Ventura Profana em júbilo

Em “Todo Cuidado É Pouco”, seu primeiro disco, a artista baiana ressalta a necessidade de desfrutar do prazer e do autocuidado para atingir os seus objetivos

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Fotos: Fe Avila

Uma discussão na Lapa e conselhos de amigas foram elementos essenciais para Ventura Profana entender que a melhor forma de não morrer é priorizando o seu bem-estar. A multiartista baiana, cujas andanças passam por Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, sintetiza sua nova fase artística e pessoal em Todo Cuidado É Pouco, seu disco de estreia, lançado em abril deste ano.

Mas Ventura Profana está longe de ser uma artista iniciante. Na música, lançou em 2020 o EP Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor. Nas artes visuais, teve obras expostas em museus e centros culturais, como MASP, Werkstatt Der Kulturen Berlin e Museu de Arte da Pampulha. Na literatura, publicou em 2016 o livro A Cor de Catu. Em um primeiro momento, o lado artístico de Ventura foi aflorado pelas atividades pentecostais da Igreja Batista, frequentada por ela ainda criança por influência familiar. “Eu participava de peças, cuidava dos slides e ganhei o meu primeiro solo no coral quando tinha 15 anos, e foi bababo. A arte se manifesta naquele lugar e a igreja foi um portal onde a criatividade foi se manifestando e se esparramando”.

Um levantamento feito pelo Observatório da Religião e Interseccionalidades (2024), aponta que das 27 capitais brasileiras, 25 tem a maior quantidade de templos religiosos em favelas e zonas periféricas. A religião atua como rede de apoio social e emocional, para além da fé, ao criar um senso de comunidade, pertencimento e ajuda mútua, como aponta a pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva (2024).

Ao entender essa importância, tanto social quanto pessoal, Ventura Profana estabelece a alcunha de pastora e evangelizadora. Já que, enquanto presente na vida religiosa, estava traçando um caminho para isso. Eu consigo acessar uma teologia que costumo chamar de teologia da transmutação, ou seja, uma teologia que, ao invés de escravizar as pessoas espiritualmente, prega sobre a transformação dessa condição de nação escravizada, de nação transfóbica e de nação racista. É importante crer nisso e não contribuir para as separações e para as muralhas que nos afastam”.

A mescla entre o seu fazer artístico e a vivência religiosa esteve presente desde os primeiros trabalhos sonoros da artista. Em Traquejos Pentecostais Para Matar o Senhor, Ventura Profana apresenta referências cristãs para versar, de forma combativa, sobre sua existência. Entre as faixas, está “EU NÃO VOU MORRER”, em que reforça a luta de pessoas trans e travestis pela sobrevivência. Um grito de resistência no país que mais mata pessoas trans e travestis. Porém, foi após um desentendimento na rua que Ventura Profana entendeu que para lutar coletivamente, ela precisa estar bem consigo. “‘Todo Cuidado é Pouco é um álbum lançado indo à mesma guerra que Traquejos, a diferença é como eu escolho lutar. É um disco íntimo em que eu escolhi viver melhor, cuidar de mim, viver em paz, fazer as coisas com tranquilidade e escolhi não me desesperar”.

Em Todo Cuidado É Pouco, a artista ressalta o seu direito ao descanso e a experimentar e aproveitar os prazeres da vida, para além de pensar apenas em como sobreviver. É um processo de apaixonamento e encantamento por si mesma e pela sua história, enquanto, na produção, a pluralidade sonora ganha espaço em meio a um resgate de ritmos baianos.

A narrativa do disco é expandida por um curta apresentando o processo artístico de Ventura, além de enfatizar a importância dos deslocamentos pela estrada e da mescla religiosa para o desenvolvimento de sua arte e de suas percepções. Ela, agora como Abian no Candomblé – nome dado para iniciantes na religião – assina a direção do audiovisual com GG Fákọ̀làdé.

Você é uma multiartista que dialoga com diferentes vertentes. Como a arte surgiu na sua vida e como você entendeu que a pluralidade seria sua linguagem?

