Velhos, novos e novíssimos caminhos do jornalismo musical brasileiro

Seis representantes de diferentes gerações da profissão dividem seus pontos de vista sobre o futuro do ofício

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Fotos: Capa do disco que comemorava a 300ª edição da revista inglesa MOJO

Nunca foi tão fácil ouvir música. O que faz acreditar, inevitavelmente, que nunca se ouviu tanta música. Com Spotify, YouTube e demais facilidades tecnológicas, é difícil crer que rodas de amigos não promovam pelo menos alguma(s) conversa(s) iniciadas com “ouviu aquela música?”, “você viu que saiu aquele disco?” Portanto, é bastante provável que também nunca se tenha conversado tanto sobre música. O incentivo máximo (e o problema) para o jornalismo musical é a amplitude semântica da palavra “conversa”. A princípio, ele é o responsável por elevar as conversas sobre música ao status de informação e de assunto público – noticiando, opinando, fazendo entrevistas e curadorias, analisando impactos culturais e políticos. Observando as formas com que a música capta o espírito dos tempos. No entanto, desde a primeira edição da Bizz, em 1985, isso mudou e muito.

Serviços de streaming que tornam desnecessários os downloads – que já haviam feito o mesmo com as lojas de disco –, playlists que concorrem com álbuns, um caminhão de singles que substitui o disco, lives e stories que servem como entrevistas, vídeos de “react” que tomam o lugar da crítica. Tudo isso sob o pano de fundo imperioso das redes sociais, onde opiniões e tribunais correm soltos também quando o assunto é música. Onde entra o jornalismo musical?

Conversei com seis representantes de diferentes gerações do jornalismo musical brasileiro em busca não de respostas, mas de caminhos. De caminhos rumo a algum horizonte – seja animador ou desesperador. E da mesma maneira que a arte é, por excelência, lugar de debate, os meios, as motivações e as abordagens para falar sobre ela também o são.

A internet: um aliado, um inimigo ou os dois?

“A internet certamente transformou a música em algo banal. Com a possibilidade de você baixar tudo e, depois, nem mais precisar baixar para ouvir tudo, a música perdeu um tanto de sua aura. Ninguém nunca mais passará meses juntando dinheiro para comprar um disco cuja música é desconhecida. Perdeu-se o mistério, a fantasia; ficou o fetiche. Isso, naturalmente, tira a importância do jornalismo musical feito como no passado: quando o cara comprava uma revista, lia 30 resenhas, 20 entrevistas. Havia um esforço muito grande a ser feito por quem quisesse conhecer música. E o jornalismo musical casa muito melhor com o espírito daquela época. Hoje, esses sites, blogs, reacts e etc são muito bons para quem está restrito a um nicho. É verdade que esses outros veículos também funcionam para abordar o que é tendência, criar polêmica e fazer uma certa triagem curatorial, coisas que o ‘jornalismo de outrora’ também entregava. Mas, teve uma parte relevante da filtragem que se perdeu simplesmente porque o consumo dentro do universo musical mudou demais” – José Flávio Júnior Entre 2012 e 2015, foi editor da revista Billboard Brasil, além de ter publicado críticas e reportagens em BIZZ, Veja São Paulo, Folha de S.Paulo, Estadão, Bravo! e integrado o conselho artístico da Oi FM

“As coisas precisam ser mais rápidas e isso te dá menos espaço e tempo para pensar a respeito das coisas, mas elas ficaram muito mais fáceis. Quando eu comecei a escrever sobre música, a internet já ia bem, pirataria bombando, não existia streaming. Mas eu ia fazer uma entrevista e baixava a discografia dois dias antes para conseguir fazer, ouvir todos os discos e daí partir para fazer a matéria. Hoje a gente consegue isso no celular, a caminho da redação por exemplo. E é mais fácil você ler os artigos que já saíram sobre determinada banda da qual você vai falar. Eu acho que facilitou e muito, mas deixou a gente um pouco mais preguiçoso também. Na preguiça e na facilidade da internet, a gente sabe como encontrar a informação. Mas ficou mais fácil de você ser lido. Antes você precisava ser contratado por um jornal para conseguir publicar uma resenha. Hoje você não precisa passar por isso. Você pode fazer num stories, numa thread do Twitter, é muito mais fácil ter o acesso à informação e soltar a sua informação” – Pedro Antunes Repórter de cultura do Estadão por quatro anos e atualmente é editor da Rolling Stone Brasil, onde já havia atuado anteriormente como repórter

Quem transforma discos e música em cultura é a imprensa – Ricardo Alexandre

“Depende do entendimento do que é bom jornalismo musical. Se é informação, eu acho que sim, a internet é um grande aliado, ela dá velocidade e multiplicidade. Tem a agilidade do próprio artista entrar em contato com público. O público está em contato com as fontes primárias da informação. A multiplicidade é, por exemplo, um disco ser analisado de dezenas de pontos de vista diferentes. Agora… Isso não resume o meu entendimento de bom jornalismo musical. Desde a década de 1960, houve uma construção, que durou pelo menos 20, 30 anos, do que se convencionou chamar de “jornalismo de rock”, criado ali pela Rolling Stone, Cream e a NME, que abraçou essa escola. Que traziam um olhar mais inteligente de mais prospecção, investigação e mais literatura, mais cuidado. Uma inteligência quase filosófica de abordar a produção musical e isso requer tempo, dinheiro, equipe… Isso requer uma série de ferramentas que os veículos não têm mais” – Ricardo Alexandre Editor da Bizz entre 2004 e 2007, já colaborou com veículos como Superinteressante, Época, Carta Capital, Revista MTV, entre outros. É autor dos livros Nem Vem que Não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal e Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar

“Vejo muito mais vantagens do que desvantagens. Sinto que se não fosse a internet eu não teria tido muitas das oportunidades que tive na minha carreira. É muito mais fácil angariar leitores que curtam ler sobre o assunto que você está escrevendo, também é mais fácil expressar suas opiniões e pensamentos como jornalista mesmo que elas não sejam necessariamente dentro de um texto, mas em alguma rede social, por exemplo. Acho que isso cria uma conexão maior com o leitor, que talvez hoje procure uma experiência mais de identificação com o jornalista. Além disso, há as vantagens óbvias: poder clicar em um link e ter acesso à música da qual o repórter está falando e poder contar histórias em outros formatos” – Amanda Cavalcanti Repórter da VICE entre 2015 e 2019 e atualmente escreve no segmento musical do UOL

“Ainda tá em fase de teste, a gente ainda não sacou como funcionam algumas certezas do passado. Crítica de show, por exemplo, que antes tinha valor de registro, talvez seja uma coisa meio ultrapassada, porque essa cobertura pode ser feita de muitas outras formas nas redes sociais. Mas o relato, a opinião de quem assistiu ao show continua importante. É um embate que ainda continua. A mesma coisa com hard News. Todo mundo dar notinha com ‘veja o clipe abaixo’ sobre um lançamento tem um efeito pouco jornalístico e bem efêmero. Então ainda persiste esse ‘bate cabeça’ entre o que é necessário ou não jornalisticamente falando.” – Lucas Brêda Repórter da Rolling Stone Brasil entre 2015 e 2018 e atualmente é repórter da Folha de S.Paulo

“Sempre difícil dizer sem ter vivido o outro lado, mas acho possível seguir o senso comum neste caso e dizer que as facilidades são maiores hoje em dia. O acesso às obras em formato digital, à compra de ingressos para eventos físicos, a opiniões e análises do mundo todo, além da democratização das plataformas de publicação desse jornalismo cultural nunca estiveram tão facilmente na mão de todos. A questão é que a mudança estrutural vem acompanhada de uma ressignificação do papel do jornalismo, ou pelo menos de uma necessidade de adaptação por parte do jornalista na tentativa de entender as novas formas de consumo de informação e opinião.” – Lucas Repullo Fundador e Diretor Criativo da Monkeybuzz

“Questão de opinião”: quanto vale uma crítica?

