Valenttina Luz, câmera, ação

Lançado hoje (03/11), minidocumentário percorre performances, experiências e os diferentes talentos da DJ e multiartista residente da Mamba Negra

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Fotos: Reprodução

A maior potência da DJ Valenttina Luz, multiartista residente da Mamba Negra, é a sua capacidade de realização. Mulher trans e preta em um país conservador como o Brasil, especialmente o dos últimos anos, sua luz brilha em todas as áreas em que resolveu atuar na vida. Modelo cativa nos principais desfiles e publicações de moda do país, ela transformou a vivência como performer dançando nas caixas de som em força motriz da discotecagem – e nada melhor do que um documentário capaz de mostrar a força de uma mulher libertária e autodidata.

Hoje (3/11), é o dia de lançamento do minidocumentário Valenttina Luz.“A ideia era gravar um conteúdo em relação ao meu trabalho de performance, mas trocamos vivências. Então os meninos piraram e falaram: ‘vamos gravar um mini doc’. Quando eles falaram isso, fiquei pensando: ‘Um doc? Quem sou eu?’ Mas embarquei na ideia e foi incrível. A forma de interação foi meio complicada para articular agendas, horário para gravações e locações. Eu sou muito chata, reconheço isso (risos). No final, nós conseguirmos se entender para criar um ambiente de troca”, conta Valenttina Luz em conversa com o Monkeybuzz.

Filmado antes da pandemia, o doc mostra a rotina de Valenttina em São Paulo. O registro é variado e percorre desde performances em festas até uma aula de discotecagem na Casa 1, centro de cultura e acolhimento de pessoas LGBTQI+. O documentário produzido em um ano partiu da ideia de de Marcelo Goraieb (Ui! Gafas), amigo de Valentina e de Luís Meneguetti. Ambos foram apresentados após uma reunião para encaminhar o projeto. As filmagens contemplaram edições das festas Mamba Negra, Sangra Muta e uma noite no Zig Club, todos localizados em São Paulo. “Esse foi um trabalho muito especial e ajudou cada um da equipe no seu próprio processo de entendimento e desconstrução sobre gênero e vivências; e tudo foi feito em conjunto com a Valenttina, que participou desde a etapa do roteiro até a de lançamento. Foram mais ou menos seis diárias de captação para registrar ela em festas e também no dia a dia; e a entrevista aconteceu só no final do processo, quando ela já estava bem à vontade com a equipe e tinha certeza do carinho, respeito e admiração de todos por ela”, explica o diretor Luís Meneguetti, da produtora Node Filmes.

“Os meus sets são muito abertos em relação a estilo musical. Eu gosto de tudo um pouco, sou eclética desde sempre. Faço minha pesquisa, vejo o que eu gosto e coloco essa música bem alta em casa. Então eu me imagino dançando a track, imagino a pista, imagino a reação da galera e isso faz com que faz com que meu set seja aberto para todos estilos. Gosto muito de brincar com as vertentes, é uma coisa bem interessante que eu descobri”.

É provável que o gosto por se enveredar em diversas áreas de atuação artística seja algo inerente à DJ nascida e criada em Mandaguaçu (PR), cidade de 23 mil habitantes, vizinha de Maringá – ou seja, sua terra natal tem um número de moradores menor do que o público que já a viu tocar e performar em festas independentes. Valenttina é a primeira bailarina do município paranaense, onde também teve uma carreira como jogadora de handebol na adolescência. “Joguei profissionalmente dos 12 aos 15 anos, no time da cidade de Toledo e de várias outras cidades. Dos 11 até 14 anos mergulhei no balé e tive o primeiro contato com arte e música, foi muito bom. O esporte me ajudou para ser uma profissional de dança regrada, uma DJ profissional regrada com horário, com todo esse cronograma que atleta tem. O balé ajudou muito com expressão corporal na dança e postura. Então, Valenttina Luz é exatamente essa pessoa de hoje por conta de tudo isso. Eu também participava das bandas de fanfarras da minha cidade, onde eu pude juntar tudo isso e transformar em arte”.

Após uma publicação de Valenttina atrás de produtores interessados disponibilizar faixas para a trilha sonora do vídeo, diversos artistas enviaram músicas, que foram selecionadas por Meneguetti. No som, está a chilena Valesuchi, cujo clipe da sua faixa “Humour” é protagonizada por Valentina Luz. Ela assina as tracks “Los Mundos” e “Bombas”, parte da coletânea de Vários Artistas Vol. 2, do selo Discos Pato Carlos. Outra produtora a figurar na trilha é Perrelli com os vocais de Sausmikat em “Complexcidade”, faixa de uma compilação Vários Artistas do selo gaúcho Goma Rec.

“Esse foi um trabalho muito especial e ajudou cada um da equipe no seu próprio processo de entendimento e desconstrução sobre gênero e vivências; e tudo foi feito em conjunto com a Valenttina, que participou desde a etapa do roteiro até a de lançamento” – Luís Meneguetti (diretor)

Quem estiver a fim de ouvir um som da Valenttina após vê-la na tela, pode conferir o set que será transmitido no sábado 7/11, na Beat Party com Maricas, conforme Valenttina respondeu quando questionada sobre a agenda de DJ. “Estou bem animada. Fora essa data, eu estou dando mais foco na minha carreira de modelo, é a área em que está rolando mais trampo na quarentena. Também estou gravando bastante mix e é isso”.

O filme faz parte de um projeto maior sobre a cena underground de música eletrônica de São Paulo. A intenção é contar histórias de diversos expoentes das festas que têm utilizado a expressão artística para levar às pistas discussões a respeito de temas como sexualidade, racismo, misoginia, homofobia, transfobia, entre outros.

Minidocumentário Valenttina Luz

Direção e produção: Luís Meneguetti
Roteiro: Luís e Valenttina Luz
Concepção: Marcelo Goraieb
Direção de fotografia: Rodrigo Prata
Montagem: Júnior Scoz e Luís Meneguetti
Assistente de direção: Fernando Quintais
Assistente de produção: Marília Apolônio
Colorização: Rodrigo Prata
Material gráfico: Luzco
Tratamento de Som: Pedro Vituri
Operação de câmera: Rodrigo Prata, Luís Menegueti e Fernando Quintais
Maquiagem: Andrey Batista
Apoio: Ui! Gafas

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