VHOOR: na pegada (e na pesquisa) do Trap e do Funk

O produtor mineiro fala sobre o novo álbum (“Baile & Sauce”), o poder da música eletrônica periférica e a magia sonora criada a partir da união entre os dois gêneros

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Fotos: Camila Alda / Danilo Silva

Você tem orgulho de fazer Funk Proibidão?

Tenho sim.

Por quê?

Porque vem da comunidade, eu me orgulho de tudo que vem da comunidade.

O diálogo acima é parte de um imenso banco de samples que VHOOR tem do que encontra no YouTube e, por via das dúvidas, guarda. A entrevista aparece no final da segunda faixa do disco Baile & Trill (2019), ponto alto da série Baile &…, que esse mês ganha mais um álbum: Baile & Sauce estará disponível no streaming a partir do dia 31 de julho. Victor Hugo, 22 anos, conhecido nas terras do Soundcloud como VHOOR, falou com o Monkeybuzz sobre conhecer seus ídolos, a paixão por música e a química efervescente da mistura entre Funk e Trap.

Em seu home studio – ou também conhecido como quarto, fone de ouvido e notebook –, VHOOR produziu 4 discos: Baile & Beats (2018), Baile & Trill (2019), Acima (2019), em parceria com Sango, e Baile & Vibes (2020). O início de tudo foi despretensioso: há 5 anos, um amigo interessado em produção musical lhe enviou um link de um programa para fazer música. Meio convite, meio recomendação. Curioso, Victor baixou e estudou a plataforma. “Eu faço parte de uma geração global que aprendeu na internet como produzir, não da maneira mais correta ou da maneira mais limpa, mas tirando leite de pedra”, conta por entrevista via vídeo. “A gente inventou uma forma de produzir. Eu com o Trap e o Funk, a galera que faz Trap na gringa, a galera que faz Afro Beat em Portugal, tudo isso vem de pessoas que tem um computador e o desejo de fazer música”.

Mas a afinidade com a área e o empenho de curadoria vêm de muito antes de 2015. A maior referência de Victor, que instigou sua pesquia como VHOOR, é o pai, também músico. Seus pais cantam em barzinhos pela noite de Belo Horizonte – o pai toca violão e a mãe canta. Logo, a casa de Victor Hugo sempre foi muito musical, com Pop Rock e Música Popular Brasileira ecoando nas caixas e nas vozes. “Meu pai é o cara que acha o site de rádio da Itália, coloca e a gente passava o dia todo ouvindo para ver o que tinha de diferente”, relembra VHOOR, que tem ganhado reconhecimento mais fora do país do que no Brasil. Outra brincadeira familiar de infância fundamental se dava com o primo, grande colecionador de CDs: eles passavam o dia inteiro baixando música no Ares e depois brincavam de adivinhar quem era o artista só ouvindo cada faixa – um teste de memória e um ótimo jeito de se estudar música.

A sonoridade do VHOOR encanta pela brincadeira com a profusão de referências contemporâneas de Funk e de Trap. Na linha do tempo, Baile & Beats (2018) foi um começo de estudo, quando ele migrou uma seleção de trabalhos do Soundcloud, que ainda é sua principal plataforma, para o Spotify. O compilado de beats é um trabalho muito atento à forma de samplear e busca inspiração nas escolas do Soul e Rap. Baile & Trill (2019) marca o período em que o Trap explodiu de vez no Brasil, com o Soundcloud inundado por rimas em cima de beats do gênero. O desafio ainda era harmonizar Trap e Funk, mas, a partir dali, “de forma que o beat de Trap pudesse ser um beat de Funk, no sentido em que e um MC de Funk pudesse cantar em um beat de Trap”, Victor explica. Foram dois anos de estudo e produção musical e, como a ideia era trazer o que há de mais puro no Trap e o que há de mais puro no Funk, ele, além de traçar paralelos temáticos, procurava temperar as composições com um teor crítico, “O Trap norte americano falava na época umas coisas mais pesadas, que pareciam muito com o Funk Proibidão daqui. Queria mostrar que isso lá fora era aceito, mas aqui ainda há uma carga de preconceito”.