“Não sei mais o quanto, na prática, esse peso é muito grande se considerarmos um impacto direto no público, principalmente no Brasil. A popularização da curadoria feita pelos serviços de streaming substituiu quase que por completo – para a maior parte das pessoas – o papel do crítico como curador. Creio que, se ainda existe uma influência real da crítica, é nichada ou é apenas um elo pequeno de uma cadeia de influência que vai da opinião do crítico para a curadoria de um selo, de um produtor de shows ou, em alguns casos, de impacto no próprio artista. Mesmo assim, em tempos em que as referências, influências e caminhos estilísticos são mais variados do que nunca e, principalmente, em que a arte como forma de se fazer política se faz tão necessária, ter opiniões bem fundamentadas sobre essa produção é essencial.” (LR)

“Varia muito. Se você joga luz sobre a obra de uma artista ‘pequeno’ e faz com que as pessoas prestem atenção, você tá fazendo um trabalho muito importante. Uma crítica em um veículo grande que impulsione a carreira de alguém, conseguindo até um circuito SESC, um edital, vender o trabalho para uma empresa, isso é forte. A imprensa ainda tem a função de ‘validar’ um artista, convencer alguém que aquilo é, sim, interessante.” (LB)

“Isso é muito geracional, eu acho que essa noção de que há muitas verdades e todas elas são equivalentes, é uma coisa que tem a ver com pós modernidade, Bauman, aquela coisa toda lá. Não há absolutos. Do meu tabladinho, eu costumo dizer é que há absolutos, mas a tolerância consiste em entender que as outras pessoas têm outros absolutos. Como isso se aplica em termos de música, ao jornalismo cultural? Há coisas bem-feitas e há coisas malfeitas. Há réguas para medir virtudes da arte ou o quanto a arte é inovadora, o quanto ela é bem-feita que são absolutas. A função da crítica musical e do jornalista é conseguir trafegar na área do valor estético e também do valor técnico. A relevância política, social, comportamental, artística. E preservar o direito de alguém ter seu próprio gosto.“ (RA)

“Na época da BIZZ, da Ilustrada forte, da Vejinha forte, uma crítica que pegasse na veia lotava ou esvaziava um show. Carimbava um selo no disco novo do artista. Em último caso, acabava com uma carreira ou transformava um merdão em mito. Hoje, obviamente, não sobrou nada disso. Há uma profusão de canais e poucos ouvidos sensíveis a uma análise crítica. Ou seja, uma crítica hoje em dia não vale nada. No máximo, eleva um ego de artista. Sempre tentei trazer muitas informações para a análise, porque ao menos ficava parecendo uma opinião embasadinha. Fazer esse ninho intelectual, um cafofo de fatos e dados que justifiquem a opinião. Isso aí já nos deu tchau. E não vai mais voltar.” (JFJ)

O jornalismo musical nunca é prioridade nas redações, então as inovações nunca vão atingi-lo de cara – Amanda Cavalcanti

“A rede social coloca todo mundo em xeque. Ao assinar uma crítica, assim, ‘mais oficial’, você também é alvo de todas as pessoas que discordam. Quando existia só jornal, no máximo era uma cartinha, etc. O jornalismo musical passa por um problema da mistura entre ser fã e ser crítico. Da essência do que é ser crítico. É comum você ver coisas tipo ‘Listas dos melhores shows que vi no Lollapalooza’. Normalmente são as bandas que a pessoa gosta, mas em termos técnicos, de referência, de entrega, de estética, estes, de fato, foram os melhores shows? E, antes, a crítica também tinha a função de ‘compro ou não compro esse álbum?’, agora o valor é menor, serve para o artista quando é positiva. A crítica tem pouquíssimo valor nesse sentido, porque todo mundo tem direito a ‘fazer sua crítica’. Agora é mais possível fazer com que sua opinião ganhe o mundo, agora qualquer um tem a possibilidade de colocar sua opinião como quiser. Não vejo a crítica como algo muito valioso mais.” (PA)

