Viratempo e os ecos do passado

Grupo paulistano experimenta novas sonoridades ao revisitar composições de seu catálogo no EP “AUTOCURA”

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Fotos: Divulgação

2020 tem sido um ano bastante estranho e decisivo para todo mundo, não é mesmo? Dentro de casa acabamos aprendendo a lidar com a solidão e relembramos o passado (nem tão distante) normal, seja na memória ou recorrendo a nossos #tbts. E, de certa forma, é justamente essa visita ao passado que perpassa o novo lançamento do grupo paulistano Viratempo, o EP AUTOCURA

Apesar de o projeto ter sido concebido durante um período pré-pandêmico, ele se encaixa perfeitamente à melancolia que o surto de COVID-19 nos trouxe. Para este registro, o quarteto reexamina seu passado ao trazer, agora, algumas das composições da primeira fase do grupo, que, na época, se agarrava ao Folk e flertava com suas vertentes mais modernas. Quatro anos depois, essas músicas ganham novas identidades e significados ao serem remanejadas sob arranjos que espelham a nova fase da banda, iniciada no disco de estreia, CURA, lançado em 2018.

“A ideia de revisitar algumas músicas antigas começou logo após o lançamento do nosso disco CURA, em 2018, pois percebemos que não fazia muito sentido tocar ao vivo as músicas antigas na estética original”, comenta o vocalista Vallada. “Então, fizemos algumas novas versões para tocar ao vivo, e isso deu início a primeira faísca do AUTOCURA. Acho que foi um processo natural e necessário para que a gente pudesse se reinventar e nos adaptar a nossa nova essência”.

Se o primeiro EP foi marcado por uma sonoridade Neofolk, o primeiro disco passa por uma reinvenção completa da banda, que viaja entre o Synthpop e sonoridades eletrônicas, ainda que as letras sigam tradições bastante Folk, de tom intimista confessional. “Acho que essa ressignificação tem reflexo direto nessa mudança de mentalidade e de realidade que todos nós vivemos”, diz Vallada sobre a transformação sonora ocorrida entre 2016 e 2018, mas que também se aplica ao novo contexto de 2020.

Mais do que um processo de simplesmente regravar músicas antigas (agora, de forma muito mais eletrônica e experimental do que a vista em CURA), a obra vem de um olhar novo para o passado, de uma renovação de sentido ao que já foi – processo que dialoga com sessões de terapia. “Falando de uma forma semiótica, no CURA a gente experimentou olhar para dentro de nós mesmos, mas ao mesmo tempo olhar para fora e conviver com essa dualidade. Então, foi processo de autodescoberta mais iluminado, de utilizar a CURA como descoberta de uma essência”, conta o vocalista.

“Adquirimos outras perspectivas de situações passadas, mas o que fica é que nem tudo será 100% curado, mesmo buscando isso. Às vezes vão ainda existir resquícios e fragmentos e acho que isso é uma parte muito importante da nossa evolução”

“No processo de AUTOCURA, partimos do que já conhecemos e tentamos tirar alguma reflexão disso. O olhar dessa vez só é interno e muitas vezes quando olhamos para dentro é preciso lidar com muitos demônios e sombras que a gente tenta não mexer. É um processo contínuo, sim, e acredito que a sonoridade dos dois trabalhos segue muito essa comparação”. E, de fato, é perceptível a evolução dessas versões. Uma mesma letra ganha diferentes sentidos sob uma nova roupagem – e hoje, há mais lastro, bagagem e força nos versos.

E essa bagagem é compartilhada com outros músicos. Agora, com a ajuda de nomes como ÀIYÉ e SARTØR, as canções ganham dimensões e identidades mais amplas, como se essas histórias não mais fizessem parte da vivência de apenas uma pessoa, mas de um coletivo. Vale dizer também que os nomes agregados à narrativa da banda foram se acumulando aos poucos – em shows e parcerias – e aqui dão contribuições em versões de estúdio, consolidando de vez esses encontros.

De CURA a AUTOCURA, há uma evolução não só musical, mas pessoal. Existe nessas gravações a noção de que o passado nunca está, de fato, finalizado – é uma ferida que se fecha, porém deixa uma cicatriz. Há também o aprendizado muito importante de que esses processos de ressignificação do que passamos é algo contínuo e velhos acontecimentos são capazes de produzir novas compreensões – mais significativas e valiosas do que as “originais”. Nas palavras de Vallada: “Adquirimos outras perspectivas de situações passadas, mas o que fica é que nem todas essas situações vão ser 100% curadas, mesmo buscando isso. Às vezes vão ainda existir resquícios e fragmentos não-curados e acho que isso é uma parte muito importante da nossa evolução como indivíduos”.

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ARTISTA: Viratempo

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts