Urbanidade: Espaço para a Música – Porto Alegre

Cena musical da capital gaúcha em evolução desde os anos 1960 até hoje

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A cidade é uma das grandes invenções da humanidade. Pode parecer estranho falar isso, justo porque elas parecem existir desde sempre, mas o que entendemos hoje por “cidade” nasceu a partir do século 19, mais precisamente, após as revoluções Industrial e Francesa e a consequente confirmação do capitalismo como regime econômico. Tudo cresceu, pessoas vieram, pessoas se foram, empresas e fábricas iniciaram atividades, o que demandou transportes e serviços para viabilizar tudo. As populações aumentaram exponencialmente, onde antes havia desocupados agora havia uma invenção também típica destes tempos: a classe trabalhadora. Tudo isso e outros fatores peculiares fizeram da urbanidade o habitat natural dos contingentes humanos e esse contato novo, essa aproximação de gente diferente e a inserção dela em uma realidade cotidiana unificada afetou a produção da cultura das sociedades. Esta pequena série de artigos visa mapear o que algumas cidades têm de interessante a oferecer em termos de produção musical. Falaremos de passado e presente, quando der, de futuro, mas garantimos que você vai gostar.

Porto Alegre

Em 1752, imigrantes originários do arquipélago português dos Açores, desembarcaram para dar início ao povoamento de uma região peculiar bem ao sul do país. Em homenagem ao início desta nova vila, chamou-se o lugar de Porto dos Casais. Setenta anos mais tarde, já independente o Brasil, a região, com o nome de Porto Alegre, recebia seu primeiro contingente de imigrantes alemães. Foi essa distância do centro do país e essa quantidade de europeus (alemães, italianos, poloneses), misturada aos portugueses já existentes por aqui e os espanhóis circundantes da região, além dos escravos, reuniram fatores que conferiram à cidade traços multiculturais variados e peculiares.

Como a maioria das cidades do mundo, Porto Alegre foi atingida em cheio pela produção musical jovem, que teve lugar nos Estados Unidos da década de 1950 e se transformou no Rock’n’Roll. Os primeiros representantes desta influência externa surgiram no fim dos anos 1960 na cidade. Entendidos afirmam a existência de um tripé do chamado Rock Gaúcho, formado por bandas como Liverpool, Brasas e Cleans. Oriundo da Zona Norte da cidade, mais precisamente do bairro do IAPI, Liverpool surgiu fazendo um Rock de influência stoniana, cheio de traços do R&B americano inicial, devidamente misturado com a psicodelia filtrada pelas criações de Os Mutantes, lançando um belo álbum em 1969, chamado Por Favor Sucesso. Alguns anos depois, a banda mudaria de nome para Bixo da Seda, mantendo-se ativa e relevante nos primeiros anos do Rock Gaúcho. Brasas, ex-Jetsons, era o grupo do guitarrista Luis Vagner, figura importante local e responsável por aparições televisivas ainda nos tempos da Jovem Guarda. O primeiro disco da banda, homônimo, também tem status cult. Já Cleans, igualmente importante, era de Canoas.

Ao longo dos anos 1970, a produção musical de Porto Alegre era alimentada por festivais universitários e estudantis e tinha divulgação na mitológica rádio Continental AM. A nascente cena da cidade ainda engatinhava e esperava por alguém que pudesse fazer decolar a tal mistura de música influenciada pela produção gringa e canções regionais. Bixo da Seda era a principal banda mas gente nova estava surgindo. Almôndegas, que trazia em suas fileiras os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, era uma promissora formação que praticava uma forma híbrida de Rock, dentro desta lógica de misturar informações. O sucesso Canção da Meia-Noite é emblemático dessa época, bem como Nuvem Passageira, do cantor e compositor Hermes de Aquino. Ambas furaram a fronteira do Rio Grande e atingiram o sucesso nacional através da inclusão em trilhas sonoras de novelas globais, Saramandaia e O Casarão, respectivamente. Ainda assim, nada seria tão grande quanto o êxito dos irmãos Ramil a partir de 1980, quando ressurgiram com o fim de Almôndegas, lançando seu primeiro trabalho.