“A internet criou uma hipervalorização da crítica, mas não da parte de quem lê, e sim da parte de quem escreve. Agora que todo mundo pode dar sua própria opinião muito mais facilmente em um site ou blog ou rede social ou canal do YouTube, o que seja, isso ficou muito mais atrativo do que correr atrás de uma entrevista ou pesquisa mais profunda. Eu não acho isso de todo o mal, na verdade, valorizo muito a crítica, mas acho que crítica e informação têm que andar de mãos dadas em todos os momentos. E tem uma questão mais delicada que é a crítica depender muito do crítico. Dificilmente, eu vou me animar para ler uma resenha de algum jornalista cujo nome e trabalho eu não conheço. A opinião daquela pessoa importará para mim se eu souber quem ela é, o que ela já escreveu, para onde ela já trabalhou. Mas, o crítico tem que começar de algum lugar de qualquer maneira, então acho importante incorporar sua opinião no seu trampo desde o começo.” (AC)

Em um mundo de Wikipedia e Google, qual é a curiosidade dos leitores?

“Acho que existe muita curiosidade, sim. Nunca se consumiu tanta informação quanto hoje. A real é que muita informação consumida vem direto da fonte. Então, às vezes, o próprio rapper postou que ele vai fazer um feat com ciclano direto no Instagram e todo mundo fica sabendo, eu não preciso publicar. Então a curiosidade funciona menos com informações muito objetivas e imediatas e mais com como as coisas se conectam, panoramas de cenas e trabalhos, detalhes que ninguém percebeu. Talvez a percepção do jornalista, hoje, desperte mais curiosidade do que informações objetivas as quais todos têm acesso.” (AC)

“A gente tem uma vantagem que a Wikipedia e o Genius não têm, que é a capacidade de ligar pontos. Uma coisa é você ter a informação pura e crua, mas agora como você liga os pontos? Temos uma audiência boa de quando se liga pontos e se cria uma narrativa. Tipo a ‘A história do Fleetwood Mac gastar 5 milhões em pó e se tornar a maior banda do mundo ao mesmo tempo’. Isso as pessoas querem saber, pode ter em 3 linhas na Wikipedia, mas a gente traz o contexto, a bagagem. As pessoas ainda precisam de informação, mas agora de informação aprofundada, com mais análise do que a pura informação, como vem na Wikipedia.” (PA)

“Me parece que tem muito mais gente ouvindo música hoje e hoje é muito mais fácil ter acesso a raridades e lançamentos do que jamais foi. Não há mais tesouros perdidos que não possam ser encontrados. Mas, por outro lado, isso não significa atribuição de valor cultural para aquilo e o papel da boa imprensa musical é atribuir valor cultural para a produção que alguns acham que é meramente mercadológica, as gravadoras, e outros acham que é meramente passional, que são os artistas. Quem transforma discos e música em cultura é a imprensa. Por outro lado, o público não tem mais essa ingenuidade em relação ao ídolo como tinha. Salvo artistas celebridades, como Anitta, Pabllo Vittar e tal, mas eu não vejo muito esse comportamento mais hoje em dia. Mas pode ser que eu não veja mais por miopia mesmo.” (RA)

O futuro não depende do jornalista, depende mais do público e dos patrões. Mas, eu vou falar do que eu gostaria que ele fosse: mais informativo – Lucas Brêda

“Eu fui o responsável por essa parte [Seção de Cartas] da revista Bizz por um tempo. Muitas respostas do tipo [Discografias de bandas, nomes de integrantes] foram dadas consultando enciclopédias de música, tipo a versão física do All Music Guide, que pouca gente conseguia comprar e era o item mais folheado da redação. Com a chegada da internet, isso mudou demais. Mas os leitores ainda queriam o filtro do jornalista, que era uma garantia de que a informação estava certa. Era ser o Google antes do Google – depois, ser a checagem do Google. Cara, havia fã-clube, gente que trocava informação por carta, fanzine de papel… A informação era mais valorizada porque era escassa. Na fartura, as pessoas relaxam. É do ser humano, esse vagal, ‘forgado’, bunda mole.” (JFJ)

