Urbanidade: Espaço Para A Música – Salvador

Salvador tem cena musical combativa e atuante desde os anos 1950

2,671 total views, no views today

A cidade é uma das grandes invenções da humanidade. Pode parecer estranho falar isso, justo porque elas parecem existir desde sempre, mas o que entendemos hoje por “cidade” nasceu a partir do século 19, mais precisamente, após as revoluções Industrial e Francesa e a consequente confirmação do capitalismo como regime econômico. Tudo cresceu, pessoas vieram, pessoas se foram, empresas e fábricas iniciaram atividades, o que demandou transportes e serviços para viabilizar tudo. As populações aumentaram exponencialmente, onde antes havia desocupados agora havia uma invenção também típica destes tempos: a classe trabalhadora. Tudo isso e outros fatores peculiares fizeram da urbanidade o habitat natural dos contingentes humanos e esse contato novo, essa aproximação de gente diferente e a inserção dela em uma realidade cotidiana unificada afetou a produção da cultura das sociedades. Esta pequena série de artigos visa mapear o que algumas cidades têm de interessante a oferecer em termos de produção musical. Falaremos de passado e presente, quando der, de futuro, mas garantimos que você vai gostar.

Salvador

Para quem não deseja fazer muito esforço, é conveniente pensar na Bahia como um lugar cheio de pessoas obrigatoriamente felizes. Há sempre um bom motivo para que uma multidão vá atrás do trio elétrico, do bloco, da micareta ou qualquer outra aglomeração de pessoas pulando e dançando. Quem puxa esses contingentes são artistas nativos, sempre bons e relevantes, cheios de talento e ginga, não restando qualquer oportunidade para uma reflexão, um questionamento…Na Bahia, ou melhor, em Salvador (a cara do estado para o resto do país) só há alegria e multidões pulando. Não é preciso morar em Salvador (que é conhecida entre os baianos como “Bahia”), para saber que essa impressão está equivocada. Não deve ser fácil morar num lugar em que as pessoas parecem tão felizes.

Salvador foi capital do país até 1763, quando o Rio de Janeiro recebeu as honras. Durante o chamado Ciclo da Mineração, era mais fácil fiscalizar os comboios com ouro de Minas Gerais e já embarcá-los no porto carioca, com destino à metrópole portuguesa. Este evento não conseguiu tirar a importância da capital baiana e ela se constituiu como a grande cidade do Nordeste do Brasil ao longo dos tempos. Com uma população fortemente miscigenada e abismos sociais históricos, Salvador possui inclinação natural para os ritmos afro-brasileiros. Mesmo assim e vendo o estado dar ao país um gênio musical como Dorival Caymmi, nascido em Salvador em 1914, a cidade permaneceu agitada culturalmente. Várias agremiações carnavalescas, blocos e cordões se formaram na primeira metade do século passado, confirmando a vocação soteropolitana para o festejo.

Nos anos 1950, outro baiano (natural de Juazeiro) viria a ganhar notoriedade no cenário cultural do Brasil: João Gilberto. Poucos poderiam imaginar que, em meio às suas primeiras aparições no circuito da música do Rio de Janeiro, Salvador ganhava sua primeiríssima geração de roqueiros. Dois sujeitos, um tal de Raul Seixas e Waldir Serrão (mais tarde, Big Ben), frequentavam as sessões de cinema na cidade, que foram o primeiro canal de divulgação de uma nova música feita para jovens em escala mundial. Bill Halley e Elvis Presley, brancos cantando música negra americana, foram os primeiros heróis dessa nascente turma. Logo depois chegariam os pais da matéria, Chuck Berry e Little Richard à frente. Era demais para uma cidade como Salvador, num país como o Brasil. Mesmo com a distância cultural que separava aquele novo mundo das ruas da cidade, Raul e Waldir foram afetados irremediavelmente e, além deles, uma quantidade razoável de moleques adolescentes. Serrão teria a primeira banda do Rock baiano, a Waldir Serrão e seus Cometas, fundada em 1957. Em pouco tempo surgiriam programas de rádio dedicados ao ritmo e uma segunda geração de bandas, mais para o início dos anos 1960, reproduzindo os primeiros sucessos do Rock americano através de versões para o português. Era a Jovem Guarda ou, mais informalmente, o Iê-Iê-Iê, que dava as caras também por lá. Àquela altura, Raul Seixas e gente como Pepeu Gomes já militavam pelos subterrâneos da cidade. Logo Raul viria à frente da The Panthers, que teria o nome mudado para Raulzito E Os Panteras a partir de 1965. Outras formações também surgiam pela cidade: Eles Quatro, Jormans, Brasa Brossa, Labaredas e The Brazilian Crickets. Esse pessoal e seus fãs se encontravam no Cinema Roma, na Cidade Baixa. Lá, Waldir Serrão, já rebatizado Big Ben, produzia matinês dançantes e roqueiras, tocando novidades do exterior e abrindo espaço para a produção local.

