Uma entrevista com Febem (ou uma matéria sobre Febem)

O próprio rapper, CESRV e Jef Delgado destrincham “JOVEM OG”, candidato a disco do ano, e nos ajudam a entender como funciona a arte de Felipe Desiderio

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Fotos: Jeff @Caodenado

Quando JOVEM OG (2021) completou um mês de vida, logo no início de maio, Febem me concedeu uma entrevista. Em meio à agenda apertada, o artista topou uma ligação enquanto estava no Uber, no caminho entre o estúdio e a casa de CESRV, grande amigo de Febem e produtor musical que também imprime em JOVEM OG sua assinatura. A chamada durou aproximadamente 20 minutos até que o destino chegasse. Agradeci pelo papo e combinamos de nos falar novamente para aprofundar alguns pontos, o que nunca aconteceu — é de se esperar que a pessoa que lançou o disco do ano esteja um pouco, assim, sem tempo.

“Eu conheci o Febem em 2015”, conta Cesar Pierre, DJ e produtor musical também conhecido como Cesinha ou pelo seu vulgo CESRV. “Ele ainda fazia parte do ZRM [Zero Real Marginal] e frequentava as nossas festas, como a Collab 011 na Trackers. Nesse bololô de festas do centro de São Paulo, a gente acabou se conhecendo. Em um dia, era Carnaval, a gente estava na Roosevelt, uma galera toda junta, e ele olhou pra mim e falou: vamos fazer umas músicas”. Na época, Cesar tinha acabado de trabalhar com Kamau no disco Licença Poética (Experimentos Pessoais). Firmou a parceria com Febem e, assim, surgiram três criações boas o suficiente para ambos saberem que alguma coisa importante sairia dali.

“Vamos fazer uns Grime”, incitou Febem. “Eu respondi: cala a boca”, remonta Cesar no meio de uma risada. “Ninguém gosta de Grime no Brasil. Estou há cinco anos tocando Grime e ninguém tá nem aí, você não vai arrumar nada. Mas ele insistiu e eu concordei. A gente estava no mesmo universo, então foi uma troca mais natural. Eu estava mais voltado para o eletrônico, Drum’n’Bass, Footwork e ele acabou me puxando de volta para o Grime”. Da química entre os dois artistas surgiu Elevador (2016), primeiro álbum solo da carreira de Febem, que com seu sucessor, Prata (2017), foram essenciais para afiar as rimas. Em Running (2019), Brime (2020) e JOVEM OG (2021) consolidam o groove de seu flow — esse jeito suingado de rimar, que brinca sem tanto esforço, quase despreocupadamente, com o tempo das palavras em cada verso —, além da plena maturidade na composição.

Brime foi uma sopa de referências nossas que a gente sentiu que estava na hora de fazer, sem ligar muito se o Brasil queria ouvir isso ou não, e acabou se tornando um disco relevante para a cena”, comenta Cesar. “O JOVEM OG é um disco de Rap mesmo — o Febem é um rapper, no fim das contas. Tem Drill, tem influência da música inglesa, africana e jamaicana, mas no fim das contas é um disco de Rap. O Brime se enquadra mais em um Global Bass, por exemplo, mas JOVEM OG é um disco de Rap: são coisas distintas, mas que conversam no mesmo universo”.

O lançamento de Brime foi avassalador. Às vésperas da pandemia de Covid-19, a obra foi sucesso de crítica e público. Mais do que isso: as seis faixas anunciam, um tanto quanto inesperadamente, o que pode ser um disco brasileiríssimo em diálogo, o tempo inteiro, com o mundo. Por ingenuidade, eu esperei de JOVEM OG algo como um Brime 2. Acontece que, entre Brime e JOVEM OG, o mundo e todo mundo no mundo mudou. Com Febem, não foi diferente.

“‘Brime’ foi uma sopa de referências, sem ligar muito se o Brasil queria ouvir isso ou não, e acabou se tornando um disco relevante para a cena. O ‘JOVEM OG’ é um disco de Rap mesmo — o Febem é um rapper, no fim das contas. Tem Drill, tem influência da música inglesa, africana e jamaicana, mas no fim das contas é um disco de Rap. O ‘Brime’ se enquadra mais em um Global Bass. São coisas distintas, mas que conversam no mesmo universo”

– CESRV

“Quando a gente fez o Brime foi um processo muito caótico; viajar, voltar, fazer shows, sair disco, começar a pandemia, então o Febem ficou um tempo sem escrever. Depois de um tempo, ele apareceu dizendo que tinha feito um rap gigantesco — era ‘VAI PENSANDO’. Eu falei: ‘caralho, tem uma letra de dois quilômetros essa música!”, diverte-se Cesar. “A gente trabalhou durante um tempo e, a partir desta faixa, fizemos outras músicas e fomos contextualizando o disco, seu discurso e proposta”.

Durante nossa ligação, Felipe Desiderio estava objetivo, muito como ele soa em JOVEM OG. Segundo o rapper, foi o conflito entre cancelamento e visibilidade que o instigou a começar o disco – mais precisamente, a seletividade da cultura de cancelamento e a atual projeção da sua própria carreira. Ao longo da nossa conversa, ele disparou algumas frases do tipo que fazem lembrar por que o artista é uma das forças mais interessantes do atual Hip Hop nacional. “Queria saber quando que o que não é importante começou a ter a relevância da importância”, provoca.

