Vocal Sisters: Tradição Intocada

Conheça o cenário revival dos trios vocais femininos, suas origens e quais podem ser suas repercussões futuras

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Venho escrevendo alguns artigos recentemente sobre gêneros musicais, e, embora sempre distante de abarcar todas as variantes das vertentes e seus respectivos representantes, procuro, na medida do possível, apresentar um quadro geral da evolução de um determinado cenário. Às vezes, a claridade da situação se dá aos poucos, e o fato de que se trata de um gênero ou estilo específico pode vir ao longo do artigo, conforme vêm a reunião dos diversos exemplos que partilham algumas características em comum. Outras vezes, procuro rastrear brevemente as origens de um estilo, e, acompanhando a evolução do mesmo, analiso como a fusão com uma série de outros estilos resulta num gênero específico. Esses não são procedimentos pensados friamente, pois se dão, embora sempre mantendo o máximo de fidelidade com as histórias, de modo natural. Mas, para o artigo de hoje, vou me ater a uma característica um pouco diversa dos demais grupos sobre os quais escrevi. Existe algo na origem dos grupos vocais femininos do Jazz dos anos 30 que move as pessoas no sentido de se manterem fiéis ao que os mesmos representavam no passado, se apropriando pessoalmente de suas influências, podemos dizer assim, de maneira muito respeitosa, e provendo modificações super sutis ao decorrer das décadas. É claro que grupos vocais têm sofrido alterações desde suas origens, seria muito leviano negar tal fato. Mas, embora existam fases específicas para tal, diferente de alguns gêneros sobre os quais escrevi até agora, algo mantém esses grupos numa mesma linha musical, mesmo 80 ou 90 anos decorridos, graças a um revival repentino, tardio e bastante intenso. Vamos dar uma olhada nas bases poderosas desses grupos femininos vocais. Ah, e para atestar minha teoria de que, mesmo fazendo um recorte muito específico de determinada época, vou encontrar uma base sólida e contundente, vou tentar me ater apenas aos grupos com “sisters” no nome, será que consigo?

Vejamos…

Origens

A história dos grupos vocais femininos influenciados pelo Jazz e Swing remete aos longínquos anos 20. São quase 100 anos de história que deixam um rastro que permanece quase intocado até os dias de hoje! Originalmente conhecidas por Hamilton Sisters and Fordyce, as irmãs atingiram o sucesso radiofônico sob o codinome de Three X Sisters no início da década de 30, cantando sobre uma forte influência do Swing. Estava dada a largada para a consolidação do espírito de sua época:

A participação em aparições hollywoodianas dos três principais grupos femininos da época, além do seu consequente sucesso radiofônico, é um grande fator que contribui para as bases tão sólidas de sua história. Outro grupo a participar de filmes diz respeito às Pickens Sisters. Lideradas pela irmã mais velha, Jane Pickens Langley, que se tornou uma grande cantora da Broadway, a família chegou a ganhar cerca de 1 milhão de dólares em cinco anos (quantia invejável, afinal, lembre-se que estamos falando da década de 30). As irmãs Pickens pendiam muito mais a um estilo satírico conhecido como Novelty Tunes, que trata as letras da música de modo bem-humorado.

Mais centradas no Jazz do que suas contemporâneas, as Boswell Sisters fizeram bastante sucesso após sair do interior dos Estados Unidos em direção à Nova Iorque. Graças à sua capacidade de harmonização as irmãs frequentemente gravavam covers da época mudando o tom das músicas para acordes menores, ao invés das chaves originais em tom maior, coisa bastante rara no momento.

Surgindo originalmente com um cover das Boswell, as Andrews Sisters seguiram na onda das Three X Sisters, e atingiram o sucesso mundial graças a suas participações nos filmes de Hollywood, além de sua famosíssima parceria com da nossa querida portuguesa naturalizada pelas terras da colônia, Carmem Miranda. As Andrews Sisters são conhecidas como o trio vocal feminino mais famoso de seu século, chegando a vender 80 milhões de cópias, cantando um estilo baseado no Boogie-Woogie e no Ragtime além de, graças à sua parceria com Miranda, na música latina. A grande repercussão que o estilo tem até hoje deve grandemente a elas. A última integrante, Patty Andrews, nos deixou no início deste ano.

Heranças

Com um boom causado pelo filme Les triplettes de Belleville de 2003 o revival do estilo retoma diretamente as suas origens. Diversos grupos voltaram a aparecer, mais como uma homenagem às suas representantes fundadoras do que como uma continuidade própria da cena.

Estes grupos, que mantém a mesma aura de outrora, embora perdendo a conexão parental (os infindáveis nomes “sisters”, que, se em sua época, faziam jus à veracidade do parentesco das meninas, hoje permanecem firmes graças, justamente, à homenagem que evoca) baseiam-se no título de suas antecessoras para deixar claras suas referências. Os grupos atuais costumam ser descritos, graças a nossa quantidade ilimitada de referências de hoje em dia, como Swing Punk ou Burlesque Revival. Algumas das artistas com maior repercussão no momento estão entre os nomes das Puppini Sisters, Three Belles e as belíssimas The Nymphs. Respectivamente:

Há algo bastante peculiar e facilmente notável nesta série de vídeos recentes. Normalmente, mesmo quando um grupo atual faz uso de uma música contemporânea, trabalha o arranjo para que se encaixe no padrão do que significava o swing do estilo no passado. Além das canções atuais retrabalhadas, todos os elementos sofrem uma roupagem retrô para se encaixar no padrão do século anterior, desde os figurinos das integrantes, até os instrumentos escolhidos para a banda de apoio, além, obviamente, da aura do show em si. É claro que a maioria desses grupos surge justamente como cover da totalidade do repertório das meninas dos anos 30, mas, o que me parece interessante é que, graças a este afã nostálgico, aos poucos, as influências começam a ser gradativamente apropriadas e o cenário começa a parecer propício para o aparecimento de novos trios vocais que produzem um repertório próprio, bebendo diretamente da fonte de suas heranças, poupando as mediações entre seus antecessores.

Quer apostar que em breve teremos o aparecimento de grupos que, por meio da utilização dessas bases criam sua própria obra em grupos vocais de Swing Jazz, mesmo que um século depois?

Eu apostaria.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte