Wolf Alice e a magia no mundano

“Muitas coisas podem caber na narrativa de um fim de semana”; guiada pela voz e as letras de Ellie Rowsell, a banda britânica acaba de lançar seu aguardado terceiro disco, “Blue Weekend”

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Fotos: Jordan Hemingway

A Inglaterra em 2010 oferecia ao mundo uma frutífera cena inspirada no Folk e encabeçada por Laura Marling, Noah and the Whale e Mumford and Sons. Essa poesia campestre e cheia de violões dividia espaço com um Indie Pop animado, que tocava à exaustão nas pistas. Assim, de uma forma torta, naquele momento os dois movimentos ajudaram a enterrar as guitarras do começo da década.

Inspirados pelo momento, no mesmo ano, Ellie Rowsell e Joff Oddie, dois jovens londrinos, formaram um duo de Folk, que seria a semente do Wolf Alice. Pouco mais de três anos depois, já com Theo Ellis (baixista) e Joel Amey (baterista), Ellie (vocalista) e Joff (guitarrista), o grupo lançou o EP Blush, impregnado pelo Rock Alternativo dos anos 1990 – o que ajudou a desenterrar as guitarras. Depois de Creature Songs (2014) já causar considerável burburinho, veio a estreia definitiva: My Love Is Cool chegou ao segundo lugar das paradas britânicas.

Ao longo do percurso até aqui, o grupo ainda arrebatou, com o segundo trabalho, Visions Of A Life (2017), o prestigiado Mercury Prize, em 2018. Adicione a essa ascensão turnês pelo mundo, capas de revistas e milhões de plays em streamings e clipes – principalmente de “Don’t Delete The Kisses”, uma balada romântica Dream Pop que se tornou um pequeno clássico da banda.

Blue Weekend, terceiro álbum do Wolf Alice, lançado hoje (04/06), é um refinamento de tudo que os traz até aqui e eles estão confortáveis com isso “I am what I am and I’m good at it, cantam em “Smile”. Pode ser uma primeira audição difícil para quem espera por momentos explosivos, mas deve atrair novos fãs já que o trabalho constrói, ao longo das 11 faixas, um universo intimista, ainda que por meio de um pot-pourri elegante com diversos estilos musicais. “Acho que a gente ‘luta’ às vezes com as coisas que ouvimos, mas eu acho que quando ouço ‘How Can I Make It OK’, ouço algo de Christine and the Queens, a gente ouviu muito o trabalho dela, a Ellie principalmente. O Ultraviolence, da Lana Del Rey. Eu lembro que em um momento a gente tava ouvindo muito The Band, não sei como isso pode ter influenciado, mas em questão de composição eles são espetaculares”, nos conta Theo em entrevista ao Monkeybuzz. “Eu diria que Queens Of The Stone Age, talvez em ‘Play the Greatest Hits’, The Roches quando a gente queria a ideia de vozes com a energia de coral. o Sorry que é uma banda nova do sul de Londres coisas, sabe? Mas cada uma tinha suas próprias referências, não consigo dizer referências para o álbum em si”, complementa Ellie.

“Acho que a gente ‘luta’ às vezes com as coisas que ouvimos”

O fio condutor do trabalho, fica claro, é o aspecto emocional, em especial de Ellie. “Eu acho que o que liga todas as músicas são as letras, a gente tentava expressar pela música o que a Ellie estava querendo dizer, colocar aquelas emoções e tentar representar isso. Tipo ‘Play the Greatest Hits’, é um som bobo, na melhor maneira possível, é meio maluco, alto, rápido, cheio de guitarras distorcidas. E ‘The Last Man on Earth’ é extensa, humana, e o piano encaixa muito bem porque é direto ao ponto, e forma um som orgânico. Acho que a instrumentação e a escolha estilística refletem as letras”, sintetiza Theo.

No começo de 2020, eles foram para Bélgica e entraram em estúdio para trabalhar no novo registro. Depois de algumas sessões – a pandemia, o lockdown. A banda acabou voltando todas as atenções para o álbum, de forma ainda mais minuciosa. “Não ter as distrações do dia a dia. Assim, a gente se sente imerso no processo do álbum. Mas eu não sei se os arredores influenciam diretamente no som, porque já estava tudo escrito, mas talvez o clima e a companhia possam mudar seu humor para trabalhar, sabe?”, sugere Ellie.

O primeiro single “The Last Man on Earth”, lançado em fevereiro, é uma balada envolta de melancolia, quase toda somente no piano, escolhida como carro-chefe justamente por conta dos tempos angustiantes que vivemos. E o curioso é que Blue Weekend está entre alguns dos poucos trabalhos lançados neste ano que ainda trazem o fator gravado antes da pandemia. Agora, o álbum vê a luz do dia em uma Inglaterra já muito mais próxima de alguma normalidade, o que torna o aspecto mundano das letras especialmente mais sedutor. Versos como “It’s not hard to remember / When it was tough to hear your name/ Crying in the bathtub / To ‘Love Is a Losing Game’” devem ressoar harmoniosamente em um público sedento por experiências, nem boas ou ruins, mas sobretudo humanas. Ainda que como forma de licença poética. “Na verdade, é uma pena eu dizer que isso não aconteceu, nunca chorei na banheira ouvindo ‘Love Is A Losing Game’”, esclarece Ellie Theo interrompe “Eu já (risos)”. “Mas acho que é algo que eu super faria”, volta Ellie. “Acho que se você tivesse 14 anos, né? (risos)” ironiza Theo. “Mas eu sabia exatamente o que eu queria dizer, e citar exatamente essa música acho que foi pelo número certo de sílabas que eu precisava, sabe?”, finaliza Ellie.