“Ela diz que adora levar tapa, ela tem descendência da Europa / Para não me sentir mal pensei em reparação histórica” — a rima de “CRIME” poderia ter parado por aí, mas Febem gira a faca: “Mas vão dizer que essa rima foi um tanto desnecessária, enquanto playboy já rimou que transou a filha da empregada”, então, como se o dissabor não fosse suficiente, o artista insere a clássica vinheta de futebol “Brasil”, absolutamente ácida. “Passou batido, né? Vida que segue. Errado é o Febem quando foi comprar um Big Mac”, prossegue o MC, referindo-se ao burburinho por causa de uma estrofe de “ESSE É MEU ESTILO”, sexta faixa de Running (2019) e a mais ouvida do artista no Spotify.

Nesse quase um ano e meio em isolamento social, eu (e muito provavelmente você também) já me peguei rolando o feed do Twitter ou alternando entre Twitter – Instagram – WhatsApp compulsivamente até perceber que nada ali me interessava. Este paradoxo da compulsão e repulsa pela internet tem atravessado muita gente, e Febem, depois de colocar no mundo um disco que mostra seu desgosto com o uso das redes sociais, decidiu sair do vórtice. “Não tenho frequentado muito a internet, não. Só o Instagram mesmo, tirei o Twitter do celular. Vira e mexe eu volto, apareço para divulgar meu trabalho”, comentou. Além da experiência obsessiva que as redes sociais promovem, o conteúdo é o que mais incomoda Felipe. “Ninguém quer ser voluntário e todo mundo quer ser juiz”, dispara.

“As pessoas brincam com a vida de outras pessoas hoje em dia como se não fosse nada”, continuou Febem. “JOVEM OG é um mix desse contexto com um momento de carreira, de ser humano, do que eu estou ouvindo. O nome que eu escolhi para o álbum já é usado por outras pessoas, não é só sobre mim — tanto que daí houve identificação”. No universo de OG, Original Gangsta, Febem faz questão de mostrar que não está sozinho. Fazem parte dessa atmosfera — que CESRV ambientou com referências tanto de Drill quanto de good kid, m.A.A.d city (2012) — Djonga, Tasha, Tracie, Kyan, Vulgo FK, Jean Tassy, Smile e Mu540. O último, autor do beat de “BALLA”, uma das grandes pedradas do disco.

As canções falam sobre violências, das micro às estruturais, do país, e também sobre dinheiro, com uma preciosa sinceridade, em que a nota não é ostentação, mas algo necessário — desde as menções mais explícitas como “Parceiro, vai vendo, mó saudade do dinheiro” em “SEM TEMPO” e “Foda-se, me paga” de “ME PAGA”, até o refrão chiclete “Vai pensando que tá bom/ Nem tudo que se vê é o que é, todo jogo tem blefe / Vai pensando que tá bom por aqui para eu continuar sendo a sua ref” em “VAI PENSANDO”. Talvez, no final das contas, JOVEM OG apresente a faceta mais pessoal que já vimos de Febem. A densidade do disco reside em como o artista é transparente em relação a tudo: da preocupação com grana ao conselho da sua avó que ele lembrou durante um episódio de violência policial, da pouca paciência com a cultura de cancelamento de internet ao desenho que sua filha fez na parede do seu quarto. Tudo isso é muito Felipe.

“As pessoas brincam com a vida de outras pessoas hoje em dia como se não fosse nada. ‘JOVEM OG’ é um mix desse contexto com um momento de carreira, de ser humano, do que eu estou ouvindo. O nome que eu escolhi para o álbum já é usado por outras pessoas, não é só sobre mim — tanto que daí houve identificação”

– FEBEM

Com a pandemia, o processo criativo se tornou híbrido: parte das músicas foi feitas na casa do Cesar e outra parte no estúdio de Cesar na Bela Vista. “Às vezes o Febem está em casa escrevendo uma música que a gente está conversando há um mês, ou ele chega no estúdio e escreve uma música em 15 minutos porque já estava pensando nela em casa há tempos. A gente estar em casa só facilitou o processo criativo porque a gente ficou mais tempo imerso”, diz CESRV. “Estúdio tem horário comercial, então quando terminava a diária cada um ia para sua casa. Já fazendo este disco, Febem ficava em casa, capotava dois, três dias lá e a gente fazia duas músicas de uma vez porque a gente estava no processo. E, para mim, o mais importante para fazer um disco é estar imerso nele, vivendo ele o tempo todo, é isso que dá para o álbum uma característica marcante”.

Segundo o produtor, a versatilidade de JOVEM OG é seu maior trunfo. “Se você for ver, o que o Febem propôs em JOVEM OG é uma coisa que vale para muita gente e, através das participações, é uma história que vai sendo contada por várias perspectivas ao mesmo tempo. E o Jef conseguiu trazer imageticamente essa parada”, comenta.