Com esse trabalho, VHOOR já ganhava repercussão internacional e então veio o impulso decisivo: Acima. Sango abriu um set na Ovo Sound com uma faixa de Victor, os dois começaram a se falar, produziram uma faixa juntos e veio o convite para o projeto. O conceito era acompanhar o movimento do Funk carioca de acelerar o andamento das produções. Após intensa pesquisa, todas as faixas do projeto foram construídas em 150 BPM. “Acima é um norte para minha virada como produtor. O Sango é muito reconhecido como beatmaker e ele me apresentou para toda uma galera como um produtor do Brasil que faz algo na mesma linha que ele, com minhas características próprias. Foi muito legal trabalhar com meu ídolo, ficava com frio na barriga toda vez que chegava um projeto”, conta.

“Meu som só faz sentido em uma perspectiva global quando as pessoas de fora têm esse olhar de que o nosso Funk é um estilo de música eletrônica periférica, como o Dancehall e o Reggaeton já foram”, pondera VHOOR. “Eu sempre desafio a galera do House, Techno a produzir alguma coisa do mesmo jeito que eu faço, não de uma forma mais limpa e higienizada do Funk, produzir um Funk de verdade. Eu sei que na cabeça deles parece uma coisa mais fácil de se fazer, mas o Funk tem suas peculiaridades, as facilidades e as coisas difíceis, eu sei como isso tem que soar.”

Baile & Vibes (2020) é o xodó do produtor musical. De todos os projetos, é o que menos carrega ambições relacionadas a sons contemporâneos e se faz mais como um movimento interno do desenvolvimento de VHOOR como artista. É mais experimental, ousado e particular. E o resultado repercutiu. Ele conta que muitos artistas, MCs e outros produtores, têm entrado em contato para propor parcerias, efeito da versatilidade de Victor Hugo. Ou VHOOR, produtor com samples certeiros guardados na manga, aficionado pelas possibilidades da música eletrônica brasileira e, sobretudo, um pesquisador.

E agora, e o Baile & Sauce (2020)?

Está no processo de finalização, distribuição e arte. Está saindo. Se você gostou do Baile & Trill (2019), ele é quase uma continuação: beats um pouco mais pesados, mas que não fogem do Trap. O Baile & Sauce é isso. Pegar o que o Trap norte americano virou e nosso Trap, juntar com o Funk atual. Tem várias referências do que está acontecendo. É muito legal porque tem muitas vozes femininas, muitas mulheres cantando proibidão, como MC Dricka, MC Dani, que levaram outras características pro Funk de São Paulo – talvez a maior referência do Funk hoje seja a MC Dricka. É muito louco porque eu realmente fui seguindo o que o Trap foi se tornando. Desde o Soulful até agora mais agressivo, a Recayd, o Flacko, Borges, NGC, pegada diferente do Trap, bem única do Brasil essa agressividade, tentei explorar isso ao máximo. Espero que a galera curta bastante.

Ouça “Dela”, faixa de Baile & Sauce, com lançamento marcado para 31 de julho:

Qual foi seu primeiro contato com Funk?

Eu moro na região norte de Belo Horizonte, é uma região periférica e onde aconteciam os bailes funks da cidade. Minha mãe há um tempo foi sócia de um bar que ficava de frente para onde aconteciam os bailes da cidade inteira. Hoje, os bailes de BH são bem na pegada de São Paulo, bem na rua, mas antes os bailes eram em quadras, galpão. Ela tinha um bar de frente, então eu pegava muita referência de Funk, do que eu ouvia, porque ela precisava trabalhar e eu era bem pequeno, então ficava com ela. Eu estudei em escola pública a vida inteira, então era o que meus amigos escutam também. Referência de infância e adolescência é muito Funk.

Qual é a melhor e a pior coisa sobre trabalhar com música eletrônica?