“Minha sensação é que a parcela de fãs de música que se manteve consumindo jornalismo busca duas coisas. Um contato com o artista, que por mais que haja redes sociais, ainda acontece de uma forma diferente em uma entrevista, e busca a opinião de alguém que na pior das hipóteses ouve mais música há mais tempo do que ele e tem a reflexão sobre música como profissão.” (LR)

“Eu acho melhor que o jornalismo fique com o papel dele, de jornalismo. Curiosidade é claro que o leitor tem, se você fala “o Gilberto Gil e o Quincy Jones estão gravando disco”, quem não tem interesse nisso? A curiosidade das pessoas está aguçadíssima. O interesse está mais focado no que o jornalismo é mesmo. Todo mundo é fã de alguém e quer ouvir o que seus ídolos têm a dizer. Um exemplo disso é o Tiago Iorc, ele ficou 1 ano fora, parece que ele ficou 8. Gerou um barulho, os fãs ficaram curiosos. Na gringa, qualquer entrevista do Frank Ocean repercute, querem saber o que ele pensa. No Instagram, é sempre a imagem publicitária, a parte do jornalismo é tentar ir além disso. Hoje em dia, eu acho que a curiosidade envolve outras coisas também, você quer saber se seu ídolo é bolsominion ou petista, se ele apoia o Brexit ou não. Aspas políticas viralizam, as pessoas querem saber, discordar ou concordar.” (LB)

Playlist, single ou… Álbum?

“O álbum traz um retorno menor para o artista do que 3 EPs, por exemplo. Em vez de você fazer um filme, você faz uma série de 4 episódios. A gente, old school, ouvidores de álbum, fica preso ao conceito do álbum, e produzir arte também tem a ver com se transformar de acordo com o mundo em que a gente vive. Adoro discos e conceitos, mas a gente precisa trazê-los ao mundo digital e do streaming. O trabalho pode ainda ter o conceito inteiro por trás, mas talvez vá parar na playlist de Música Pra Ouvir No Banho. Então, é preciso saber se comunicar com esse mundo, senão você não vai ser ouvido direito.” (PA)

“Com certeza [o álbum] é dono de um lugar sagrado! A imprensa como um todo é totalmente dependente de lançamentos em formato álbum para levar um artista em consideração. Já vi isso rolar um milhão de vezes: artista com alguns anos de carreira, muitos singles lançados, alguns que até mesmo fizeram barulho e tiveram repercussão do público, lança um disco e lá está na capa do jornal, ‘Fulano lança seu disco de estreia’. Finalmente fulano é importante o bastante para aparecer na capa do jornal. É engraçado porque eu acho que investir em singles, do ponto de vista comercial e de atenção do público, é realmente muito mais viável para alguns artistas hoje, principalmente os de música extremamente popular: sertanejo, funk etc. Mas infelizmente, como quase sempre acontece, a imprensa ainda não acompanhou a mudança na indústria.” (AC)

Ou seja, uma crítica hoje em dia não vale nada. No máximo, eleva um ego de artista – José Flávio Júnior

“O jornalista não lida com a música. Ele lida com a estética, com o aspecto cultural daquilo. Tem muita música boa que não é bom produto de mídia, não é bom produto de comunicação. Ao mesmo tempo tem muita música bizarra, curiosa, que é. Essa diferenciação é importante. E eu acho que essa filigrana se perdeu um pouco com o esvaziamento da importância da imprensa. Eu não acho que isso se deve ao fato de ser single ou álbum, eu nem acho que mais que seja a música gravada a moeda do artista. A gente vive em um universo onde o show, uma série de tv são outros suportes importantes para o artista se manifestar.” (RA)

“Acredito que nada é sagrado. O conceito de álbum vai continuar sendo importante enquanto artistas continuarem pensando na sua produção neste formato, o que ainda acontece muito. O papel do crítico, assim como o do jornalismo, deve ser buscar e entender, caso a caso, onde começa e onde termina uma obra e se ela vale ou não ser analisada segmentada ou por inteiro.” (LR)

