Não me surpreendeu quando Samuel de Saboia, de 27 anos, puxou o vinil de Molhado de Suor (1974), de Alceu Valença, e colocou debaixo do braço. As Noites Estão Cada Dia Mais Claras, disco de estreia do pintor recifense, evoca o rock psicodélico dos primeiros discos de Alceu, especialmente na expressão da voz, nos gritos e gemidos que embalam a exploração sonora de primeira viagem. Eu encontrei o Samuel em uma tarde meio quente, meio fria de maio na Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo, também conhecida como Galeria dos Discos, que pode ser acessada pela Rua Sete de Abril. Samuel pegou o vinil do Alceu na primeira loja em que entramos e levou junto dele mais dois discos de Mitski, Puberty e Bury Me At Make Out Creek, e um do The Lemon Twigs, A Dream Is All We Know.
Samuel é uma presença. Interessado, instigado, a fim. Foi um pouco desconcertante entrevistá-lo porque, logo depois de responder à primeira pergunta, ele emendou: e você, como é o seu processo criativo? É raro conhecer uma pessoa que tenha alcançado o nível de prestígio internacional que ele alcançou tão jovem e não tenha, em algum momento, substituído a sua capacidade de conversar pela habilidade – extremamente difícil – de dar entrevista. Samuel parece dar conta dos dois tranquilamente, como que em uma dança, borrando a fronteira entre uma coisa e a outra. É com olhar castanho cativante que Samuel persegue o mundo, atento, com um genuíno interesse por ouvir, comentar e fazer da vida um grande espetáculo da leveza.
Quando ele pegou o vinil de Molhado de Suor, foi impossível não comentar que eu tinha ouvido muito do Alceu no seu disco. “E tem mesmo, tem uma música que chama ‘Borboleta’ e tá nesse álbum. Eu ouvi essa música quando eu já estava no processo de gravação de As Noites…, mas bateu um, puts, uma sensação de que eu sei fazer isso aí”, disse. “Comecei a fazer isso em cima da letra, assim, dando uns gritos, porque eu sempre tive esses gritos meio de boiadeiro muito dentro de mim, sabe?”.
Apesar de ter crescido em Recife, Samuel passou boa parte da infância e adolescência entre a cidade e o sertão, em viagens para chácaras com a família. Nesse trânsito, os gritos de boiadeiro começaram a tomar parte na formação desse seu jeito expansivo único, que é cosmopolita e menino do mato ao mesmo tempo. “Também tem a prece do boiadeiro, que às vezes a galera tava meio em estado de oração e repetia, aí esses gritos batem como mantra também. Ouvi ‘Borboleta’ e fiquei com essa coisa doideira na cabeça. Aí eu acho que juntou tudo, sabia?”. Samuel interrompeu seu raciocínio para falar com a atendente do caixa, voltou-se para mim e continuou: “Por exemplo, meus pais são pastores e a igreja tem essas horas que é o momento da adoração, que é meio canto livre. Só que a galera começa às vezes a balbuciar, a cantar em loop. Então, para mim, culto é uma jam session total, ainda mais nesse momento da adoração. Oxe, sei lá. Isso eu fazia, eu tinha 12 anos. 12, 13, 14, 15, 16. Muito obrigado, viu? Tchau!” Saímos da primeira loja. Depois de uns passos, Samuel disse: “Eles não sabem que daqui uns dias já vai ter o meu aqui também, né?”, e sorriu.
Pelo corredor esquerdo da galeria, um groove à la James Brown nos guiou para dentro da Medusa Records. Tocava um compacto raríssimo, sem capa, diretamente do Rio de Janeiro que o dono da loja, Flávio, tinha conseguido com um colecionador e pretende relançar. São quatro faixas de uma banda chamada Os Belgas, dos anos 1970. “Oh o teclado, se liga”, anunciou Flávio, empolgado com seu próprio achado como uma criança que tira um tesouro debaixo da cama para mostrar para as visitas. Não é para menos: Flávio conheceu esse disco 20 anos atrás e só esse ano conseguiu um exemplar. Fez a lição de casa: buscou os membros da banda, encontrou o guitarrista e conseguiu liberar o relançamento com uma gravadora. “Eu acabei de lavar o disco porque eu vou fazer a master”, contou. Samuel queria, a todo custo, conseguir deixar seu exemplar reservado, mas a lista da pré-venda ainda não havia começado. “É, então eu vou ter que vir aqui de vez em quando pra escutar”, comentou Samuel. Ele disse para valer, mas a gente riu porque, às vezes, a seriedade de Samuel vem em tom de brincadeira, culpa do sorriso que o artista não economiza. “Cara, muito foda. Eu tô vendo que vocês têm o Goblin, ele é um dos meus compositores favoritos. Ele fez tudo do Dario Argento, né? Fez Demônio, Suspiria. Ele é foda, ele é muito, muito foda. Cara, que absurdo. E, cara, Os Belgas – nunca ouvi falar dessa porra”.