A chegada da Tropicália afetaria o Rock feito em Salvador. Em pouco tempo,a cidade seria recolocada no mapa cultural nacional, ainda que os arquitetos musicais da coisa estivessem distantes de lá. Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil já moravam em São Paulo ou Rio, fazendo um movimento característico dos artistas da cidade, buscando o Sudeste do país para que fosse possível “acontecer” em termos de sucesso. Tom Zé, que também iria para a capital paulista, também era figura importante nesta geração de artistas contestadores, bem como o cineasta Glauber Rocha. Mais que tudo, a Tropicália significava plugar o Brasil no mundo sem que fosse preciso abrir mão das referências culturais próprias. Nesse contexto também surge um outro importante pilar da música soteropolitana, Dodô, que, em pouco tempo estaria à frente do Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar.

Ao lado da convergência de músicos locais, que formariam Novos Baianos, o Trio foi o responsável pela fusão da guitarra elétrica com a temática adolescente da cidade, que deu origem a um novo idioma musical. A invenção de Dodô chamou-se de “guitarra baiana”, responsável por um timbre diferente e com tamanho menor que o instrumento original, a nova peça do arsenal sônico seria utilizada largamente em gravações nos anos 1970. Do Novos Baianos já sabemos bastante: Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e mais Baby Consuelo, fora arregimentada enquanto passava férias na cidade. Pouco depois viriam Pepeu Gomes, Dadi, Jorginho Gomes (irmão de Pepeu) e José Roberto Macedo e o percussionista Baixinho. Estes últimos, exceto Pepeu, também teriam carreira à parte, usando o nome A Cor Do Som. Com o lançamento do primeiro álbum, É Ferro Na Boneca, em 1970, a banda logo caiu nas graças do público. A partir daí, repetindo o movimento tradicional, a banda deixa a cidade e se muda para o Rio de Janeiro, onde encontra com João Gilberto, convertido imediatamente em fã.

Mesmo com a volta de Gilberto Gil e Caetano Veloso do exílio, o sucesso de Gal Costa e Maria Bethânia, quem leva adiante o Rock baiano e de Salvador adiante na década de 1970 é Raul Seixas, praticamente um ídolo nacional e seguido por uma legião de fãs fiéis. Álbuns como Krig-Ha Bandolo (1973) e Gita (1974) cravam várias canções nas paradas de sucesso, oriundas da parceria entre Raul e Paulo Coelho. No mesmo momento surge em Salvador algumas bandas importantes, como Mar Revolto e a emblemática Cremes (cujo nome pegava emprestado do trio inglês Cream), que pretendia fazer uma mistura de Jazz, Rock e ritmos nordestinos. Salvador caminhava para os anos 1980, década na qual sua produção musical tomaria rumos insuspeitos.

Seguindo o exemplo de quase toda cidade a partir do fim dos anos 1970, Salvador vivenciou o surgimento de uma cena Punk. Não sabiam estes jovens idealistas que teriam como oponente um poderosíssimo monstro midiático, que se formava nas reuniões da indústria musical. Logo vieram bandas como 14º Andar, Úteros em Fúria, Gonorreia, Espírito de Porco, Ramal 12 e a mais bem sucedida delas, Camisa de Vênus, liderada pelo ex-radialista e jornalista Marcelo Nova, fã de Elvis Presley e Raul Seixas. Ele e o baixista Robério Santana, após verificarem uma série de coincidências em seu gosto musical, decidiram montar um grupo de Rock, cheio de irreverência e letras incômodas.