Lá em 2015, quando CESRV e Febem começaram sua parceria, na mesma praça Roosevelt, Jef Delgado dava rolê ouvindo Febem nas faixas do ZRM baixadas em mp3. Por isso, o diretor de arte e fotógrafo de 25 anos considera que sua primeira colaboração com Febem foi como ouvinte e admirador. “O Febem tinha aquele bagulho vileiro, vida loka, skatista que todo mundo queria ser”, relembra Jef. Aproximaram-se pela Ceia Ent. — selo de Rap nacional de DonCesão e Nicole Balestro, no qual estão Djonga, Clara Lima, Febem, Tasha & Tracie, entre outros — e acompanharam juntos, ainda que em posições diferentes, a transformação do Rap nos últimos cinco anos. JOVEM OG marca a primeira colaboração direta entre os artistas, um desejo de muito tempo de Delgado.

“O Febem tinha aquele bagulho vileiro, vida loka, skatista que todo mundo queria ser”

– Jef Delgado

O briefing para a capa foi direto: “Eu quero um menor em cima de um foguetão, Jef, bem mandrake na quebrada — o resto é com você”, relembra o fotógrafo.  Delgado considerou a Vila Maria, por ser a casa de Febem e um lugar simbólico para o artista, mas preferiu jogar em casa: escolheu um CDHU do Capão Redondo. A foto foi feita no mesmo campo de futebol em que o Jef dirigiu Joga Bonito, em parceria com a Nike. A ideia do artista é ressignificar o território e as pessoas que interagem com esse território; também por isso, o modelo da capa é um morador da comunidade. “Eu, enquanto pesquisador, jornalista, produtor dessa cena, sei que eu estou fazendo história — desde Amarelo, do Emicida, no Theatro Municipal até a capa do disco de um artista underground que está indo para o mainstream”, diz Jef.

De empinar a moto cobrindo a placa a colocar o emoji de palhaço para não mostrar o rosto na foto, para Delgado, essas ideias remetem ao Febem vileiro com quem ele se identificara de primeira. Assim, as trocas entre Jef e Febem foram muito alinhadas porque se debruçaram com facilidade sobre o mesmo universo. “A gente ia colocar o emoji de palhaço na capa também, mas não combinava”, conta Delgado, “Pensei que quando meninos que são menor de idade são presos ou estão sendo procurados para responder por alguma coisa, não pode mostrar o rosto; vamos craquelar o rosto do menor! Febem topou e visualmente ficou muito bom! Confesso que fiquei com medo do modelo sofrer alguma represália porque a gente vive em um mundo em que um jovem negro sofre diversos riscos; além disso, eu trato ele como irmão, conheço a família dele há 18 anos e não queria dar uma preocupação — felizmente, nada aconteceu e acho que a galera conseguiu pegar a visão de que é um trampo artístico. Ah, quer uma curiosidade? Uma coisa que ninguém percebeu nessa capa é que na janela tem uma senhora, a clássica tia espiando o que estava acontecendo!”

“Pensei que quando meninos que são menor de idade são presos ou procurados para responder por alguma coisa, não pode mostrar o rosto; vamos craquelar o rosto do menor! Febem topou e visualmente ficou muito bom! Confesso que fiquei com medo do modelo sofrer alguma represália porque a gente vive em um mundo em que um jovem negro sofre diversos riscos; além disso, eu trato ele como irmão, conheço a família dele há 18 anos e não queria dar uma preocupação — felizmente, nada aconteceu e acho que a galera conseguiu pegar a visão de que é um trampo artístico. Ah, quer uma curiosidade? Uma coisa que ninguém percebeu nessa capa é que na janela tem uma senhora, a clássica tia espiando o que estava acontecendo!” – Jef Delgado

Coube a Naíche, também conhecido pelo seu arroba no Instagram @visualparanoia, transformar a foto de capa e as polaroids de Delgado na narrativa visual de JOVEM OG: uma investigação policial. Supondo que o ouvinte não conheça Febem, a história do disco é de um crime — do sonho de “JOVEM” à proposta dura de “MÉXICO” de fazer uma entrega de drogas às sirenes de “CRIME”. Muitos outros elementos, sejam colagens de noticiários, sejam versos do Febem, são pincelados nas demais faixas, o que dá ao disco um fio condutor de uma crônica original gangsta. Os clipes dialogam diretamente com essa hipótese e, curiosamente, quando Febem e Cesar são presos em “CRIME” eles estão no estúdio produzindo música.

Sabendo da trajetória de Febem e a densidade emocional inédita que ele traz à sua discografia com JOVEM OG, a narrativa do crime se torna ainda mais amarga, com milhares de camadas possíveis. Há uma inversão: as memórias pessoais de Febem se tornam plurais, projeção de toda uma classe social, enquanto as narrativas estruturais de violência urbana se tornam singulares e pessoais do Felipe. Isso é um grande disco de Rap. Isso é original gangsta. Escutei Febem agradecer pela corrida, descer do Uber e cumprimentar Cesar. Antes de desligar, ele me perguntou: “E sobre que é a sua matéria?”. Ao que eu respondi, é sobre você.

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ARTISTA: CERSV, Febem