A simplicidade e a assertividade da compositora Ellie Rowsell, que fala às vezes de amor romântico e outras de relações interpessoais, são o que dá tração ao álbum, mas sua voz, também, ecoa mais confiante do que nunca. Como em “Lipstick On The Glass”, talvez o ponto mais alto do disco, com modulações que incorporam texturas e entregam novos significados às palavras, a partir do belíssimo alcance vocal. Durante a calmaria, ela cria harmonias angelicais, e em momentos de fúria, os gritos aparecem rasgando tudo. A vocalista deposita uma intenção em cada palavra, é como se o Art Pop de Kate Bush e Julia Holter encontrasse conforto em uma mesa de pub.

É interessante pensar que, em Blue Weekend, todas as referências citadas até aqui realmente se condensam – e esse feito tem nome e sobrenome conhecido na indústria musical, o do produtor Markus Dravs. “Ele trabalhou com vários artistas diferentes. Bjork, Coldplay, Mumford and Sons, mas aí com o Arcade Fire. Isso mostra que ele tem um grande alcance de capacidades, conhecimento e experiência. E eu acho que a gente esbarra em vários estilos e quer trazer o melhor para as nossas músicas sem ter medo de tentar coisas novas e estilos musicais. Então, foi interessante trabalhar com alguém que tem um currículo tão diverso. Ele teve a habilidade de nos questionar, de perguntar quais eram as intenções, para que ele contribuísse no álbum como um todo. E é um cara muito legal, funcionou de forma muito coesa”, conta Theo.

O título Blue Weekend leva ao limite o que o trabalho todo encarna: um céu azul em um fim de semana é motivo de alegria (principalmente para os ingleses), mas pode significar um fim de semana cheio de tristeza e drama, já que são dias que servem para extravasar – e a melancolia vem como consequência. “Eu acho que o nome ressoa com a gente por causa disso, dessa dualidade, mas foi uma coincidência porque não veio com o álbum. Alguém disse isso e pensamos ‘ah, isso soa legal’, até porque ‘Play the Greatest Hits” é sobre um fim de semana, muitas coisas podem caber na narrativa de um fim de semana, e aí tudo funcionou bem, explica Ellie.

“[Sobre o produtor Markus Dravs] A gente esbarra em vários estilos e quer trazer o melhor para as nossas músicas sem ter medo de tentar coisas novas. Então, foi interessante trabalhar com alguém que tem um currículo tão diverso. Ele teve a habilidade de nos questionar, de perguntar quais eram as intenções, para que ele contribuísse no álbum como um todo. É um cara muito legal, funcionou de forma muito coesa”

Para ajudar na narrativa do novo trabalho a banda chamou o fotógrafo e diretor Jordan Hemingway, famoso pelo trabalho com moda e música, sempre adepto de uma estética fantasiosa e lúdica, nebulosa e desorientadora. Uma tradução bela e sinistra da vida. Além da capa, que exprime com exatidão todo sentimento da obra, os clipes seguem a mesma direção. “A ideia apareceu depois de gravarmos o álbum. A gente queria criar uma narrativa visual para o álbum, na ordem das músicas. Todos foram gravados a noite. E casou com a ideia de retratar coisas bem mundanas de um final de semana, mas o Hemingway traz mágica para essas passagens mundanas. Ele dividiu referências com a gente, eram cheias de anjos, o filme Asas do Desejo (do alemão Wim Wenders), não pela estética, mas como esse filme é sobre a vida, e você coloca nisso esse elemento de mágica”, conta Ellie.

Ellie Rowsell, ao longo da última década, tornou-se referência não só pela música. Quando apareceu com o Wolf Alice, havia um bom tempo que novas mulheres com guitarras não despontavam, ainda mais trajando vestidos. Ela apareceu como um novo ar em meio a tantos homens nos palcos de festivais. Reviver camisolas de seda lá por 2015, usar sombra de glitter prata e – sempre sem esforço – parecer incrivelmente cool são algumas chancelas distribuídas por Ellie, provavelmente sem saber, a jovens que precisavam se sentir mais confortáveis. Pergunto, agora, se ela se sente mais confortável ao ver uma cena cheia de mulheres tocando guitarras. “Acho que sim. Na real, eu não sei dizer. Quando entrei na banda, nem pensei nisso, sabe? Bom, eu fui para uma escola só de meninas e estava sempre rodeada de mulheres poderosas. Eu era uma grande fã do Yeah Yeah Yeahs e tinha muito a Karen O em mente. E eu sempre estive rodeada de homens que não me faziam eu me sentir diferente deles” Ellie. E por falar em mulheres poderosas digo que aguardamos a banda finalmente para um show no Brasil e pergunto se eles conhecem alguma música brasileira. “Eu conheço uma cantora de reggaeton… Isso! Anitta. Bom, se parecer legal eu falar que eu conheço, bom então conheço (risos)”. Tal qual Anitta, Ellie e Wolf Alice se preparam para dominar os Estados Unidos – ainda neste ano, o grupo roda com uma turnê extensa por lá. “Não vemos a hora de não termos mais que fazer lives”.

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ARTISTA: Wolf Alice