Acredito que a arte é inerente à vida. Existe uma programação política e social que afasta os indivíduos desse fazer ou dessa compreensão de que todos nós temos uma sensibilidade de criar, moldar e tecer coisas. Foi a Igreja Batista que me proporcionou as minhas primeiras experiências. Cresci em família ultra evangélica, então há uma redoma. Na minha infância o meu pai ainda não era convertido, então muitas coisas vazavam. Eu escutava, por exemplo, Gilberto Gil, Cidade Negra e Sade, porque meu pai ouvia. Mas, ao mesmo tempo, a igreja era muito sedutora porque havia grupos de teatro, dança e o Ministério de Louvor. Além de ser espectadora, eu era participante. Participava de peças, cuidava dos slides e ganhei o meu primeiro solo no coral aos 15 anos, e foi bababo. A arte se manifesta naquele lugar e a igreja foi um portal onde a criatividade foi se manifestando e se esparramando. Até o momento, obviamente, em que a travestilidade pulsou e se tornou algo inegociável. Por ela ser inegociável, acabei sendo afastada desse lugar, e as questões começaram a ficar complexas. Muitos enxergam um momento de crise como fim, mas, para mim, foi o começo. Ventura Profana passa a existir com esse ímpeto.

A igreja foi um ambiente essencial para o seu desenvolvimento artístico ao mesmo tempo que, em determinado momento, interferiu no seu desenvolvimento pessoal. Como você lida com essa dualidade?

À medida em que a gente vai conhecendo o evangelho baseado verdadeiramente em Jesus, as coisas ficam mais fáceis. Não sinto que há tanta divergência entre as coisas que falo com o que Jesus falava há dois mil anos. É importante ter uma compreensão de quem traduziu os textos bíblicos, quais foram os interesses que conduziram essas traduções e como a religião chega e se manifesta no Brasil. É muito difícil separar o tempo colonial, por exemplo, do tempo cristão, porque um estava servindo ao propósito do outro. Mas, ao mesmo tempo, existe uma memória de uma igreja primitiva, baseada em Jesus, que é revolucionária, leal à natureza, contra as opressões políticas, contra as discriminações e contra os preconceitos. Quando a gente começa a destrinchar isso, entende que existem muitas teologias e que nós somos um país calcado numa teologia de escravidão. Consigo acessar uma teologia que costumo chamar de teologia da transmutação, ou seja, uma teologia que, ao invés de escravizar as pessoas espiritualmente, prega sobre a transformação dessa condição de nação escravizada, de nação transfóbica e de nação racista. É importante crer nisso e não contribuir para as separações e para as muralhas que nos afastam. É importante buscar outra forma de diálogo e de encontro, porque eu acho que a separação não vai nos ajudar.

A própria trajetória evangélica é marcada por figuras que compreenderam e que lutaram por isso. A Harriet Tubman foi uma líder abolicionista que se tornou responsável pela libertação de mais de 700 pessoas. O pastor Martin Luther King Jr. fez um movimento de libertação e de articulação dos direitos civis da população negra numa dinâmica batista. São esses os exemplos que me interessam. O mais importante é entender que Deus não pode ser Senhor, porque senhor é o homem mau, senhor latifundiário, feudal e que escraviza. E Deus é vida e a vida é divina. Conhecer Deus dessa forma ajuda se relacionar com a religião não com medo de ser penalizada, mas pelo prazer.

Em meio a isso, como foi o caminho do EP Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor até a produção do Todo Cuidado É Pouco?

O Traquejos surgiu na rua, nos cultos, nas performances, nas festas, ele surgiu na noite. Ele é fruto de muita tristeza e raiva desse mundo. Muita raiva da transfobia, do racismo, das violências e da precariedade a que pessoas trans são lançadas. Perdi muitas amigas, fui muito violentada e fugi muito da morte. E esse trabalho fala: ‘Você quer guerra? Você vai ter guerra!’. Não vou me calar, não vou esmorecer, não vou me entregar e não vou morrer. É um trabalho que desafia o sistema. Foi um álbum que surgiu durante a pandemia e isso limitou rodar com o disco, mas ele me proporcionou chegar em vários lugares. No meio disso, eu queria me provar em outros lugares, musicalmente falando, provar que sou capaz de navegar entre múltiplos ritmos. Traquejos aconteceu como aconteceu e a vida me levou até esse momento.

