por ser rústico, não tem lugar em certos espaços. Mas eu penso o contrário: ele tem que estar lá também”.
Essa inversão de perspectiva é uma das contribuições mais potentes do disco. Quando o pífano assume o centro da cena, ele também reposiciona o Brasil dentro da música instrumental contemporânea. Ao lado de nomes como Amaro Freitas e Zé Manuel – com quem Alexandre mantém uma rede de troca –, o músico faz parte de uma geração que reencanta o som brasileiro, devolvendo-lhe o sentido de pertencimento. “A gente tem que sair do Brasil para o mundo – não o contrário”, resume.
O encontro com o multi-instrumentista britânico Shabaka Hutchings, em “Forró pro Shabaka”, amplia ainda mais essa ponte. Shabaka passou uma semana na casa de Alexandre, aprendendo sobre o pífano e confeccionando flautas. A faixa nasceu desse convívio, gravada ao vivo “em dois takes”. É o tipo de colaboração que explicita a força simbólica do trabalho: um músico londrino reconhecido internacionalmente vindo aprender com um luthier de Itapissuma, cidade de 30 mil habitantes no litoral de Pernambuco.
Mas, se o disco percorre o mundo, suas raízes continuam fincadas na terra. Alexandre cresceu entre o mar e o mangue, filho de pescadores. Voltou à sua cidade para dar aulas e criar pífanos com materiais recicláveis, ensinando música a mais de quinhentas crianças. Essa construção atravessa cada sopro de Kaeté. O som que ele extrai é também um gesto de resistência: preservar o tradicional para criar o novo. No Brasil, onde o mercado da música instrumental ainda enfrenta invisibilidade e precariedade, Kaeté surge como afirmação estética e espiritual. Um disco que devolve à floresta seu papel de origem e metáfora: um lugar onde tudo renasce e respira junto.
“Se Kaeté falasse, ele diria amor”, conclui Alexandre Rodrigues. “Amor, celebração e cuidado – cuidar do nosso bem maior, que é a natureza”.
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Você faz parte de uma geração de músicos muito virtuosos. Logo de cara, quando conhecemos Kaeté – e toda a desenvoltura que você colocou nele –, pensei em Amaro Freitas. Você divide um foco de composição com ele, que é a ancestralidade dentro da materialização da música instrumental. Eu até anotei aqui: se por um lado o Amaro mergulha na espiritualidade e na ancestralidade amazônica, no álbum YY’, em Kaeté você se concentra na ancestralidade indígena dos Caeté – um povo com o qual você também tem ligação ancestral. Como desenvolver uma leitura, uma homenagem a um povo ancestral?
Ah, é muito forte trazer, resgatar toda essa ancestralidade. Eu fiquei ciente das coisas que aconteciam na minha família por conta dos meus pais – eu venho de uma família de pescadores. E os povos Caeté, que habitaram aquela região, ainda mantêm a tradição da pescaria, da agricultura familiar. Quis resgatar isso, trazer essa memória da minha ancestralidade, da minha família, dos meus bisavós. E toda essa história do Brasil que a gente já conhece, né? Uma história muito triste às vezes, e escondida. A gente não conhece de verdade a história dos povos indígenas, do povo preto… Como você citou, o Amaro – que é um querido amigo, tenho o privilégio de estar tocando no trabalho novo dele, o Amaro Septeto – é uma pessoa que eu admiro muito.
Então quis resgatar essa ancestralidade nesse disco, trazendo esse instrumento aqui – o pífano, que é um instrumento muito simples, mas muito ligado à cultura popular. É um instrumento que passou por todos os momentos do desenvolvimento da música brasileira. Se você falar de forró, o pife tá presente. Se falar do caboclinho, dos indígenas, do surgimento do frevo – o pife tá lá. E “Caeté” significa “mata verdadeira”. É esse o caminho que eu venho buscando com o pífano.
É um instrumento que ainda sofre muito preconceito. Algumas pessoas olham para ele, para a rabeca, e acham que por serem instrumentos rústicos, da cultura popular, não têm lugar em certos espaços. Mas eu penso o contrário: o pife tem que estar lá também. Tem esse olhar elitista, tipo: “pessoa branca toca piano; pessoa preta toca percussão”. Nada contra a percussão – a percussão é o coração –, mas o pife também tem seu lugar. E esse nome Kaeté traz essa ideia: “mata virgem, mata verdadeira”, esse espaço que eu venho buscando com o instrumento, que carrega muita ancestralidade.
A primeira música do disco é “Kaeté”, um toré que eu compus em homenagem aos povos originários, com a participação do Grupo Sabuká, da etnia Kariri-Xocó, lá de Alagoas. Quando a gente se encontrou no estúdio foi muito bom – eles falaram: “Alexandre, você é nosso irmão.” Foi uma conexão muito forte, a gente gravou num take só, sem ensaio. Minha relação com a mata, com a floresta, com a natureza é muito forte. E quando fui criando o arranjo dessa música e o contexto geral do disco, tudo era ligado à natureza, à minha infância com o mar e o rio. Eu trago isso na minha música: essa coisa ancestral, fugindo do clichê. Tento imitar pássaros, sons da natureza com o meu instrumento.
“É importante ter um olhar universal, mas sem copiar. A gente tem que sair do Brasil para o mundo – não o contrário. A música brasileira é genuína, indígena, africana. É isso que a gente tem que mostrar: nossa identidade, nosso quadro, nosso retrato”
Eu achei muito interessante essa participação, porque dá a sensação de que você tá realmente situado na cultura Caeté, na cultura indígena da sua região. Como foi essa troca com o grupo? Você os convidou? Já conhecia ou pesquisou a partir da imersão pro disco?
Eu conheci o grupo através de Felipe, o baixista da banda. A história dessa música é engraçada. Eu mesmo faço meus instrumentos – vou na mata colher as taquaras. Um dia colhi uma taquara nativa, de rama (não de touceira, como as que vêm de fora). É uma taquara que também tem muito no Acre, em regiões de floresta entre São Paulo e Curitiba. Quando colhi essa taquara, foi impressionante. Fiz o bocal e ela já soou uma nota afinada. Pensei: “Caramba, que louco isso!”. Comecei a furar, e quando toquei, saiu uma melodia – esse toré – meio que de primeira. Mostrei pros meus amigos Tom e Felipe. A gente ia tocar no Sesc naquele sábado e eu disse: “Vou levar essa música pra passagem de som.” Levei, peguei umas maracas e ensinei o ritmo.
Aí o Felipe contou: “Alexandre, minha mãe é pesquisadora, doutora em etnias indígenas no Brasil, principalmente no Kariri-Xocó. Eles estão aqui em São Paulo.” Aí pensei: “Que legal, me passa o contato”. Entrei em contato com Caíra, o cacique. Cara super gente boa, admirável. Contei para ele a história, e ele se empolgou.
Quando a gente entrou no estúdio, o arranjo foi feito como se as etnias estivessem se encontrando na floresta – com sons de pássaros, de natureza. O começo da música traz esse canto distante, o momento do encontro. E quando a gente se encontra, a gente celebra em volta da fogueira, em círculo, fazendo o toré. Depois vem o improviso, totalmente natural, do coração. No final, eu faço o canto de um pássaro ferreiro – ele canta e sai com aquele som distante, que simboliza nossa despedida. Foi lindo esse encontro. E a gente vai se encontrar mais vezes ainda com o grupo Sabuká. Cada vez é uma energia muito forte.
Acredito que isso tenha sido um definidor muito forte do caminho que você tava seguindo com o álbum. Ter a participação de um grupo etnicamente ligado às questões indígenas, vivendo aquilo no dia a dia, deve ter sido muito especial. O que essa faixa de abertura significa pro trabalho como um todo?

Ela significa começo, meio e fim. Ela abraça o disco e as outras canções. É a sonoridade da espiritualidade – de celebrar a água, o fogo, o vento, a terra. A gente vive um momento difícil com a natureza. Todo mundo corre e esquece de observar um pássaro, um animal. Essa música tenta lembrar disso, trazer o ouvinte para esse lugar de atenção e calmaria. Depois vem “Cabocla Moderna”, um caboclinho – ritmo muito ligado às tribos, às tradições indígenas, mas também ao ciclo carnavalesco. Tem as maracas, as gaitas, as flautas. Gravei o subgênero “guerra”, que representa a caça, a busca pelo alimento, a sobrevivência. A terceira música é um frevo – resgata minha infância. Comecei a tocar com 12 anos nas ladeiras de Olinda, tocando frevo. É uma música que amo muito.
“Algumas pessoas acham que o pífano, por ser rústico, não tem lugar em certos espaços. Mas eu penso o contrário: ele tem que estar lá também”
É muito interessante ver você falando de tantos gêneros populares estando num lugar que também exalta o jazz – ou, como você mesmo vem colocando, o “jazz afro-indígena”. Você reafirma essa dificuldade de entrar em certos espaços com o pífano. Qual a importância de se colocar dentro do jazz com gêneros populares e um instrumento essencialmente popular?
