Urbanidade: Espaço Para A Música – Cardiff

Capital do País de Gales tem cena diversificada e cheia de bandas legais

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A cidade é uma das grandes invenções da humanidade. Pode parecer estranho falar isso, justo porque elas parecem existir desde sempre, mas o que entendemos hoje por “cidade” nasceu a partir do século 19, mais precisamente, após as revoluções Industrial e Francesa e a consequente confirmação do capitalismo como regime econômico. Tudo cresceu, pessoas vieram, pessoas se foram, empresas e fábricas iniciaram atividades, o que demandou transportes e serviços para viabilizar tudo. As populações aumentaram exponencialmente, onde antes havia desocupados agora havia uma invenção também típica destes tempos: a classe trabalhadora. Tudo isso e outros fatores peculiares fizeram da urbanidade o habitat natural dos contingentes humanos e esse contato novo, essa aproximação de gente diferente e a inserção dela em uma realidade cotidiana unificada afetou a produção da cultura das sociedades. Esta pequena série de artigos visa mapear o que algumas cidades têm de interessante a oferecer em termos de produção musical. Falaremos de passado e presente, quando der, de futuro, mas garantimos que você vai gostar.

Cardiff

Se você é dessas pessoas que pensam no Reino Unido como um lugar cheio de paisagens desoladas, frias e povoadas por gente mal humorada, certamente nunca ouviu falar da litorânea e simpática capital do País de Gales. Cardiff é uma exceção a essa regra, toda pimpona na sua localização privilegiada a oeste da Grã-Bretanha e pródiga na formação de bandas e artistas legais ao longo dos tempos. O País de Gales é um dos três estados que compõem o Reino Unido, além de Inglaterra e Escócia. Os galeses têm identidade cultural própria, quase perdida ao longo de séculos de proximidade com a monarquia inglesa. Ao contrário dos saxões, os galeses descendem dos celtas, um povo bem diferente, mas que foi inserido no mesmo contexto de invasões romanas e vikings ao longo da Idade Média. O domínio inglês começou a se insinuar quando o rei Eduardo I resolveu acabar com exigências que os príncipes galeses faziam na fronteira, no século 13. Após várias rusgas históricas, a exemplo do que aconteceu com a Escócia e as Irlandas, Gales mantém-se no Reino Unido guardando suas características culturais e históricas.

Gales tornou-se então uma região agrícola fértil nos séculos seguintes, até a Revolução Industrial transformar a região em grande produtora de carvão mineral, de vital importância para o pioneirismo inglês naquele momento histórico. A região esteve vinculada ao restante do território britânico sem conflitos e inseriu-se no contexto monárquico naturalmente. A produção cultural inglesa era, salvo exceções, a grande fonte de informação para Gales. Apesar do destaque em revelar talentos do canto lírico, foi uma cantora popular que colocou Cardiff no mapa pela primeira vez. Shirley Bassey, logo levada dali para Londres, foi a pioneira representante da canção popular galesa a ser revelada para o nascente mundo do Pop. Filha de um nigeriano e uma inglesa, Bassey chamou a atenção quando gravou seu primeiro single, uma interpretação de The Banana Boat Song em 1957, sendo logo foi alçada à condição de grande cantora por aquelas bandas. Sua aparição mundial seria através da interpretação marcante do tema de 007 Contra Goldfinger, em 1965. Nesta época, outro astro, não de Cardiff, mas de Pontypridd, já era uma superestrela, Tom Jones. Revelado na base da necessidade de ter que sustentar um filho já aos dezesseis anos, Após liderar um grupo local, chamado Tommy Scott And The Senators, chegando a gravar com o mitológico produtor inglês Joe Meek, Tom entrou em carreira solo e emplacou um hit mundial em 1965, It’s Not Unusual, sendo chamado de Elvis Presley de Gales.

A primeira banda de Cardiff a fazer certo sucesso nas paradas ingleses foi a Amen Corner. Foi em 1967 quando cravou seu maior hit, Gin House Blues, mantendo a tradição sonora de misturar sonoridades típicas dos pubs com alguma psicodelia nascente. A aparição da banda pela primeira vez na lista dos artistas mais vendidos e tocados no Reino Unido coincidiu com a passagem de ninguém menos que [Jimi Hendrix] e sua banda Experience pela cidade. O grupo esteve lá duas vezes naquele ano, pouco antes de participar do Festival de Monterey. Dois anos depois, Amen Corner chegaria ao topo da parada, com (If Paradise Is) Half As Nice. No mesmo período, mais precisamente, em 1967, formou-se um power trio, que enveradaria pelo nascente caminho do Heavy Metal. Formado inicialmente por Burke Shelley, Tony Bourge e Ray Phillips, o grupo adotou o nome de Budgie no ano seguinte e gravou seu primeiro álbum em 1971, produzido por Rodger Bain, o mesmo sujeito que forjou a sonoridade de Black Sabbath.