Em três anos,estavam gravando o primeiro disco em São Paulo, que seria puxado pela infame Bete Morreu. Apesar da disposição, a banda foi demitida da gravadora por se recusar a mudar de nome. Essa celeuma não foi suficiente para arranhar o prestígio do grupo, que seguiria carreira ao longo dos anos 1980, emplacando sucessos como Eu Não Matei Joana D’Arc, Hoje, Só O Fim e Simca Chambord. O sucesso alcançado pela banda seria pouco se comparado com a produção Pop de exportação para o resto país, que se instalaria na cidade. Artistas como Chiclete Com Banana, Banda Reflexus, Asa de Águia, Banda Beijo e Cid Guerreiro (anteriormente conhecido como Cid Pororoca), entre outros, levariam ao restante do país uma sonoridade que misturava elementos locais com a abordagem Pop da época, que tornar-se-ia sinônimo de toda a produção cultural da cidade para o resto do país. Subitamente, as canções que eram sucesso apenas no Carnaval, seriam executadas nos meios de comunicação de massa (pertencentes a apenas uma família) o ano todo.

Essa lógica seria mais dominante a partir do início da década seguinte, com o advento do que se entendeu por Axé-Music, de grupos como É O Tchan e formações descentes da década anterior, com Banda Eva, Banda Cheiro de Amor, entre outras. Mesmo assim, a cena local produzia artistas no mesmo ritmo, que precisavam de ânimo redobrado nas tentativas de furar este bloqueio para gravar e divulgar seu trabalho. Uma banda a conseguir isso foi a Úteros em Fúria, que, apesar de existir desde 1986, conseguiu gravar seu primeiro – e único – CD em 1993, pelo selo Natasha. O som melancólico da Treblinka também fazia sucesso, e, assim como o Rockabilly de Dead Billies, também conseguiu projeção local enquanto novas bandas começaram a surgir. Da Cidade Baixa vinha Maria Bacana, liderada pelo guitarrista e vocalista André Mendes, que foi contratada pelo selo carioca Rock It, do ex-Legião Urbana, Dado Villa-Lobos. Também vieram Cascadura, Dois Sapos e Meio, Inkoma, Lampirônicos, brincando de deus (em minúsculas) e Penélope Charmosa, que, ao fazer sucesso, se chamaria apenas Penélope. Em paralelo, uma quantidade razoável de lojas alternativas sustentava a cena, como Kaya e Coringa.

A década de 2000 viu surgir Pitty, que era vocalista do grupo Inkoma. Com projeção nacional, podemos dizer que a moça é o principal nome de um cenário ainda capaz de produzir nomes interessantes. Bons exemplos não faltam: Nancyta e os Grazzers, André Mendes, que tem carreira solo bastante elogiada, está em seu terceiro álbum, Erika Martins, ex-Penélope, também está produzindo novos trabalhos, o trio Retrofoguetes também segue fazendo shows com sua mistura de Rock clássico e instrumental, Ronei Jorge e Ladrões de Bicicleta, Cascadura (que segue em atividade), Vivendo do Ócio e uma das revelações do ano passado, Russo Passapusso, nativo de Feira de Santana, mas que adotou a capital como sua musa inspiradora na criação de uma sonoridade eminentemente urbana. Russo também é líder da BaianaSystem, banda que relê e atualiza as sonoridades setentistas da guitarra baiana.

Em meio ao domínio cultural de Axé, Pagode, Arrocha e demais ritmos feitos para todo mundo pular sem pensar, Salvador segue viva e crítica. De vez em quando, sua verdadeira voz é ouvida aqui e ali. Temos que apurar os ouvidos e prestar atenção, porque, creiam, sua música, cultura e visão de mundo são muito mais que uma micareta de gente indo e vindo de e para lugar nenhum.

2,672 total views, 1 views today

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.