A dupla cravaria seu nome no nascente Pop brasileiro com Deu Pra Ti e Paixão, duas canções de seu segundo álbum, homônimo, lançado em 1981. Este também é o ano de Deu Pra Ti, Anos 70, filme de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, rodado em Super 8 e tendo a cidade como pano de fundo da história de um casal que se encontra e desencontra durante a década anterior. Além de mostrar a juventude urbana gaúcha, o longa também trazia uma trilha sonora interessante, feita por Nei Lisboa e Augusto Licks. O primeiro seria um dos maiores representantes da música feita na cidade, com uma carreira solo prodigiosa e que dura até hoje. O segundo seria parte decisiva do trio Engenheiros do Hawaii, que iniciaria atividades em 1985, com grande projeção nacional. Enquanto Nei Lisboa contruía narrativas a partir de sua visão boêmia do bairro do Bom Fim e surgia como um artista mais identificado com a região que Kleiton e Kledir, toda uma geração de adolescentes iniciava ensaios em garagens e buracos diversos, querendo montar uma banda de Rock e frequentando lojas emblemáticas como a Pop Som e almejando tocar no Teatro Opinião ou no São Pedro.

Com a chegada da rádio Ipanema FM e sua gradual aproximação da cena musical da cidade, sobretudo, do Rock, criou-se espaço para novíssimos grupos como Taranatiriça, Replicantes, Garotos da Rua e Julio Reny, que seriam pioneiros nesta novíssima produção oitentista portoalegrense. Em 1986, com o disco Rock Grande do Sul, seriam lançadas ao país mais bandas da cidade, devidamente sintonizadas com o mínimo múltiplo comum das formações musicais de Porto Alegre: trazer a mistura de informações locais/tradicionais com as referências do Rock inglês e americano. Engenheiros do Hawaii, De Falla e TNT se juntariam aos mais cascudos Replicantes e Garotos da Rua. De todos, a primeira seria a banda mais bem sucedida em termos de projeção nacional a sair do Rio Grande do Sul. Pouco depois, vieram formações como Nenhum de Nós, Acústicos e Valvulados, Cascavelletes, Rosa Tatooada e a sensacional Graforreia Xilarmônica, que misturava Jovem Guarda, canastrice e gauchismo em doses iguais. A Graforreia, apesar de surgida em 1987, liderada por Marcelo Birk, só lançou seu primeiro álbum em 1995, Coisa de Louco II.

Logo no início dos anos 1990, a cena de Porto Alegre parecia sólida e em expansão. A fundação da Garagem Hermética, bar/casa de shows/qualquer coisa veio dar voz e lugar aos entusiastas das novas bandas, que, antes, contavam apenas com o mitológico Bar Ocidente, localizado na Avenida Osvaldo Aranha, no boêmio bairro Bom Fim. A Garagem, um casarão no bairro Floresta, fundada e gerenciada por Leo Felipe, serviu como ponto de encontro de uma nova geração de artistas, que formariam grupos como Jupiter Maçã, Video Hits, Tequila Baby e Comunidade Ninjitsu, entre outros, além de reafirmar veteranos como Edu K (De Falla), Wander Wildner (ex-Replicantes), Plato Divorák e Frank Jorge. Ao mesmo tempo, formações mais próximas da música negra e do Pop surgiam na cidade, com destaque para Ultramen e Papas da Língua, respectivamente. A própria mudança na música jovem ocorrida nos anos 1990, com a chegada da MTV no país, da popularização da música eletrônica e da própria internet, atingiu a cena de Porto Alegre no fim da década.

A geração seguinte, de bandas como Cachorro Grande, Bidê Ou Balde e Superguidis já padeceu pelo fim do Garagem Hermética, ou, pelo menos, do conceito inicial da casa, que mudou de mãos a partir de 2000 e encerraria atividades definitivamente em 2013. Além disso, o crescente interesse por festas de DJ’s deu início a um esvaziamento da cena Rock, cedendo espaço para talentos da Black Music como Joeblack Prates, Tonho Crocco (ex-Ultramen, atualmente em carreira solo) e Hard Working Band mostrarem seus trabalhos pela cidade. Com base na nova lógica da internet como principal meio de divulgação, novíssimos artistas gaúchos da capital surgiram ao longo dos anos 00, entre eles Wonkavision, Pública, Tom Bloch, Pata de Elefante, Wannabe Jalva, Ian Ramil e Apanhador Só.

Porto Alegre segue menos uma cidade do Brasil, mais a capital do Rio Grande do Sul. São traços próprios, cultura mesclada de forma original e um passado que se reafirma e reproduz ao longo do tempo. Se os tempos de hoje trazem circunstâncias que alternam extrema liberdade com extrema restrição na área da produção cultural, a cidade e seus artistas lidam com isso de forma própria.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.