Com o avanço da década de 1970, Gales teve artistas importantes como Badfinger e Mary Hopkin, ambos contratados pela gravadora Apple, de propriedade dos Beatles, mas um nativo de Cardiff, presente na cena musical desde o início dos anos 1960, partia para a carreira solo. Dave Edmunds, após integrar várias bandas de curtíssima duração, lançou em 1975 seu primeiro disco, Subtle As Flying Market e seguiu carreira ao longo dos anos 1980. Também esteve ativo ao longo dos anos 1970, o “Dylan galês”, Meic Stevens, o grupo de Hard Rock Edward H Dafis e os primeiros punks da região, Trwynau Coch, da cidade de Swansea. As transmissões televisivas e radiofônicas recebem grande impulso nessa época, mais precisamente, a partir de 1977, quando sai de cena a BBC West, uma estação retransmissora situada em Bristol e entram em ação a BBC Cymru Wales’s e a BBC 6, dedicadas especificamente à região, com estúdios em Cardiff, Bangor, Aberystwyth e Carmarthen.

Neste mesmo período, surge em Cardiff uma formação bastante relevante, porém de curtíssima duração, a Young Marble Giants, em 1978. No ano seguinte, o trio formado por Alison Statton e os irmãos Phillip e Stuart Moxham assinava contrato com a gravadora inglesa Rough Trade e lançava seu único álbum, Colossal Youth, em 1980. Apesar da importância e pouco tempo, a banda foi suplantada em termos de visibilidade e sucesso ao longo da década pela cantora Bonnie Tyler (de Swansea) e pelo grupo The Alarm (de Rhyl). A primeira teve três hits mundiais, a saber, It’s A Heartache, Total Eclipse Of The Heart e Holding Out For A Hero, que frequentam programas de flashbacks radiofônicos até hoje. The Alarm fez carreira na cena pós punk inglesa a partir de 1981, com discos como Declaration (1984) e Strenght (1985).

A década de 1990 seria o momento da cena musical de Cardiff ser colocada no mapa. Várias bandas importantes surgiram na região, sendo Manic Street Preachers a maior delas. Formado em Blackwood, em 1988, o grupo tornou-se uma das referências da cena local, a partir da interação entre o vocalista, compositor e guitarrista James Dean Bradfield e o baixista Richey Edwards. O primeiro disco de Manics, Generation Terrorists, lançado em 1992, chegaria como uma bomba nas paradas inglesas. Com influências que vinham de todos os lados, de [Nirvana] a Public Enemy, passando por The Clash, o grupo lançaria mais dois discos até o baixista desaparecer misteriosamente, no início de 1995. Usuário de drogas pesadas, Richey já estava fora da banda desde o início do ano anterior, seu carro foi achado num estacionamento e nunca mais se soube dele. Desde então, o grupo mantém sua parte nos direitos autorais, para o caso de seu regresso. Na verdade, a hipótese mais aceita é a de suicídio, mas as investigações policiais nunca revelaram o que realmente aconteceu. A partir daí, a carreira do grupo decolou, com o lançamento do álbum Everything Must Go no fim do ano, mantendo até hoje uma carreira vitoriosa.

Catatonia também teve sua importância na cena da cidade, com a liderança da cantora Cerys Matthews e formado a partir de 1992. Com o primeiro disco lançado em 1996, a banda fez grande sucesso, sobretudo com o single Mulder And Scully. Duas formações psicodélicas marcantes surgiram na região. Gorky’s Zygotic Mynci, iniciando a carreira em 1991 e permanecendo ativo até 2006, lançando discos sensacionais como Barafundle e o clássico How Long I Feel The Summer In My Heart, sempre liderada pela figura ímpar de Euros Childs. Da cidade de Cardiff veio o amalucado Super Furry Animals, com a liderança de Gruff Rhys, que também tem carreira solo paralela. Com formação em 1993 e vários discos lançados ao longo dos anos, SFA se orgulha de ter gravado um álbum, o quarto de sua carreira, cantando em galês, intitulado Mwng em 2000. Outras bandas também surgiram nas imediações de Cardiff na segunda metade dos anos 1990, sendo Stereophonics e Feeder as mais importantes e que conseguiram fazer carreira internacional, sendo que a primeira ainda está em atividade até hoje.

A Cardiff dos últimos anos segue firme em termos culturais. É uma cidade com população de 339 mil habitantes, o mesmo que Blumenau, Santa Catarina. Há um grande clássico futebolístico local, disputado entre Swansea City e Cardiff City, conhecido como The South Wales Derby. Há uma cena cultural ativa e multifacetada, contado com grupos até de Rap Galês, como Mudmowth e Ruffstylz. Também há uma nova geração de bandas surgindo por lá, desde artistas e formações mais experimentais como Maddie Jones e Sweet Baboo, chegando a nomes mais consolidados como Funeral For A Friend, Lost Prophets, Los Campesinos!, McLusky e a cantora Cate Le Bon. Há na cidade a loja de discos mais antiga do mundo, a Spiller Records e casas noturnas interessantes na região do bairro The Hayes, como The Full Moon, o Gwdihw Cafe Bar e Clwb Ifor Bach. Todo este cenário favorável nos dá esperanças que as engrenagens da cena cultural local irão girar sem muito atrito, trazendo novas bandas e artistas, que levarão adiante a tradição da cidade em revelar e produzir grande música pop.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.