Virgens Suicidas, Atmosféricas E Debutantes

Lá se vão quinze anos da trilha do duo francês Air para a estreia de Sofia Coppola

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Já se vão quinze longos anos desde a chegada aos cinemas de As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides), filme de estreia da diretora americana Sofia Coppola. Posso estar equivocado, mas não lembro do longa passando em alguma sala de exibições brasileira na época, coisa mais ou menos normal em se tratando de um circuito voltado para o cinemão mainstream como é o nosso. Mesmo assim, quem estava atento aos lançamentos de disco daquela longínqua virada de milênio, certamente ouviu falar do filme através de sua trilha sonora original, composta pelo duo francês Air.

Naquela época (1999/2000), Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin estavam, por assim dizer, na crista da onda e com a bola toda. As expressões datadas são intencionais, justo para afirmar que a dupla havia impressionado os ouvidos planetários com seu sensacional álbum Moon Safari, lançado em 1998. Do nada, Air se tornou ponta de lança de uma discreta e elegante revolução, que passava bem longe do Rock daquele período, que optava entre seguir Radiohead rumo a um futuro do pretérito, frio e distópico ou subir nos ombros de um reformado e reinventado (mas não tanto) Oasis, mal imaginando que os cafofos mais undergrounds de Nova York logo dariam a opção da terceira via através da chegada de The Strokes. Enquanto nada disso acontecia e os ouvintes optavam por qual rumo tomar, o duo de Versailles surgiu com uma interessante mistura de tempos, estilos e abordagens.

A sonoridade aveludada e quase-dançante de Moon Safari viera para confundir aqueles que pensam na música Pop como uma reta evolutiva. A música de Dunckel e Godin se valia de referências sessentistas (trilhas sonoras, Burt Bacharach) devidamente apropriadas por ferramentas dos anos 1970 (Ambient Music de Brian Eno, Eletrônica de Bowie em Berlim, Futurismo) mas interpretadas com o cinismo e a observação do chamado fin de siécle. Convenhamos, era um coquetel de informação musical tão rico que parece descabido esperar tanta referência hoje em dia. Com uma credencial tão forte quanto Moon Safari, a dupla se viu alçada a um patamar de grande promessa, daquelas que, como o termo já diz, cria enorme expectativa para o trabalho seguinte. Como são caras fora da lógica dos popstars normais, os franceses de Air entregaram como seu segundo álbum (alguns dizem terceiro por conta do lançamento de Premiers Symptômes, coletânea lançada em 1999 trazendo os primeiros trabalhos da dupla, antes do lançamento de Moon Safari) sob a forma da trilha sonora do filme que apresentaria Sofia Coppola para o mundo.

Na verdade, a filha de Francis Ford Coppola já havia aparecido na telona no papel da jovem Mary, neta de Michael Corleone (Al Pacino) em O Poderoso Chefão III. Alvo de críticas quase unânimes por conta de seu desempenho fraco como atriz, Sofia ressurgia em meio a grande hype, totalmente inserida no contexto de um novo cinema americano, de viés independente e sem qualquer preocupação com o sucesso. Mesmo badalado por sua diretora e produzido por Francis Pai, As Virgens Suicidas não escapa do status de filme cult, mas com um séquito fiel de fãs. Com o roteiro adaptado do livro do escritor americano Jeffrey Eugenides, a trama gira em torno da família Lisbon, mais precisamente, das cinco irmãs, com idades variando entre 13 e 17 anos, moradoras de Grosse Point, cidadezinha do estado americano de Michigan, perto de Detroit, em algum lugar do início dos anos 1970. Com a liberdade totalmente cerceada pelos pais religiosos radicais, vividos por James Woodes e Kathleen Turner, as meninas não têm vida fácil, sendo que o filme já começa mostrando o suicídio da mais nova, Cecilia.

As quatro restantes, lideradas pela mais velha, Lux, vivida por Kristen Dunst, fazem de tudo para estabelecer algum tipo de contato com os outros jovens da escola, mas sem sucesso. A beleza misteriosa das irmãs atrai um grupo de jovens nerds que tenta algum tipo de contato, sem muito sucesso, mas desta interação sai uma das mais belas sequências de amor da história recente do Cinema: os rapazes telefonam para as irmãs Lisbon e, sem falar nada, apenas colocam o fone próximo às caixas de som de uma vitrola, se valendo de canções como Hello, It’s Me (Todd Rundgren) e Run To Me (Bee Gees), enquanto as irmãs respondem com Alone Again (Naturally) (Gilbert O’Sullivan) e So Far Away (Carole King). A situação se agrava por conta do relacionamento que se estabelece entre Lux e um rapaz mais velho, Trip Fontaine, vivido por Josh Hartnett, mal visto pelos pais das irmãs.

O desfecho, como o título do filme já entrega, não é nada bom, mas Sofia Coppola consegue criar uma espécie de bolha atemporal nessa visão dos anos 1970, usando tanto as músicas da época como a excepcional trilha produzida por Air. A canção Playground Love, com participação de um tal de Gordon Tracks nos vocais (pseudônimo de Thomas Mars, cantor do grupo francês Phoenix e futuro marido de Sofia), é uma espécie de balcão de viagem para este lugar sem tempo e sem pressa, encontrado no filme e com ressonância total nas canções compostas pelo duo. Não é Jazz no sentido estrito das improvisações, mas guarda algo do saudável não respeito por convenções, algo que está na origem do ritmo. Não é Pop porque não aposta em refrãos e melodias ganchudas para conquistar ouvintes. Não é música especificamente composta para trilha sonora, no sentido do gênero criado pelos filmes italianos e franceses dos anos 1960 porque manipula ferramentas eletrônicas que são colocadas a serviço da criação de um espaço único, totalmente capaz de se situar em 1999, 2015 ou no início dos anos 1970. Resumindo: a trilha é atemporal.

Quinze anos depois, a dupla relança The Virgin Suicides numa edição dupla cheia de mimos, o maior deles resumido na inclusão de um disco bônus, cheio de versões ao vivo das canções da trilha, gravadas em janeiro de 2000, em Los Angeles, além de sessões para a emissora KCRW e rascunhos de estúdio das faixas. Raro caso de trilha que sobrevive bem sem o filme, o álbum de Air desempenha bem o papel de segundo trabalho, sua estranheza e peculiaridade por ser um disco vinculado à uma outra obra, mostra o quanto a dupla procura seu próprio caminho, longe de convenções e padrões. Em 2015, quando Air já possui vinte anos de carreira e conta com nove álbuns, prestes a lançar uma coletânea dupla de remixes, poucas bandas enveredam pela composição de música para cinema, e menos ainda são capazes de criar música que se sobreponha ao longa ao qual está vinculada. The Virgin Suicides é um caso típico dessa agradável e rara condição. Veja o filme, ouça (muito) a trilha.

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ARTISTA: Air

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.