Já amigado com Samuel, Flávio começou a falar mais sobre o trabalho de curadoria da loja. “Eu trabalho com banda obscura dos anos 1970, você entende?”, perguntou. “É minha senha do computador”, arrematou Samuel, que não perde uma. Entre aeroportos, telas, idas, vindas, tintas, check-ins, casas e quartos de hoteis, a ideia de fazer um disco persegue Samuel há pelo menos cinco anos e, não por acaso, tudo começou quando ele ficou na casa de ninguém mais, ninguém menos do que Naná Vasconcelos. “Quando teve a pandemia, eu estava cansado de Europa, tava me fazendo mal pra cabeça. Daí eu vim para Recife e falei com Luiza, que é filha de Naná, eu falei assim: oh, eu preciso de um lugar pqra ficar sozinho, que tenha piano e em que eu consiga pintar. A casa deles estava vazia porque a Luiza se mudou pqra Nova York, aí eu peguei a casa e fiquei morando no quarto do Naná com o piano da Luiza, gravando o álbum inteiro. Acordava de manhã, tomava cogumelo, que ficava um sacão de cogumelo do lado da minha cama, descia e ia pintar e fazer música”.
Mas o disco em que Samuel está trabalhando desde 2020 não é As Noites Estão Cada Dia Mais Claras. Na verdade, As Noites… é o resultado do processo de ensaio e gravação desse disco que deveria ser o disco de estreia de Samuel, mas que foi engavetado para dar lugar a 11 composições novas. O segundo disco já está em gravação e deve sair em breve. Esse processo de 2020 foi retomado em dezembro de 2022, quando Samuel conheceu Zelo, um dos produtores de As Noites… – que assina a grandiosa “Meteoros de Haxixe” –, em uma festa numa casa na Pompeia, em São Paulo, que virou uma jam session de uma semana. “Quando a gente começou as jam sessions era só de amizade, não tinha banda, tinha nada, mas que no fim foi virar a conjunção banda e álbum”, contou Samuel. “Não tinha nada quando aconteceu o ‘Cowboy’ [música que não entrou em As Noites…, mas selou a amizade entre Zelo e Samuel], era a gente e muito haxixe. A mesa de centro da sala virou um cinzeiro enorme e eu acho que tava todo mundo ali meio na sala, assim, era isso. O Zelo puxava os acordes, eu nem sabia tocar violão ainda, mas no que ele puxava, eu começava a cantar em cima”.
“A pintura é um trabalho de criar em expansão dentro de um certo limite de tempo e, no meu caso, tenho uma busca por paisagens, espaços internos e externos, cartões postais — espirituais, mentais e físicos. Minha busca é que essas paisagens tenham um a mais. Não estou atrás de uma criação perfeita, quero desdobrar, ir além da loucura. E a música permite resumir essa investigação em 3, 4 minutos. Minha experiência de pintura me dá capacidade hoje de resumir essa mesma busca em uma canção”
No final do ano passado, Samuel sentiu que precisava concretizar o disco em um show. Sentia ânsia de palco. Queria cantar olhando o rosto das pessoas, como faz quando conversa. Na próxima quinta (5/06), o disco cuja história começa no quarto de Naná Vasconcelos chega à Casa de Francisca. Entre devaneios sobre como seria ser amigo do Cazuza no auge da sua carreira e uma descrição apaixonada sobre a importância de ter controle sobre o que acontece no seu ateliê, Samuel conclui que não trocaria ser artista por nada no mundo. Seu disco favorito da vida é 20 Palavras Ao Redor do Sol (1979), de Cátia de França, e, para ele, ser pintor o tornou um melhor músico. “O trabalho de pintura é um trabalho de criar em expansão dentro de um certo limite de tempo e, no meu caso, eu tenho uma busca por paisagens, espaços internos e externos, cartões postais, que podem ser espirituais, mentais e físicos, e minha busca é que essas paisagens tenham um a mais. Não estou atrás de uma criação perfeita, eu quero desdobrar, ir além da loucura. E a música permite resumir essa investigação em três, quatro minutos. A minha experiência de pintura, sabendo que eu tinha que resumir tudo em uma obra, me dá capacidade hoje de resumir essa mesma busca em uma canção”. Na última loja pela qual passamos, Samuel levou Samba Esquema Noise (1994), do Mundo Livre S/A, Ethos (1976), do Ardour, e Moacir de Todos os Santos (2022), do Letieres Leite com Orkestra Rumpilezz. Procurou, em todas as lojas, um disco do Ednardo pra levar pra casa. Não encontrou. “Agora só falta a vitrola”, refletiu, com sete discos debaixo do braço.
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