“As pessoas ouviam rádio como antigamente? O rádio era uma grande playlist, com uma curadoria ‘pior’ ainda, porque você nem sabia o que vinha depois. Não foi agora que o single virou ‘A’ grande coisa. E o formato álbum continua forte, continua sagrado. O que muda é o acesso. É óbvio que os serviços de streaming quebraram com o sonho da nossa geração, a do download, você possuía aquela coisa e não pagava por ela. A gente saqueava legal a internet e era uma delícia fazer isso. Hoje em dia não tem mais. Você pega emprestado do Spotify, do YouTube, e devolve. Mas o single sempre existiu. A história da música ultrapopular é contada por singles, mas o álbum segue bem vivo. Eu acho uma visão meio romantizada a de que o ‘álbum morreu’.” (LB)

De onde viemos e para onde vamos: como o jornalismo musical pode sobreviver à era digital?

“Não pode. Não vai. O que sobrou são esses meios de se fazer curadoria, via playlists e tal. Ainda há boas análises, boas entrevistas com músicos, mas é para nicho e para velhotes – e o segundo grupo será dizimado pelo inefável curso da vida.” (JFJ)

“O futuro não depende do jornalista, depende mais do público e dos patrões. Mas, eu vou falar do que eu gostaria que ele fosse: mais informativo. Porque opinião todo mundo tem, é muito legal discutir, mas informação é como você constrói a história. A análise é um segundo passo, não existe sem a informação. Opinião é fluida. Tem que ter opinião, mas tem que saber que ela muda. A gente pode rever várias obras de outros jeitos. A informação é imutável e necessária. Se o jornalismo musical abandonar esse lado e virar essa cobertura cultural de gente dando opinião sobre todas as coisas, acho que vai se perder, ficar improdutivo.” (LB)

“Estamos em uma fase de testes. Aqui tudo é mais complicado e escasso: recursos, estrutura, mão de obra (não que sejam poucas as pessoas qualificadas, mas as vagas são). Por um lado, eu acho que isso até obriga o jornalista a ser mais criativo para trabalhar com o pouco que ele tem em mãos, mas obviamente não é o melhor dos cenários. Há coisas muito interessantes sendo feitas, mas ainda há muito a ser explorado em outros formatos, podcasts, infográficos. E o jornalismo musical nunca é prioridade nas redações, então as inovações nunca vão atingi-lo de cara, acredito. Se ainda estamos em fase de testes de novos formatos no jornalismo brasileiro como um todo, eles demorarão ainda mais para se consolidar no jornalismo musical.” (AC)

“Até o começo deste século, ainda era fácil enxergar o papel do jornalismo musical como intermediário necessário entre o artista e o público. Com as redes sociais e os serviços de streaming, ele anda um passo para frente nesta cadeia e passa a ter mais importância após a descoberta da música pelo público, só que desta vez influenciando como ouvir e não mais o que ouvir. A partir daí, a importância de reportagens informativas sobre o passado de alguns estilos ou sobre acontecimentos que influenciaram a criação artística de hoje se faz tão importante quanto o lado mais opinativo do jornalismo que vai buscar estimular reflexões mais profundas sobre o que se ouve.” (LR)

“O jornalismo demorou para entender a transição, não é por acaso que existe assessoria que ainda leva mais em consideração uma nota pequena num jornal do que um perfil bacana num site. Artistas também estão entendendo que eles precisam fracionar o conteúdo para os fãs, não adianta mais ser ‘à moda antiga’ – ficar 1 ano no estúdio, criando conceitos, etc. Eles sabem que tem que estar nas redes das pessoas, perto do público, soltando material e isso afeta diretamente o jornalismo. Estamos em um campo nublado, difícil de compreender. Mas as coisas estão mais fáceis, não ficamos mais presos ao papel e estamos em todos os lugares. O segredo do jornalista hoje é saber colocar o seu conteúdo onde as pessoas estão.” (PA)