Com Todo Cuidado é Pouco, comecei a ter mais autonomia e escolher o que eu realmente quero e gosto em termos de música. Fala sobre a minha própria jornada de vida, é uma grande viagem. A primeira decisão foi de voltar para a Bahia, minha terra natal, e construir sonoridades a partir de tradições musicais baianas. Esse álbum fala que para viver abundantemente, que era algo que eu trazia muito no Traquejos, é importante aprender a cuidar da vida. Não basta só falar “eu não vou morrer”, é importante aprender a cuidar da vida. Enquanto uma pessoa trans e uma pessoa preta, fui treinada a me autodestruir. O principal processo de transformação que passo é esse, em como deixo de ser uma bomba – porque o problema de ser uma bomba é que você até explode o lugar só que você explode junto –, e passo a entender outras formas estratégicas de lutar a mesma guerra. É um álbum lançado indo à mesma guerra que Traquejos, a diferença é como eu escolho lutar. É um disco íntimo em que eu escolhi viver melhor, cuidar de mim, viver em paz, fazer as coisas com tranquilidade e escolhi não me desesperar. A multiplicidade rítmica é fruto disso, dessa própria vida na estrada. Começo a viajar sozinha muito cedo, meu pai me botou em um caminhão com oito anos para sair da Bahia e ir para o Espírito Santo. Essas memórias foram voltando e o álbum foi nascendo.

“Ao ouvir minhas músicas, quero que as pessoas possam sentir coragem, leveza e motivadas a encontrar a melhor versão delas”

Você falou dessa história de ser colocada no caminhão aos oito anos em direção ao Espírito Santo, e você nasceu em Salvador, morou em Catu, depois você foi para o Rio de Janeiro e agora comentou dessa necessidade de resgate também de Salvador. Como essas movimentações te influenciaram?

Obrigada por essa pergunta. Nasci em Salvador, mas logo depois fui morar em Catu, uma cidade na região metropolitana. Com 12 anos, meu pai decidiu ir morar no Rio de Janeiro, justamente para que eu pudesse ter acesso a uma educação melhor. Só que nesse momento, não vou morar com meu pai e com a minha mãe – vou morar com a minha avó no Espírito Santo. Depois, fiquei até os meus 24 anos no Rio e mudei para São Paulo. Morei em Belo Horizonte, Brasília e voltei para Salvador. Vivo meio que peregrinamente na estrada e desde cedo fui treinada a viver na estrada e me adaptar. Teve um momento em que eu odiava ser de Catu, ninguém sabia onde era e eu tinha vergonha disso. Quando completo 18 anos, começo entender a gravidade disso e passo a buscar Catu na minha vida. É nesse momento que eu começo a escrever o meu primeiro livro, que se chama A Cor de Catu, que fala dessas memórias e da minha família. A grande magia do que faço tem a ver com o fato de eu ter vindo desse lugar. E viver na estrada tem um grande conflito, em que você já não pertence mais a nenhum lugar, ao mesmo tempo que pertence a todos eles. Por isso que a estrada é importante e me modificou de forma tão profunda.

“É um disco íntimo em que eu escolhi viver melhor, cuidar de mim, viver em paz, fazer as coisas com tranquilidade e não me desesperar”

Em “Me Deixa Em Paz”, você fala “Não só para guerra, eu vivo também para sentir prazer”. E em “Exu Em Mim”, você fala muito sobre a necessidade de se voltar para si e para as suas necessidades, ressaltado pelo trecho “Preciso cuidar, preciso cuidar de mim”. Como está sendo esse momento de se permitir a esses sentimentos mais leves? E quando você entendeu que precisava se acolher dessa forma?

Uma vez eu me vi no meio de uma briga na Lapa, no Rio, e eu levei um chute na mandíbula que a deslocou. Nessa época, eu estava bem brigona e combativa. Depois desse dia, eu fiquei uma semana com a mandíbula inchada e uma amiga foi me visitar. Ela me disse que eu era muito burra porque se eu morresse, não ia mudar a vida de ninguém. Que essa história de ser um mártir era furada e que os meus precisavam de mim viva. Quando ela me falou isso, virou uma chave. Fui percebendo que não quero que meu trabalho seja reconhecido como algo pesado na vida das pessoas, quero que, ao ouvir minhas músicas, as pessoas possam sentir coragem, leveza e motivadas a encontrar a melhor versão delas. Uma forma mais gostosa, sensual e erótica de encarar a vida. Eu tive o meu direito ao prazer negado por vários anos e por várias razões. As minhas relações afetivas sempre aconteceram nas periferias dos afetos e o meu direito ao gozo era negado. Eu estava sempre na posição de serviçal e servia ao prazer do outro, mas não recebia em troca. Para mim, gozo é glória, quem tem direito ao prazer, é glorioso, e eu comecei a desejar isso. Eu também quero sentir glória e gozar gostoso. Quero trabalhar com prazer, não quero sofrer, não quero morrer por conta do meu trabalho e por conta da minha arte, como muitos morreram. Quero que o meu trabalho me edifique e me alegre. Isso foi um pacto que fui fazendo comigo e com a minha equipe. Sinto que isso é respeitar a nossa divindade.

