Uma análise sobre o afrofunk

A partir de fusões com afrohouse e afrobeats, DJs como Rennan da Penha e Renan Valle vêm promovendo novas transformações no batidão do Rio de Janeiro

Loading

Fotos: @filipecordon

“Agora o bagulho mudou de verdade”, anuncia triunfante a voz robótica do Google Tradutor logo na introdução do set mixado de DJ Rennan da Penha. “E para começar esse set debochando da cara dos modinhas, já está o aviso: eu só trabalho com afrohouse e guaracha colombiana”, ela completa, antes de descarregar uma sequência de “putaria com requintes de crueldade” com uma combinação sedutora do swing dos atabaques do funk carioca com o ritmo quente e eletrônico do afrohouse.

Conhecido como um dos principais articuladores do movimento 150 BPM, que explodiu no Brasil ao acelerar as batidas do funk carioca por volta de 2017 e 2020, Rennan da Penha está na linha de frente de uma nova transformação do batidão do Rio. Esse movimento está incorporando elementos do afrohouse e do afrobeats da Nigéria e África do Sul, trazendo uma nova sonoridade e novos passos de dança aos bailes de favela do Rio de Janeiro.

O afrohouse é um gênero musical com origens na África do Sul que no início dos anos 2000 foi se espalhando pelo continente africano por meio de sua mistura de house music com sons percussivos e elementos da música Kwaito — o trabalho do DJ Tira é bem representativo dessa fase inicial. Atualmente, o termo é usado de forma mais ampla para categorizar movimentos atuais de música eletrônica da África e descrever o trabalho de artistas como o DJ sul-africano Black Coffee, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Dance Music em 2022.

Rennan é o ponta de lança do lugar que virou o point da mistura desses mundos musicais: o Baile da Selva — o novo nome do lendário Baile da Gaiola, rebatizado para evitar a repressão policial. A Selva foi o primeiro baile de favela carioca a ter um momento especialmente dedicado ao afrohouse, desafiando o público e os DJs a buscar inovar e desenvolver novas pesquisas.

Apesar de Rennan ter sido possivelmente o primeiro a tocar esse som nos bailes, outros DJs também vinham fazendo experimentações com gêneros musicais africanos. Ainda em 2019, DJ Mumu do Tuiuti soltou “Kuduro do Tuiuti”, uma música com vocais do MC GW que se inspirava na rítmica do som dos guetos angolanos para fazer uma mistura rara com a batida do funk. Mistura rara, sim. Mas não inédita. Isso porque DJs de países africanos (em especial de países lusófonos) ou vindos de famílias de imigrantes africanos na Europa há tempos levavam o funk como uma referência. Expoente da cena musical eletrônica dos guetos africanos de Lisboa, DJ Marfox, por exemplo, mirava essa mistura já no início dos anos 2000 em faixas como “Funk em Kuduro”. Na década seguinte, o produtor angolano Deejay Telio chegou a gravar um feat com o MC Bin Laden em “Tá Louca”, uma união do som minimalista do funk paulista da época com o afrohouse.

Mas agora essa mistura e o interesse pela música eletrônica africana contemporânea vem atraindo outros DJs de funk do Rio. Produtor de hits como o viral “Sarra nos Menor Que Tá de Glock na Cintura”, DJ Renan Valle foi outro a embarcar na viagem do afrohouse, que conheceu através do amigo Rennan da Penha. “Ele me mostrou umas músicas, dizendo que queria mudar o funk do Rio. A gente sempre tá querendo dar continuidade, transformar. Aí pulei nesse miolo com ele e falei: ‘Pode ter certeza que vai ter mais um braço produzindo contigo esse gênero”, conta Valle.

“No começo a galera deu uma chiada porque era uma coisa nova. Não era igual o funk macumbinha, que tem aquela marcação que o pessoal já tá acostumado. Mas a longo prazo a gente conseguiu introduzir esse som nos bailes também” – DJ Renan Valle

O DJ do Complexo da Maré abriu o ano de 2025 com um álbum inteiramente dedicado a essa nova vertente, o Set Afrofunk: Nossa Arma Agora é Outra. Feito inteiramente em apenas três dias, o álbum foi uma forma de difundir a novidade entre o público. “No começo a galera deu uma chiada porque era uma coisa nova. Não era igual o funk macumbinha, que tem aquela marcação que o pessoal já tá acostumado. Mas a longo prazo a gente conseguiu introduzir esse som nos bailes também”, conta.