Primeiro, é valorizar o instrumento. A história do Brasil passa por ele. A flauta moderna vem depois do barroco; o pífano é mais antigo e carrega ancestralidades indígena, afro e europeia. Meu objetivo é mostrar que dá para tocar tudo com o pífano: jazz, música tradicional, moderna, contemporânea. Misturar tudo isso com a minha raiz, minha vivência. Jazz, para mim, é liberdade de expressão – não o ritmo americano, mas a improvisação com a nossa linguagem, sotaque e terreiro. Fugindo da teoria engessada, seguindo o coração e a natureza. Já consegui entrar em muitos espaços com o pife. Dei oficinas em Curitiba, no Fimuca, em universidades. Lancei um livro – Método do Pífano Brasileiro – para registrar essa tradição oral, para qualquer pessoa do mundo conhecer nossa cultura e nossos mestres.
E você já esteve ao lado de grandes nomes da nossa música, como Geraldo Azevedo. Agora você sai de um lugar de sideman, de cara de banda, para estar à frente de um trio. Qual a responsabilidade de se colocar no centro disso tudo?
Aprendi muito acompanhando artistas. Toquei com Geraldo, Dominguinhos, Dori Caymmi, Alaíde Costa, Áurea Martins… E toquei quase 10 anos na Orquestra Popular do Recife, fundada por Ariano Suassuna em 1975. O maestro sempre me dizia: “Alexandre, você tem que contar sua história.” E é isso. No Brasil é difícil viver de música instrumental – imagine com um pífano. Mas eu decidi não desistir. Fazer minhas músicas, compor, abrir caminhos para outras gerações. Penso sempre lá na frente, para a criançada ter um espaço mais aberto. Minha função agora é fortalecer o pife, a rabeca, as tradições, e também olhar pro mundo. Expandir o ritmo, abrir espaço pra improvisação e atrair públicos novos.
Hoje, 80% da minha energia é pro meu trabalho. Também dou aulas de pífano, vendo meus instrumentos – no Brasil e fora. Acompanho alguns artistas que admiro, como Renato Braz, que participa do disco, Amaro Freitas e Zé Manuel. A gente cria uma corrente – artistas que se fortalecem, que ajudam a expandir as manifestações tradicionais e os movimentos da periferia.
“Forró pro Shabaka” é referência a um dos atuais músicos mais virtuosos do Reino Unido. O que significa tê-lo no disco, tocando com você?
Shabaka é um grande amigo. Um músico incrível, muito ligado às tradições africanas. Ele é de Londres, super reconhecido. Nos conhecemos por meio do Amaro. Shabaka tava pesquisando flautas tradicionais do mundo e quis conhecer o pífano brasileiro. Passou uma semana na minha casa – confeccionamos instrumentos juntos. Quando fui encontrá-lo no hotel, compus o tema “Forró pro Shabaka”. Mostrei para ele, ele adorou e topou gravar. Gravamos ao vivo, em dois takes, e escolhemos um. Ele trouxe as flautas dele, a ancestralidade dele. A música teve um resultado muito bonito. E a amizade continua: quando ele vem ao Brasil, a gente se encontra. Mostrei o Carnaval do Recife pra ele – ficou encantado.
Essa faixa trouxe repercussão internacional pro disco?
Trouxe! Rapidinho chegou a 10 mil plays. Muita gente começou a me seguir, mandar mensagem, inclusive imprensa de Londres pedindo entrevista. Foi muito legal ver as pessoas se interessando, comentando, conhecendo o pífano, as tradições. E tudo isso com muito respeito e seriedade.
Kaeté levou três anos para ser feito. Foram anos de composição, experimentação, instrumentação, convidados… Tudo independente, sem apoio do governo. E é isso – na raça, com os amigos, com verdade. Eu não vou desistir nunca. Eu vou morrer tocando pife.
Venho de uma cidade pequena, 30 mil habitantes, muito pobre. Estudei numa escola ao lado do mangue, trabalhando com meus pais na pesca e agricultura. Quando me formei, voltei pra dar aula na mesma escola, confeccionando pífanos com material reciclável. Chegamos a ter mais de 500 crianças estudando música. Foi muito bonito.
Você sente que essa nova geração da música instrumental brasileira ainda tem muito a entregar culturalmente, tanto aqui quanto fora do país?
Com certeza. Tem um potencial enorme, principalmente quando traz a própria raiz, o sotaque, a ancestralidade. É importante ter um olhar universal, mas sem copiar. A gente tem que sair do Brasil para o mundo – não o contrário. A música brasileira é genuína, indígena, africana. É isso que a gente tem que mostrar: nossa identidade, nosso quadro, nosso retrato.
Para finalizar: se Kaeté falasse, qual seria a mensagem que ele deixaria pra música brasileira?
Amor. Amor, celebração e cuidado – cuidar do nosso bem maior, que é a natureza.
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