Como surgiu a ideia da capa do álbum?

A imagem é muito importante para mim. Para essa, eu me muni de boas companhias. Ela é fruto da colaboração com Labo Young, uma bicha paraense, que desenvolve esse trabalho de tecer com folhas e plantas. É uma bicha que me ensina muito sobre como viver em sintonia com a floresta e a abundância da própria vida e da natureza. A fotografia é por Fe Ávila, que fotografa analogicamente e tem um trabalho de registro que eu amo. Fotografamos no meio da gravação do filme que conta das mitologias por trás do álbum. Isso aconteceu na ilha de Itaparica, um lugar sagrado conhecido pelo culto de Egungun que, grosso modo, traz os mortos à vida. Essa também é uma motivação do nosso trabalho, olhar para a morte não como o fim, mas como outro início. Essa capa e essa foto vêm marcada por isso: pelo exercício de avivar aquilo que parece morto e esquecido.

“À medida em que a gente vai conhecendo o evangelho baseado verdadeiramente em Jesus, as coisas ficam mais fáceis. Não sinto que há tanta divergência entre as coisas que falo com o que Jesus falava há dois mil anos”

No filme, que saiu com o disco, é mostrado o seu processo de renascimento. Da volta ao barro, como prega a filosofia cristã, e a iniciação no candomblé, para chegar na sua nova versão mais autentica e confiante. Como foi esse processo? Porque a sua bisavó era do Candomblé, antes de se converter à Igreja Batista. Como está sendo recuperar esse lado?

No fim das contas, acho que não há necessidade de separar esses dois lugares e que eles podem coexistir. A minha entrada no Candomblé não marca o encerramento da minha história na igreja evangélica. O meu parto foi bem difícil e eu fui puxada pelo fórceps. Quando eles me puxaram, a minha perna entortou e eu fiquei com ela deslocada nos meus primeiros dias de vida. Meus pais contam que foi bem difícil, eu chorava muito porque sentia muita dor e o médico falou que precisaria fazer cirurgia, mas isso em 1993, tudo muito caro. Um dia, minha bisavó, dona Joana de Jesus, untou a minha perna com alho e ervas, rezou e colocou a minha perna no lugar. No outro dia, a minha avó, Margarida, me levou no médico e ele ficou passado tentando entender o que aconteceu. Cresci ouvindo essa história e sendo doutrinada em casa que precisava ser grata à minha bisavó, por conta desse cuidado. Acho que mesmo ela tendo se convertido, o axé não a abandonou, os saberes ancestrais não se afastaram. Sinto que a humanidade coloca as muralhas entre um campo e outro. Eu não separo, creio em tudo muito integrado, mas isso é uma maneira muito particular e tem a ver com a minha própria compreensão.

Tanto no disco quanto no filme, fiquei com a impressão de ser apenas o começo, que nasce uma nova versão sua que vai trazer muitas coisas novas. Para finalizar, o que você vem desejando nessa nova fase?

Amei sua compreensão sobre o trabalho. Sinto mesmo que é um início. A carta do tarô para esse álbum é a carta do louco, que é a primeira carta. Nesse momento, eu pego a minha maleta e me jogo no precipício. Espero conhecer o mundo, ser uma estrela, aprender cada vez mais sobre os mistérios da transmutação, ter uma vida longa, fértil e em segurança. Espero viver um tempo em que artistas pretos, indígenas e travestis não sejam marcados pela precarização dos nossos trabalhos, mas que tenhamos financiamento e recursos para poder sonhar. Quero continuar sonhando com liberdade. E sou ambiciosa, então, de fato, eu desejo viver muito. Esse é o meu primeiro álbum de estúdio e o meu segundo trabalho fonográfico. Quero ter uma carreira tão longa quanto a do Gilberto Gil. Eu desejo vida em abundância, o que eu não desejo só para mim, eu desejo para você, para todo mundo que vai acessar nossa conversa e para todas as pessoas que acessam o meu trabalho.

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