“Ventura”: Clássico Pessoal

Terceiro álbum do quarteto Los Hermanos completa dez anos de seu lançamento sem perder seu posto de “voz de toda uma geração”

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Discutir o que faz uma obra ser “clássica” é o tipo de debate que aquece rodas de estudiosos de qualquer vertente artística, uma coisa meio time de futebol, religião ou partido político. Cada um tem certeza que sua definição é mais do que correta e acima das outras. Não vim aqui para debater qualquer uma das já consagradas teorias, mas para apenas propor esta perspectiva: Ventura, o terceiro álbum da banda Los Hermanos é o maior clássico que nossa geração já viu, porque – mesmo se sua convicção do que o termo significa não te deixar concordar com a afirmação – a quantidade de ouvintes que se relacionam de forma íntima com o disco pode coloca-lo em uma nova categoria: “Clássico pessoal”.

Quando ele foi lançado, há uma década, serviu para suprir uma certa carência que o público brasileiro tinha de se identificar com uma banda que cantasse sobre temas mais próximos e intimistas do que os jargões românticos que o Pop Rock produzia em massa. A necessidade era a de algo como o que Legião Urbana proporcionou à geração anterior, mas, obviamente, contextualizada ao novo jovem. E esse cara ouvia The Strokes e Interpol, por exemplo, mas também foi criado ouvindo Chico Buarque, Roberto Carlos e/ou qualquer outro nome desses que qualquer brasileiro conhece, mesmo que não se dê conta. Ventura é diferente de seus antecessores, mas é também um passo natural daquela musicalidade que estava sendo construída justamente na direção de englobar tudo isso. É Rock, mas também é MPB.

Enquanto Samba a Dois inaugura a obra com o que parece ser um exercício metalinguístico (“Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba, quem se atreve a me dizer?”), um ouvido um pouco mais atento já percebe que aquele fator “pessoal” do disco já começa ali. Fala de dançar sozinho enquanto se gosta de alguém, meio que manter uma atitude de se virar bem na vida. É a introdução perfeita para uma obra que percorre as vias dessa temática até o fim, além de fazer uma boa ponte com a sonoridade mais sambista dos discos anteriores. A partir daí, começa uma coleção de quinze faixas que causaram dois grandes impactos naquela geração. O primeiro foi em nível cultural, já que diversas bandas se inspiraram nessa brasilidade roqueira e inventiva para compor, um processo que dura até hoje e não deve acabar tão cedo, e o outro foi pessoal para muitos ouvintes, que entenderam melhor o que significa uma reflexão, já que se viam refletidos naquelas músicas e puderam se observar melhor.

Se o tipo de música era considerada “alternativa”, suas letras parecem se destinar a pessoas que também podem ser caracterizadas assim – não como em um nicho ou tribo, mas gente que não se encaixa assim tão bem na maioria (pro grande público, aquelas tais canções do Pop Rock já eram o bastante). É o “Levo a vida devagar pra não faltar amor” e o “Faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz” de O Vencedor, ou o “Achando que sofrer é amar demais” de Tá Bom, versos com uma pegada mais “pé no chão” que uma produção fonográfica muito otimista não contemplava.

A melancolia de Ventura é cotidiana, não circunstancial. Não é um disco de músicas felizes ou tristes, mas de faixas emocionais que contam pequenas narrativas com sentimentos frequentes. Se uma letra é triste, há um certo equilíbrio na maneira com que a história é contada. Por exemplo em A Outra, que dá voz a uma mulher traída sob uma roupagem quase “brega”, ou Do Lado de Dentro, sobre um divórcio, que faz uma espécie de melodrama responsável para, na verdade, minimizar a tristeza da situação. Isso faz com que os estilos apareçam em grande variedade por todo o álbum. A impressão é que o compromisso maior é com cada uma das composições, não com seguir uma linha estética específica – se uma letra pede um tipo de som, é esse o que a banda vai fazer. Um dos grandes trunfos do disco é o de conseguir fazer tantas variações e, ainda assim, ser muito coeso.

Mas o que confere essa unidade a Ventura? Existe sim alguma semelhança temática entre algumas canções (dá para identificar que o personagem central de O Vencedor, Cara Estranho e De Onde Vem a Calma como o mesmo, por exemplo), mas creio que ainda não é isso. O que torna o álbum tão impactante, no fim das contas, é um fator humano muito presente em cada segundo da obra e cada estrofe possibilita algum tipo de identificação. Você não precisa ter passado por todas as situações que estão nas letras para sentir o quanto aquelas emoções são sinceras. Faço questão de repetir: Em uma época em que o Pop Rock era muito leviano e a MPB, muito metida a cerebral, ganhar músicas assim era um verdadeiro presente.

E o resultado são músicas que continuam hoje relevantes para quem ouviu o álbum em 2003 e para a multidão de fãs que o descobriram depois. Pergunte a esses que ouvem o disco há muito tempo se existem músicas que falem melhor de amor do que Último Romance ou Conversa de Botas Batidas – não, não há. Ou pergunte se eles alguma vez já refletiram sobre O Velho e o Moço ou O Pouco que Sobrou e aguarde o sorriso melancólico como resposta.

É difícil pensar em outro disco que carregue tantas faixas que já foram chamadas de “minha música” por alguém. E as pessoas que tanto ouviram e disseminaram Ventura na época do lançamento são as que hoje escutam, vão aos shows e apóiam as bandas que foram tão influenciadas pelo álbum e agora chegou a vez delas fazerem música. Se a altíssima qualidade da obra a insere na história da música, o impacto individual que ela causou nos ouvintes a coloca em um lugar especial em suas histórias de vida.

E é por isso que, não adianta, Ventura será sempre considerado um grande clássico, seja por argumentos sobre seu legado ou por motivos muito pessoais – e contra esses não há discussão.

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ARTISTA: Los Hermanos
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.