Proibido Tiktok

O Baile da Selva tem uma particularidade que parece ter sido um catalisador para esse novo estilo afrofunk ganhar fôlego por lá. Desde 2023, Rennan da Penha vive uma cruzada contra o “funk de TikTok”. Seus sets no YouTube são acompanhados da legenda “Proibido TikTok”, e o telão do baile exibe a logo da rede social com o símbolo de proibido. Para ele, a lógica de viralização enfraquece a cultura do funk, empurrando artistas para fórmulas fáceis. “Muitos artistas e produtores fazem músicas pensando só no aplicativo, em como viralizar. Na minha ideia, isso faz mal para cultura do funk. Foi por isso que decidi não tocar músicas que tenham esse foco, que sejam feitas apenas para viralizar”, afirmou o DJ à Billboard Brasil.

Embora criticada por outros DJs do funk carioca, a decisão de Rennan parece ter fomentado um espírito mais curioso em seu público, abrindo espaço para mais experimentações musicais. Por trás da bandeira anti-TikTok, existe um ímpeto de inventividade artística que busca sempre a transformação e a liberdade na contramão de um set engessado pelo ciclo algorítmico das trends.

Ironicamente, um dos desdobramentos do afrofunk virou tendência e tornou-se base de vários hits do TikTok. É a batida chamada de afrolatão, criada por DJ Denilson o Clínico, do Complexo do Chapadão. O som combina uma textura metálica com levada afro e estava presente em montagens produzidas pelo DJ no ano passado, como “Joga na Frequência do Rádio”. Em dezembro, o mesmo estilo de beat estava no topo do Spotify, na música “Oh Garota”, de Oruam com Zé Felipe, Mc Tuto e Rodrigo do CN.

“Quando eu tô ouvindo um atabaque, me sinto conectado mesmo. Estou ali criando, picotando os samples e começo a dançar. E se eu dançar, acho que outros corpos também vão se mover. Essa é minha senha para quando eu tô fazendo uma batida” – DJ Renan Valle

Conexão ancestral

Além dos DJs, os dançarinos de passinho são agentes importantes na absorção e difusão de referências das culturas musicais africanas contemporâneas. Co-curadora da exposição FUNK: Um grito de ousadia e liberdade, no Museu de Arte do Rio, a atriz e pesquisadora de dança e sexualidade Taísa Machado aponta que a internacionalização da carreira de dançarinos de passinho foda como VN Rodrigues e André Oliveira DB teve um papel importante nesse processo. “Eles estão rodando o mundo e trazendo muita informação pra cá”, destaca ela.

Taísa também aponta para  TikTok como um elemento fundamental para a circulação dessas referências. “A galera do funk sempre foi muito conectada às tendências da rede, muito ativa. Acho que o TiktTok fez uma grande diferença na vida dos dançarinos. Não estou falando dos passinhos de TikTok, mas da possibilidade de ver o que tá rolando no mundo com uma velocidade muito grande, podendo furar mais as bolhas”, analisa. Ela conta que os dançarinos do baile já estão misturando os passos clássicos do passinho funk com movimentos de pernas e ombros do afrohouse e afrobeats em bailes como o Santo Amaro, na Glória, Zona Sul da cidade. “O passinho sempre foi uma dança de conexão com outras danças e se expandiu muito mais no TikTok, não só com afrobeat, mas com vogue e outros. A dança nunca para de se expandir, se misturar”.

“É uma viagem pela ancestralidade que não necessariamente a pessoa precisa entender o que é, mas a presença fica ali. A coisa já se resolve na música e como ela bate no corpo” – Taísa Machado

Aparentemente a recepção positiva do afrofunk não vem acompanhada de um conhecimento profundo sobre as origens e a história das musicalidades africanas. Mas existe uma ideia de ancestralidade negra do agora que está presente no corpo e no som. “Quando eu tô ouvindo um atabaque, me sinto conectado mesmo. Estou ali criando, picotando os samples e começo a dançar. E se eu dançar, acho que outros corpos também vão se mover. Essa é minha senha para quando eu tô fazendo uma batida”, diz DJ Renan Valle.

“É uma viagem pela ancestralidade que não necessariamente a pessoa precisa entender o que é, mas a presença fica ali. A coisa já se resolve na música e como ela bate no corpo”, diz Taísa. “Essa mistura com afrobeat, afrohouse, guaracha da Colômbia continua com a linha de conexão ancestral entre favelas e juventudes afrodiaspóricas no mundo, mas pega tão profundamente no seu corpo e de alguma maneira vai acrescentando mais poder à sua identidade que não necessariamente você precisa saber de onde está vindo. Não sei se a galera pensa nesse som como algo da Nigéria e África do Sul, mas sabe que é som de preto”, completa.

No fundo, o afrofunk talvez não seja uma nova vertente do funk, mas sim um canal de conexão e expressão de sua ancestralidade contemporânea, sem precisar nomear cada elemento — basta sentir o grave.

Loading