”Não sei, bicho. Eu tento pensar nessa questão embaixo do grande guarda-chuva do futuro do jornalismo e do futuro do jornalismo profissional. Continuo acreditando no valor do conteúdo bem apurado, bem escrito e bem editado. Independentemente se a gente vai chamar isso de jornalismo ou não. Vivemos num período de grandes indefinições e eu acho que jornalismo musical está embaixo dessas indefinições. No lombo do jornalismo musical aparecem outras indefinições: o papel da música na sociedade de hoje. Que é muito diferente do papel da música nos anos 60, 70. Onde ela centralizava as pirações políticas, sociais, sexuais e geracionais mesmo. Indefinições somadas, eu quero crer que há espaço e que há pessoas interessadas em remunerar essa atividade, mas eu espero alguém mais empreendedor, mais jovem e mais esperto do que eu para dar essas respostas.” (RA)

Balaclava: o papel da resistência

Como selo e produtora de shows, a Balaclava Records está na praça desde 2012. Integrantes do Single Parents, Fernando Dotta e Rafael Farah buscavam oportunidades de apresentar seu som por aí. A iniciativa foi adiante e se tornou um festival semestral, uma casa de shows (O Breve, na Pompeia) e uma revista impressa. A ideia de uma publicação que falasse de música foi desenvolvida por Isabela Yu que, em 2017, entregou um TCC em formato de revista de música, e por Heloísa Cleaver, que já trabalhava na Balaclava, após desenvolver um projeto de comunicação para o selo como conclusão da faculdade de relações públicas.

“Ao mesmo tempo em que as grandes editoras estão em crise, como a situação lamentável da Abril, novas publicações surgem o tempo todo. Acho que é um momento interessante de repensar formatos de distribuição e captação”, conta Yu. Segundo ela, a revista, que já ganhou quatro edições – uma por semestre desde 2017 – é um projeto em desenvolvimento que é movido por uma paixão pelo formato impresso. “O interesse pelo impresso não desapareceu, seja dos leitores ou das pessoas que produzem – fotógrafos, jornalistas, designers, até mesmo os artistas retratados.”

A dinâmica da Balaclava, ao mesmo tempo em que se escora em uma mídia tradicional, a impressa, é alinhada ao mundo moderno em design, pautas, estética e preço: ela é gratuita. As formas encontradas para sustentar a revista são baseadas em eventos para arrecadar fundos desde festas com bar e venda de merchan ao próprio Balaclava Fest, além de patrocinadores com anúncios ao modo clássico. “É um jeito muito pontual de cobrir despesas específicas de produção, como fotos e texto. Também pensamos em pautas conjuntas e maneiras de atrelar os patrocinadores de uma maneira 360 com festival, redes sociais e revista.” A internet, portanto, é um fator essencial para que a revista seja impressa, uma vez que os eventos que pagam o projeto são amplamente divulgados pela web.

“O mercado pede que as marcas sejam 360 em linguagens e conteúdo. A Balaclava essencialmente é uma produtora de eventos, então as redes sociais são ferramentas diárias para as pessoas se informarem sobre os shows. Outro fator importante é o nosso público, que nasceu e vive online. No Instagram, a maior parte dos seguidores tem de 18 a 34 anos”, aponta. Ela também lembra que a persistência de um jornalismo independente – e gratuito – é fundamental em meio à força da grande mídia. “Precisa existir para falarmos sobre outros pontos de vista e sobre outras pessoas.”

Antenada ao underground, mas de olho (também) no mainstream, a revista já publicou matérias com Marcelo D2, Bk’, Letrux, Sharon Von Etten, Thiago Pethit, Daughters, Beach Fossils, Hinds, Warpaint, Japanese Breakfest, entre outros. “Gostamos de entrevistas, na revista você sempre vai encontrar um ping pong ou perfil com algum músico. Curiosidade é essencial”. As pautas, abordagens e ideias – como histórias em quadrinho, manuais e textos “mais livres”–, segundo ela, aparecem da própria paixão por querer saber de música. “Parece que você está sempre ligado, seja dando um scroll no feed ou lendo um zine. Vai que você encontra algo massa.”

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