É muito recompensador, porque você precisa apenas do notebook e da sua criatividade, então é uma coisa que me faz muito bem. Sempre falo que eu primeiro produzo pra mim, é quase uma terapia. Eu sou uma pessoa muito ansiosa, então é muito bom eu poder fazer isso onde eu quero. A música eletrônica democratizou muito a forma de criar música no mundo, a internet democratiza muito o acesso para pessoas produzirem música. O lado negativo é o preconceito que a gente ainda tem sobre se é música ou não, e os espaços que a gente consegue ocupar com essa sonoridade. Eu como produtor de música eletrônica – e encaro o Funk também como música eletrônica –, a gente percebe que o público, tanto da música eletrônica quanto da música mais convencional, quando a gente apresenta o Funk ou essas vertentes mais novas, a galera não assimila. A galera está mais acostumada a assimilar House, Techno do que esses novos estilos. A gente está conquistando cada vez mais esse espaço, mas é complicado.

“Eu faço parte de uma geração global que aprendeu na internet como produzir, não da maneira mais correta ou da maneira mais limpa, mas tirando leite de pedra”

Gosto muito da estética da capa desses álbuns, sempre uma cara de analógica. Quem cuida dessa parte visual, direção de arte? 

É o Kramer. A gente tem uma festa em Belo Horizonte que chama Baile Room. Faz dois anos e é o nosso cantinho para experimentar todas essas músicas. A gente toca e começou a dar muito certo, as pessoas vão para ouvir música diferente, é o nosso cantinho de música eletrônica alternativa da cidade. E [as capas] são todas fotos da festa. Todas as pessoas que aparecem são pessoas que estavam nas festas, os fotógrafos são meus amigos, então é muito pessoal, sabe? A foto é exatamente o que representa no álbum: quando foi tirada, provavelmente a música que tava tocando era minha, na festa que a gente faz. É algo muito verdadeiro. A gente nunca passou de mil pessoas numa festa, a gente nunca teve lucro, mas a gente faz para movimentar a cena de música alternativa da cidade. Abri espaço para DJs, produtores musicais daqui mostrarem suas pesquisas. Um dos residentes da Boiler Room já veio em uma Baile Room quando ele estava no Brasil, foi super legal – o cara de Berlim no meio da nossa festa.

Me fala 3 maiores referências de Chill Baile.

Sango, JLZ e DKVPZ.

“Meu som só faz sentido em uma perspectiva global, quando as pessoas de fora têm esse olhar de que o nosso Funk é um estilo de música eletrônica periférica, como o Dancehall e o Reggaeton já foram”

Me fala uma música que você gostaria de ter feito.

Eu sou muito fã de carteirinha do Matheus e do Paulo (DKVPZ). Tem uma música que eles samplearam o acapella da MC Rianny. Eu tive a oportunidade de ouvir esse vocal, tentei fazer alguma coisa, mas olhei e pensei, “puts, está muito fora do tom – incrível, mas não vou conseguir fazer nada”. Lembro até de falar para o JLZ, como começamos a produzir na mesma época, a gente olhava para o DKVPZ e falava “nossa, os meninos estão em outro nível”. Além deles conseguirem usar a acapella como ela é, sem colocar auto tune, nada na voz, a harmonia que eles fizeram na música para usar esse tom que eu não tinha achado, aproveitou tudo. Foi uma maestria. Eu chamei o Matheus no Facebook no dia e perguntei “como? eu tentei” e ele até brincou, disse que estava apaixonado no dia. Eles são incríveis. “De Rajada” eu peguei para referência de muitas músicas minhas e eu sempre falo se ele não tivesse ouvido “De Rajada”, minha música seria outra.

Se você pudesse passar o dia no estúdio com um produtor, quem você escolheria?

Neguim Beats – só ele faz o que ele faz. Hoje, ele não usa mais o baile como ferramenta de trampo dele, mas é referência total de como produzir, entender a música. Teve uma coisa muito louca, há um ano ele lançou há um ano um EP que chama Homenagem ao Chill Baile e marcou eu e o JLZ. Para a gente que começou junto e é muito fã, foi demais.

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ARTISTA: VHOOR