Uma Celebração do Folk no Cenário Urbano

As mudanças culturais no mundo trouxeram o gênero do campo para a cidade grande – lugar onde ele parece sobreviver naturalmente

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O calendário indica que 22 de agosto é o Dia do Folclore, uma data que talvez só seja levada em consideração por professoras do ensino fundamental e um ou outro purista ávido por celebrar algum nacionalismo. O mais provável é que ambas as situações sejam vistas com certa ingenuidade por grande parte da população, ainda que seja indelicado e, convenhamos, socialmente inaceitável fazer alguma crítica ao comportamento deles. É provável que essa pouca simpatia aconteça tanto por uma falta de identificação com o que eles comemoram. Em São Paulo, um dos centros mais internacionalizadados do Brasil, nem sempre as pessoas vão se identificar com o que é tido (e visto com louvor) como integralmente nacional. Ao mesmo tempo, isso pode acontecer pela falta de contextualização do que o termo pode nos significar.

Quando algum fã de música lembra que essa palavra vem do inglês folklore, logo deve fazer sua correlação com o Folk – o que está certo, já que o gênero é chamado assim em referência ao conceito de uma cultura popular, compartilhada por um grupo que tem os mesmos costumes. No caso, a música Folk ficou conhecida como aquele som que os imigrantes europeus difundiram no interior da América do Norte e virou característico dos Estados Unidos. Ou seja, os elementos que faziam parte do folclore dos caipiras europeus acabaram definindo a maneira de compor, tocar e cantar no Novo Mundo.

Com o sucesso de nomes como Bob Dylan, o gênero pegou carona com o Rock e foi difundido internacionalmente no pacote “cultura estadunidense” que a tal da globalização carrega, sempre de alguma forma remetendo ao caráter contemplativo e, de certa forma, simples da música feita no campo. Diversos pólos, ou “cenas”, do estilo começaram a surgir em diversos pontos do mundo bem diferentes do cenário campestre em que o Folk surgiu, inclusive a já citada São Paulo. Por que será que esse som foi criar suas raízes justamente nas metrópoles?

Não é difícil imaginar que justamente a fuga desse ambiente urbano seja um argumento para se ouvir e fazer música assim, que permite que músico e ouvinte sejam transportados para as paisagens do interior. Mas, talvez, a relação do Folk com a cidade grande seja outra bem diferente. Talvez ele tenha encontrado na metrópole o ambiente certo para duas de suas principais características.

A primeira é o caráter harmonioso que o gênero tem. Às vezes feito com voz e violão, em outros momentos com mais dois ou três instrumentos, ou mesmo com uma dezena deles, esse estilo sempre consegue encontrar a beleza na junção de diversos elementos sonoros que dialogam muito bem. Em um primeiro momento, o Folk fez isso também no ambiente em que nasceu – e quem conhece o “interiorzão” sabe que são muitos os sons simultâneos durante o tempo todo, ainda que em decibéis muito amigáveis ao ouvido humano. Na cidade grande, esse estilo musical adentra o plano sonoro e ajusta seus elementos para que, em toda a desordem, seja encontrada a beleza dessa música que vira parte integrante do cenário.

Mas existe ainda a questão da reinvenção que o gênero consegue passar, justamente por ter já nascido tão integrado à cultura popular. Os interessados por estudos culturais sabem que toda cultura é dinâmica e não permanece a mesma por muito tempo. Um estilo musical enraizado em folclore torna-se, por excelência, vulnerável às mudanças que o tempo traz. Quando vemos o trabalho de nomes como, principalmente, Bon Iver e outros como Bowerbirds ou mesmo Mumford & Sons, nos lembramos que instrumentos dos mais variados, incluindo os elétricos e mesmo os eletrônicos, podem ser incorporados ao Folk sem descaracterizá-lo, mas sempre o enriquecendo.

O Brasil está cada vez mais urbano e “globalizado” e as mudanças culturais são inevitáveis. Faz bem para o país que existam pessoas e movimentos que nos recordam dos elementos da nossa cultura que construíram a nação até agora – e isso não pode ser perdido ou desvalorizado. Também nos faz bem estar abertos ao pensamento de reconhecer os novos personagens que foram incorporados ao espetáculo que é nosso folclore, elementos que as gerações que já nasceram em um contexto mais internacionalizado poderão se identificar mais e celebrar como sua própria cultura. A música Folk feita por aqui, que já possui seus mais diversos nomes e até festival destinado ao gênero, nos relembra disso – e já pode ser motivo de orgulho nacional.

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MARCADORES: Folk

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.